Situacionistas realidades

Fernando Denti acompanhou os bastidores das gravações de “Situacionistas”, o novo vídeo do Murilo Romão. E as cenas reais de um vídeo de skate em construção você confere logo abaixo.

O vídeo todo foi filmado de celular, em seguida editado no computador, aí filmado umas partes da tela com celular e essas imagens foram sincadas na timeline com o som original. A idéia era usar alguma técnica lo-fi dos tempos atuais)

Na sequencia, recomendamos que você leia a entrevista franca, aberta, direta e reflexiva que o Denti fez com o “bola de energia”, quer dizer, Murilo Romão.

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Situacionistas realidades
Situacionistas realidades
Situacionistas realidades
Situacionistas realidades
Situacionistas realidades

Murilo, vamos nas básicas para aquecer…

Você anda para algumas marcas consideradas no mercado, tem models de produtos lançados e por aí segue aquela lista que muita gente vê como “um skatista profissional que já tem um espaço conquistado”. O que te motiva produzir estes vídeos se para muitas pessoas você já realiza uma atividade muito bem?



Murilo: Uma das minhas motivações, sinceramente, é preencher essa lacuna que existe de videos que relacionem o skate aos conflitos e disputas que acontecem nas grandes cidades. A todo momento se disputa o público, já que é de todo mundo, ao mesmo tempo não é de ninguém, quais os usos que se podem fazer de uma cidade e que lugar o skatista ocupa em tempos em que o espaço urbano está sendo reconquistado pela população ou por grandes empresas. Outra questão é dar um pouco de voz aos amigos e conhecidos que não estão em marcas, aqueles que não podem ligar para um videomaker para filmar porque não estão no “game”, que precisam comprar peças e andam de skate da forma mais genuína possível, não deixam morrer aquela fagulha que todo nós temos de conseguir viver fazendo o que se gosta, amigos que precisam trabalhar em atividades que nada tem a ver com o skate muitas vezes. Tento injetar um pouco de ânimo nesses, que as vezes se sentem desmotivados pela rotina e/ou pelo cansaço da vida.


Entre os amigos, o Murilo é chamado de “Bola de Energia” dando nome a sua possível hiperativade e a capacidade acima da média de aguentar até altas horas no role (Risos). Romão, como foi a organização do seu tempo no período de gravação e edição em relação ao trabalho como skatista profissional? Precisou sacar uma bateria extra ou você viu que existia tempo disponível e acabou somando essas atividades no seu dia a dia?



Murilo: Foi bem tranquilo, geralmente no começo do ano as marcas estão organizando as ações que vão ocorrer ao longo do ano, então viagens eu sabia que não iam rolar assim no comecinho, então aproveitei para dar um gás nesse vídeo, e também sempre levava a câmera mesmo em momentos de viagens de patrocínio pois sabia que em alguns tempos ociosos poderíamos render para esse novo video, de fato as situações foram sendo criadas sem muita expectativa, mas como rolaria esse seminário sobre a Roosevelt dei um gás para terminar e conseguir fazer a premiere no mesmo dia que foi 17/03/2017.


Se contarmos os vídeos “Flanantes”, “Sob Aparente Desordem” e “Situacionistas” você fecha uma trilogia de uma produção audio visual. Como foi a experiência de fazer estes vídeos? (Aqui falamos…. qual é o aprendizado, se você enxerga uma evolução de um para outro, o que passa na pela e na mente depois de fechar esse ciclo… é contigo)



Murilo: Todas foram muito boas, o Flanantes era pra ser algo pequeno, mas começou a ficar tão legal o processo de filmagem e as redes que fomos criando com músicos etc foi nos guiando para um projeto maior. Ao longo do caminho eu fui descobrindo muita coisa e incluindo no video, achados e referencias de todos os tipos, considero o Flanantes uma vomitada de tudo que eu estava consumindo de informação na época, por isso pode parecer um pouco confuso assim como estava minha mente naquele momento. Já o Sob a aparente desordem foi mais focado na idéia das calçadas mesmo, bem mais organizado e focado em apenas um tema que eram os escritos de Jane Jacobs sobre as convivências saudáveis nas cidades. E o Situacionistas foi o mais legal de fazer pois na época do Flanantes eu ja estava pesquisando, então senti que foi feito com mais embasamento, levei os textos para viagem da Europa que fiz com o Dohdoh, e a todo momento pensava nisso,  então a idéia ja era antiga ai rolou ter bastante tempo para amadurecer e conseguir fazer os possíveis links. Talvez quando comecei o Flanantes eu já pensava nessa coisa do Situacionismo, mas senti que chegaria o momento certo e que merecia uma atenção grande, para um full video mesmo.

Mesmo trabalhando para algumas marcas e com vários contatos dentro do skate, por que fez os vídeos de forma independente?

Murilo: Como fui fazendo sem avisar muita gente, só os chegados, então não sabia da proporção que poderia ter, sempre sem muitas expectativas do resultado final, nunca pensei “Nossa fiz um video louco”, isso quem fala ou não é o público, dai seria muito difícil propor algo para as marcas sendo que nem eu sabia o que estava criando, fomos aprendendo fazendo mesmo.

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Rumando o assunto um pouco mais pro processo de edição… Eu li em uma entrevista com o Pontus Alv que ele conta que nos momentos que está editando acaba perdendo horas entre alguns frames, que no futuro irão durar segundos do vídeo, ele diz sentir como se estivesse meditando pois justamente fica compenetrado numa atividade dentro de um diferente relação com o tempo.

Você se dedicou em fazer tudo ou contou com a ajuda de amigxs? 



Murilo: Sempre com os amigos ajudando, mas a parte de edição e idéias acabei assumindo por ter esse jeito impaciente. André Porto, nosso diretor de arte fechamento também, sem ele não existiria nada dessa identidade visual que acabamos criando.

Qual etapa você tem mais ânimo de fazer?

Murilo: Não consigo escolher uma, mas com certeza editar é bem legal com toda essa liberdade de um projeto independente, não precisa obedecer ninguém, nem fazer alterações de última hora por causa do “cliente”.


Como é para você este processo, você tem alguma sensação similar ao que o Pontus Alv falou a respeito?



Murilo: Com certeza, essa coisa da meditação faz muito sentido, de fato o tempo passa de outra maneira que nem percebemos, é como andar de skate também.


Falando sobre as sessões de skate: você foi o que mais filmou os outros amigos e assim teve que andar menos. Houve picos que você gostaria de ter rendido alguma manobra e não conseguiu filmar?

Murilo: Sim, rola sempre. Na escolinha mesmo que você foi com a gente eu não consegui registrar a minha manobra, pois acabou a bateria no meio do processo.

É verdade, eu tive a oportunidade de estar com vocês em várias sessões e as vezes ficava olhando como vc fazia a sua linha de filmagem para poder captar a linha do outro amigo manobrando. Subia de ollie, ou as vezes até switch ollie, pegava skate na mão, corria e já soltava pra outra base. No momento eram duas linhas acontecendo… Você tinha que desenrolar algumas tricks ali ein!? Conta pra nós como foi essa experiência de filmar. 

Murilo: Vou me adaptando na hora, as vezes tem que ir de fakie ou ss e vamos tentando, as vezes tem que descer ladeira, as vezes subir guia, as vezes até pular gap com o skatista que nem rolou com o Daniel Marques. (risos)

E aí, aprendeu umas tricks novas? (risos)



Murilo: Sempre aprendendo umas novas nesse processo todo.


Depois de ter filmado bastante, como é para você o momento em que vai ser filmado por alguém? A visão que você adquiriu como vídeomaker chega influenciar a forma de andar, como por exemplo, o caminho que vai percorrer, a seleção de manobras, a velocidade e por aí em diante?



Murilo: Isso ainda não consegui perceber, talvez sim mas só vou descobrir quando fizer uma nova video parte. Mas com certeza depois de fazer esses videos da pra discutir mais sobre os ângulos e movimentos né, skate é movimento e quanto mais ele rolar na hora da filmagem mais dinâmico ele se torna pra quem assiste.




Finalizando sobre as filmagens, cite alguns videomakers que te inspiram. 



Murilo: Colin Read
, Pontus Alv
, Cotinz, 
Apelão, 
Felipe Espeto
, Gui Guimarães, 
Diogo Gema


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Agora partindo para as últimas, vamos falar um pouco do meio e da mensagem:
 as vezes a gente faz uma piada com você te chamando de Zelador, Vereador e até Prefeito, justamente por você conhecer muita gente dentro do contexto de rua… Enxergando o cenário de longe percebo o Murilo e o coletivo dos Flanantes como articuladores na produção de vídeos que alimentam discussões, que pensam sobre a forma de lançar e divulgar, também organizam debates e alguns de vocês participam de seminários e de protestos que defendem uma vida social mais justa, certo?

Agora fazendo aquela leve pressão… (Risos). Em um futuro próximo, você se vê organizando ou fazendo parte de algum tipo de associação ou grupo que venha organizar um diálogo e ações sobre o skate dentro de um contexto político e social?



Murilo: Não sei se me dariam essa importância toda, mas de certa forma já estamos participando do grupo “Praça Roosevelt de todxs” contra a transformação da praça Roosevelt em parque Roosevelt.

Já que estamos falando deste assuntos… Qual sua visão pessoal sobre o skate dentro da sociedade neste momento? 



Murilo: Eu acho que com essa entrada na olimpíadas devemos firmar o outro lado do skate, esse que gostamos da cultura, esse que se pratica na cidade, que dá novos usos ao mobiliário urbano, imagino que com esse inevitável enquadramento do skate apenas como esporte, sua prática na rua vai ser cada vez mais combatida e hostilizada, então devemos saber como proceder nesses momentos para mostrar que podemos transformar os lugares, deixando-os mais seguros até, mostrar também que existe um mercado que sobrevive dessa outra prática que não a olímpica, e as duas podem existir. O mesmo skatista que participará da olimpíada pode querer fazer uma video parte na rua.


E depois destes lançamentos qual vai ser o ritmo? Vai dar um tempo, já tem um plano na cabeça e vai continuar na constante de produzir, vai focar só no skate, vai deixar a coisa acontecer…. levar no free jazz?

Murilo: Tenho vontade de fazer um video menor em Brasilia, mais pra frente só. No momento free jazz total.

Murilo, para fechar eu passo a palavra pra você…

Murilo: Agradecer geral apenas! Nois Denti!