As mulheres do design de capas

Antes de começar a ler esse artigo, coloque alguma música do disco Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, dos Beatles. Observe a capa. Dê play. Ok, agora pode começar. 

 

As capas de álbuns são elementos visuais super importantes na música. Elas trazem não só o referência imagética daquele compilado, como também o que a banda ou artista queria passar. Às vezes traz uma mensagem, uma imagem chocante, algo minimalista, um retrato dos músicos, enfim, as possibilidades são infinitas.

 

Para os mais apaixonados por música, ouvir uma canção é lembrar do seu álbum e, consequentemente, da sua capa. O Sgt. Pepper’s que você está ouvindo, por exemplo, tem uma capa icônica: os integrantes da banda, Aleister Crowley, Fred Asteire, Mae West e vários outros nomes históricos. Mas isso, provavelmente, você já tinha notado. 

 

Agora procure pela música The Girl From Ipanema, mas a versão de Stan Getz e João Gilberto. Observe sua capa: as pinceladas abstratas em tons alaranjados com um fundo preto. 

 

As músicas icônicas se tornam ainda mais inesquecíveis com o poder da imagem que elas remetem à nossa cabeça. Mas essas que pedi pra você ouvir tem algo em comum além de serem clássicas e terem capas incríveis: ambas foram feitas por mulheres.

 

No Sargento Pimenta dos Beatles, Jann Haworth participa da criação da capa, enquanto no clássico da bossa nova “Getz/Gilberto”, Olga Albizu é a artista responsável por dar cara ao álbum. 

 

Para falar ainda mais sobre esse assunto, a gente foi atrás de quem entende: Py Salles é designer, fotógrafa, DJ e fez um estudo super legal sobre algumas capas icônicas da música que foram feitas por mulheres. Batemos um papo para falar de música, design e o papel das mulheres na construção da imagem do som. Se liga:

 

Oi Pyetra, tudo bem? Conta um pouco de você pra gente. 

 

Oi gente! Eu tô bem, na medida do possível, né? Obrigada pelo convite, fiquei bem feliz por me chamarem! Eu sou a Pyetra, moro em Porto Alegre, sou fotógrafa e designer. Tenho meu trabalho fotográfico muito voltado pro cenário musical, fotografando shows, festas e festivais, mas atualmente isso não está sendo possível.

 

Durante a quarentena eu acabei voltando a focar no design, que é o curso que estou me formando,mesmo com a fotografia sendo a minha prioridade. Na faculdade, comecei a pesquisar para o meu TCC e fui pro lado do design na música, já que era um assunto que sempre me interessou. Decidi me aprofundar e vi que o lado imagético era super crucial pro artista da música. 

 

Em paralelo sigo com meus trampos autorais. Produzo com mais três amigos uma festa chamada Pane, com uma estética bem cyper-punk. Também tenho um podcast na Gou Criativa, que é um bate-papo bem informal com artistas visuais que atuam no cenário musical, além de eu fazer algumas matérias sobre esse mesmo assunto pra eles. 

 

Fala um pouco sobre a sua pesquisa sobre o design na música por mulheres.

 

Essa pesquisa não era tão nichada quando comecei. Eu estava pesquisando de uma maneira mais abrangente. Mas foi muito importante pra mim porque sempre trabalhei linkada com esse cenário da música. 

 

Tenho muito amigo DJ e músicos que eu fiz projetos para eles, fazendo arte de festa, cartaz… Sempre fui para esse rolê musical, mas eu não parava muito para pensar que  esse mercado do design na música realmente existia, que tinham profissionais dedicados realmente pra essa vertente. Eu fui descobrindo isso aos poucos, descobrindo referências e artistas, e fui me aprofundando na pesquisa. 

 

Eu tinha um material bem legal já na mão e resolvi postar um estudo mais aprofundado. Foi aí que pensei em fazer esse recorte das mulheres nesse cenário. Foi bem difícil porque, na arte, já é bem gritante essa diferença entre homens e mulheres… A gente já vê isso quando a gente pega lista de fotógrafos ou artistas renomados, por exemplo. 

 

E aí a minha pesquisa foi tomando esse caminho e existem muitas mulheres fazendo o design de capas de discos. Tem aquele artigo que eu fiz, que compilei algumas, mas tem várias outras, por exemplo, a Talita Hoffman, que fez uma capa para a banda O Terno. 

 

Se a gente procurar mais, a gente acha outras mulheres, mesmo não sendo tão fácil. Mas é bem divertido! É algo meio FBI, ver a capa que você gosta e ir buscar quem fez ou um clipe, enfim, é bem legal. 

 

Uma coisa boa que vem acontecendo é que hoje parece que as pessoas estão dando bem mais créditos nas redes sociais para outros profissionais. Você entra no perfil de uma banda e você encontra mais fácil os créditos de quem fez arte, maquiagem, cabelo, enfim, fica mais fácil descobrir as pessoas que estão por trás de cada aspecto. Isso facilita bastante. 

 

Quando a gente pesquisa sobre esse tema, a gente acha pouca coisa, mas nada exatamente falando sobre isso. Por que você acha que a história não aborda esse tema? 

 

Sim, é mais difícil de achar, mesmo. Acho que por ser muito nichado, bem específico. Quanto mais específico for um assunto, mais difícil de achar coisas sobre ele. O design já é algo que demorou um pouco para ser valorizado… A gente consome muita coisa, desde a capa de livros, videoclipes etc. Mas é muito raro a grande parte do público parar para pensar quem foi que fez. Acho que as pessoas relacionam direto ao produto final.

 

Por exemplo, se você está assistindo um clipe do The Weekend, você relaciona a estética à ele. Quem para pra pensar em fotografia, estética, essas coisas, é mais quem trabalha no meio. 

 

Principalmente na música, que é uma frente que tem muitos holofotes, quem toma créditos são os artistas, meio que a gente está “competindo” com pessoas que tem fãs. Então se você pesquisar sobre o material deles, os seus nomes vão sempre vir primeiro. Se for algum assunto já mais nichado, relacionado diretamente ao design, aí a gente tem outros nomes. 

 

Mas a música traz mais holofotes para quem está em cima do palco. Isso dificulta um pouco nessa pesquisa quando você quer saber de artistas que trampam para a música. 

 

E você comentou da pandemia. Como é fazer design na música em tempos de Coronavírus?

 

Hoje na era digital mudou muito a importância do design. Hoje passou a ser mais valorizado e mais banalizado, também. 

 

O design na música nessa era mais digital teve uma super transformação recentemente. Existe muito conteúdo e a gente precisa chamar atenção visualmente. Na internet, é o visual que chama primeiro. As capas de álbuns se tornaram até mais coisa de colecionador e o que está sendo consumido é a arte online, aquela capinha que fica no streaming ou nas redes sociais. 

 

Nisso entra uma questão que, na maioria das vezes, lá atrás quando as capas foram criadas pelas gravadoras, quando eles notaram que as imagens dos discos agregam valor visual de decoração e acabavam vendendo mais, hoje em dia esse contato é com o clipe, principalmente agora que tem muito conteúdo.  

 

O que chamar mais atenção, o que for mais apelativo aos olhos é o que vou clicar. Além disso, é mais fácil hoje achar créditos das pessoas que estão por trás de várias produções do artista. Isso já é bem legal. 

 

Voltando pra sua pesquisa, você falou sobre duas mulheres do punk, a Pennie Smith e a Roberta Bailey e a história sempre mostra o punk como um ambiente masculino e hostil. Como você enxerga a presença das mulheres nessa cena?

 

Já pensei bastante sobre isso. Quando vejo fotos delas fotografando, bem pertinho do palco, com a galera empurrando, em um ambiente nada favorável para fotografar… Fico imaginando que naquela época tinha um cenário bem masculino, até nas bandas, tinham bem mais grupos formados só por homens, poucas bandas de mina. 

 

Além desse cenário, imagina trabalhar em um ambiente de festa, bebedeira, gente passando? Devia ter muito desrespeito por ser mulher e estar trabalhando ali. 

 

Então tenho muito como necessário essas referências. Não só refs visuais, mas como pessoas, porque elas passaram coisas que eu passo, pessoas com as quais eu me identifico e que chegaram lá e conseguiram passar por essas barreiras. 

 

Acho muito importantes essas mulheres na história e é muito legal elas serem mais retratadas. A capa do London Calling é considerada a melhor capa do Rock’n’roll e foi fotografada por uma mina! Olha que foda! Isso é muito legal não só pra mim, mas para outras pessoas que querem trabalhar com fotografia. 

 

Você é DJ também. Você já sentiu essa hostilidade no meio musical por conta de ser mulher? 

 

Eu toco na PANE, sou residente lá e toco por hobby. Na real eu vivo num impasse de me chamar de DJ ou não, pois convivo com pessoas que vivem e estudam isso. Acho mais justo essa galera ser chamada de DJ do que banalizar o termo. 

 

Mas enfim, eu noto muito essa hostilidade, é bem nítida. Pelo fato de eu não estar muito no mercado e não ter sido bookada várias vezes e estar mais no meio profissional do “ser DJ”, não me afeta diretamente, mas óbvio que sinto, porque produzo, tenho amigos, vejo acontecer a desigualdade rolando…

 

Fico muito feliz quando vejo meninas DJs tocando em lugares grandes, voando, fazendo acontecer. Mas essa hostilidade existe, sim. 

 

Saiu, faz pouco tempo, uma matéria na Alataj muito massa sobre esse assunto. Eles conversaram com várias mulheres de diferentes estilos, cidades e meios e elas falaram exatamente sobre isso. 

 

Qual a importância de mostrar essas mulheres no design na música? Acha que isso pode influenciar outras a fazerem o mesmo?

 

Sim, super acho! Não só no design na música, mas em outros cenários da arte. É aquela questão da representatividade: se torna muito mais fácil pra você se identificar com aquilo que está fazendo e ver que você pode chegar lá.

 

Quando a gente pesquisa, por exemplo, filmes premiados ou capas de álbuns, é sempre só homem, branco, cis, hétero… Então você se encontrar, se identificar nessas listas, é muito bom! Com referências, você fica mais forte. É muito importante mostrar essas mulheres sempre. 

 

Confira outras capas de álbuns feitas por mulheres que separamos pra você: 

Vivendo e não aprendendo, do Ira! junta obras de três mulheres e um homem, desenhando os integrantes da banda. Ana Ciça assina o retrato do baterista André Jung; Dora Longo Bahia o do guitarrista e principal compositor, Edgard Scandurra; Camila Tajber o do vocalista, Nasi, e Paulo Monteiro o de Ricardo Gaspa, baixista.

 

O Terno, com o disco de 2019 chamado <atrás/além> tem arte de Maria Cau Levy.

Olga Albizu fez a capa de Stan Getz e João Gilberto o Stan/Getz, em 1964, além de outros álbuns deles e de jazz na época. 

Jann Haworth no disco dos Beatles, Sgt Peppers and the Lonely Heart Club Band.

BJ Papas com capas do Bad Brains, Salt-N-Pepa, Sick of It All, Rancid e muitos outros. 

A arte do EP ULTRIZ, das bandas Eskrota e Afronta, de 2019, foi feita por Victória Santos. 

Marina Knup é a artista responsável pela capa do álbum “O Prego e o Caixão”, de 2018, do Rastilho

 

 

Conheça mais sobre a Pyetra Salles clicando aqui.