Guilherme Silva

Ou Gui, como a maioria de nós conhecemos.

O Gui é um garoto de energia boa, fraterno, coração bom. Primeiro você vai achar ele tímido…mas conversa de sonhos ou skate com ele, que você vai virar amigo de cara!
Batemos um papo, e segue como foi!

 

 

– Como começou a andar de skate? veio de onde seu despertar pelo skate? Você teve alguma inspiração?

Comecei a andar de skate com 9/10 anos. Era o mais novo entre a molecada, consequentemente ficava sempre de próximo no futebol. Nunca consegui ficar um minuto parado, esperando pra jogar, então dei ideia pra um amigo de começarmos a vasculhar coisas velhas na garagem dele, até que achamos um skate (tubarão) e um patinete. Tive um amor a primeira vista com o carrinho, mas como não era meu e outros queriam andar também, revezamos com o patinete, o futebol, o taco, entre outras brincadeiras de rua.

Com o passar do tempo, meu amigo comprou um skate bom pra ele e deixou o tubarão comigo e meu irmão, até meu pai comprar um para nós.
O skate me trouxe um sentimento que todo ser humano busca: a sensação de que tudo, ou pelo menos muita coisa, é possível.

Aquilo que uns sentem ouvindo uma boa música, outros torcendo pra um time, outros saltando de paraquedas, eu senti desde a primeira vez que andei de skate.
Minhas maiores inspirações eram os skatistas do bairro que eu via descendo uma ladeira perto de casa, na época, a descida parecia enorme, e ficava empolgado observando eles fazendo tão facilmente, algo que pra mim, era impossível.

 

 

– O que é o skate pra você?

O skate na minha opinião, sempre foi e sempre vai ser forma de expressão. Algo como um meio de comunicação, desde criança foi isso pra mim. Toda manobra que faço, sinto como se estivesse gritando algo que tenho guardado.

– Vamos falar de sonhos…

Quando tu fecha seus olhos e tenta pensar em um grande sonho seu…qual vem a sua mente? Quais sonhos você tem no coração?

Assim como todo skatista, sonho em viajar, soltar umas vídeo partes, ganhar um dinheirinho pra viver e aproveitar tudo isso que essa vivência nos proporciona. Mas esses ainda são sonhos rasos. Quero ser reconhecido, além das manobras, quero que me admirem pelo que sou. Quero usar o skate de ponte para levar algo bom para as pessoas, até mesmo as que não estão nesse meio. Claro que a vida não é só flores e ninguém é exemplo perfeito, mas tentar passar a ideia e a energia boa pra galera, sempre é válido.

Falando em coração e sentimentos…como está seus sentimentos nessa quarentena?
É estranho, a gente está acostumado a ficar o dia inteiro manobrando e de repente a atividade mais radical do dia é lavar a louça hahahaha.
No começo tava difícil, sem ter pra onde fugir fica muito mais complicado de lidar com o pensar e sentir. Mas no decorrer do tempo voltei a enxergar minha casa como uma criança enxergaria. Todo dia tentando ver possibilidades diversas de criar e transformar a ansiedade em coisas boas. Ficar em casa não é sinônimo de ficar parado.

 

 

O que está mais sentindo falta?

Sinto falta de abraçar a galera. Principalmente depois daquele acerto de manobra.

– Com o mundo praticamente ‘parado’, sua visão do mundo mudou? Se sim, o que?

Falando não só de mim, mas de muitos, sendo por medo ou não, estão dando mais valor às coisas simples da vida e despertando uma compaixão maior com o próximo, sendo mais higiênico e cuidando mais do próprio corpo.
Tenho pensado muito em como é bom estar na rua independente de qualquer circunstância. E as vezes que saí para ir ao mercado ou algo do tipo, degustava cada detalhe daquele momento. Não seria uma mudança no meu jeito de pensar, sim uma intensidade maior no meu jeito de viver.
Nesse período, tudo está vindo à tona, os pensamentos ruins, as pendências com as pessoas, as próprias dificuldades e isso porque estamos sozinhos. Na famosa “vida normal”, não nos damos tempo, simplesmente ligamos o automático. Porém, no momento, não tem saída. Tem coisa que temos que resolver com nós mesmos, e se não vêm por bem, a vida trás na marra.

 

 

– Sei que seu lado artista é forte, quando conheceu esse teu lado?

Desde criança eu não parava quieto, tudo era rabisco, tudo era invenção. Quando tinha uns 6 anos, minha mãe fez o corre de uma bolsa de estudos para mim, em uma escola de arte. Aprendi muito lá e quando tinha 12 anos,  a professora quis me mandar pra turma dos mais velhos, me sentia perdido estando no meio de tanta gente muito boa, a ponto da minha insegurança e timidez me fazer largar o curso. Talvez meu único arrependimento na vida.
Apesar de tudo, nunca consegui parar de produzir no tempo livre e aprendi que na arte não existe melhor ou pior, menor ou maior, faça o que quiser e já era!

 

 

– Se inspira em um momento específico para escrever…ou só vai?

Para ser sincero, as palavras são minha última opção, acabo fazendo mais desenhos e colagens. E quando escrevo, acabo guardando para mim, coisas que  saem em um processo totalmente natural, normalmente quando estou muito pra baixo. As vezes, preciso escrever pra conseguir organizar a bagunça dos meus pensamentos e ficar mais calmo.
Mas em um passado recente, quando saíamos com mais frequência, eu ia anotando reflexões repentinas ou provenientes de situações que via na rua ao longo do dia e depois tentava montar algo.

 

 

– Se pudesse dizer algo para o mundo…o que diria?

Não se deixe ser engolido pelo ego que existe dentro de cada um de nós, muito menos pela sujeira da cidade.
É treta mas não é impossível, a gente pode tudo, só não pode sair de si, se sair, volte. Com a consciência e ombros leves de saber, que ser quem somos, já basta. Não se compare, se inspira mas não copia. Faz do teu jeito. Nenhum erro é à toa, aprenda com eles. Temos dias para ouvir, aprender, temos dias pra falar e ensinar. Ninguém aqui é perfeito e nem vai ser, que façamos nosso máximo para melhorar.
Um beijo pra geral que ta junto!

Matéria: Karmel Liedmann