Skolas na Ásia

 

Nascidos em Jundiaí, interior de São Paulo, a dupla de grafiteiros Skola tem como base uma das estéticas mais tradicionais do graffiti, chamada na gringa de throw-up. Uma estética que podemos sintetizar como o graffiti rápido, “sujo” e mais visceral. Quase sempre são letras feitas a partir de formas básicas, geralmente em preto e branco, sem muita firula, provando que não é preciso ter muitos adereços ou cores pra ter estilo.

Batemos um papo com os eles sobre a última viagem que fizeram ao continente asiático, viagem essa que rendeu um zine publicado recentemente. Confira alguns destaques dos relatos deles:

 

 

“A viagem aconteceu em dois momentos diferente do ano de 2019. A primeira parte foi no início de março, quando estivemos em Tóquio e Seul. Já havíamos conversado a respeito de Tóquio com outros amigos que estiveram por lá, como o Sono e a Opere e tínhamos muita vontade de conhecer. Foi a partir de um convite do Sliks, que fez uma exposição por lá nessa época, que resolvemos colar junto com ele.”

Chegamos em pleno inverno, estava nevando. Chegar em Tóquio é como entrar num portal onde você é o diferente de todos. É uma cidade fantástica em vários sentidos. Gostamos muito da cultura, da gastronomia, da receptividade das pessoas, foi muito maneiro!

Falando de graffiti, lá a política de combate é bem forte e bem sucedida. Em algumas regiões da cidade até dá pra ver alguns trampos como Shibuya e Shinjuku, mas é bem mais chato de fazer. A cidade tem muitas câmeras high-tech de vigilância que detectam sua presença a centenas de metros, algumas até com reconhecimento facial, de calor. Ou as vezes te pegam dias depois, com investigação. Mas conseguimos fazer algumas tags e throw-ups. O Gueto, nosso amigo sempre fala que no momento ideal, com cautela e com as condições certas é possível fazer graffiti onde quiser (risos)”.

 

 

Depois de Tóquio pensamos em ir para Kyoto e Osaka, ou então viajar para algum país próximo. Como custa caro se deslocar entre as cidades no Japão, os valores davam quase na mesma. Optamos por ir para Seul, na Coreia do Sul. 

Em Seul achamos as pessoas menos receptivas. A Queen, uma amiga grafiteira que é de lá e vive em Nova Iorque, nos colocou em contato com um pessoal bem foda. Um deles é o Dimz, que é tatuador. Aliás, percebemos que lá a tatuagem tradicional vive no underground, assim como o graffiti e a cultura canábica por exemplo. Depois de ir em algumas festas com o Dimz e uns amigos dele, andamos pela cidade e sentimos que era um pouco mais fácil fazer graffiti em Seul. Então espalhamos alguns pela cidade em alguns picos fodas, viadutos. Foi bem legal!

 

 

A segunda parte da viagem foi depois de um período que passamos na Europa. Estávamos na Turquia e resolvemos voltar pra Ásia. No início do ano estivemos na parte que seria a “porta da frente” do continente asiático, que são esses países mais desenvolvidos como o Japão, a Coréia e a China. Dessa vez entramos por um outro lado e viajamos por países mais “simples” como Tailândia, Indonésia, Filipinas e Vietnã. Terceiro mundo como nós.

Fizemos a ponte aérea Istambul-Bangkok, descendo na capital da Tailândia. É uma cidade bem grande, tem muito throw-up por lá e por sinal muito throw-up bom! Melhor que muito país da Europa. Depois de conhecer alguns grafiteiros locais pintamos pela cidade na madruga mesmo. A atmosfera é parecida com São Paulo, parece mais fácil de pintar mas mesmo assim mantemos o cuidado, como deve ser em qualquer lugar do mundo. Depois de passar duas semanas em Bangkok, fomos em direção às Ilhas da Tailândia, passamos por Ko Tao, Ko Lipe, Ko Phi Phi Lee e Ko Lanta aproveitando para nos desligar um pouco do graffiti e viver outras experiências.

 

 

Depois das Ilhas fomos pra Bali na Indonésia na região de Uluwatu, um lugar bem conhecido pelo surf e pelas praias. Fizemos graffiti por lá mas o foco foi realmente viver a natureza e sair um pouco. Ficamos um tempo entre Uluwatu e Ubud, muitas boas vivências, mas também alguns perrengues que toda viagem tem. Dizem que quando vai pra Indonésia você começa a pagar todos os seus Karmas. E foi meio isso que aconteceu (risos). Mas é foda demais, você passa de moto pelas ruas estreitas, os campos de arroz e você consegue ver a diversidade religiosa e cultural. Muitos deles com trajes típicos, todas as oferendas, incensos.

 

 

Da Indonésia fomos para o Vietnã. Descemos em Ho Chi Minh, a antiga Saigon e passamos por Hoi An, que é uma cidade histórica conhecida pela tecelagem. Parecia que estávamos num cenário dos filmes do Miyazaki, muito foda! 

Por fim passamos por Hanói, ficamos alguns dias lá, acho que umas duas semanas. Pintamos lá, foi bem tranquilo. Mas percebemos que tem poucos locais que fazem graffiti. As pessoas que mais pintam na cidade são gringos, de outros lugares da Europa e dos Estados Unidos. Enquanto passávamos por lá acontecia um torneio de futebol da Ásia e um dia antes de irmos embora o Vietnã foi campão. Foi algo bem marcante ver a cidade em festa nas ruas da cidade no nosso último dia. Acabamos chapando (o chopp lá era 30 cents) e perdemos o nosso vôo no dia seguinte (risos)”.

 

 

Por último estávamos em dúvida se íamos pra Índia ou pras Filipinas. Pensamos que na Índia precisaríamos de mais tempo pra conhecer, e queremos voltar pra fazer isso, então viajamos em direção a Manila, nas Filipinas. Manila é uma cidade muito parecida com São Paulo. É bem grande, caótica e perigosa. Ficamos num lugar que parecia muito a Avenida do Estado (risos). Sujeirada! Lá eles tiveram uma colonização espanhola, então a maioria das pessoas é católica e atualmente eles tem um presidente escroto assim como o nosso. O cara executou mais de 30 mil pessoas sem mandato. Surreal! Não é estranho você se deparar com policiais armados até a cabeça.

Tínhamos alguns contatos graças ao Salmos que fez uma exposição por lá tempos atrás, e conseguimos pintar tranquilos na cidade. Fizemos pouca coisa por lá. Queríamos mesmo era conhecer as praias das Filipinas, as ilhas. Lá tem mais de 7 mil ilhas (risos).

 

 

Pegamos um avião até Puerto Princesa e depois uma van de 5 horas até El Nido. Pensávamos que tínhamos ido até o fim do mundo mas ainda não era o fim (risos). Dias depois pegaríamos um barco por mais 5 horas e chegaríamos até a ilha de Coron! Pensei comigo: se podia estar longe de casa acho que esse é o máximo que posso chegar (risos).

Foi uma experiência muito diferente, meio transcendental, difícil de explicar. Passar por todos esses lugares, ver tanta diversidade cultural. Percebemos como a maioria do povo asiático preza pela simplicidade e vivem felizes com isso. É muito interessante o contraste com alguns povos ocidentais. Eu enxerguei muito mais o ‘ser’ do que o ‘ter’ na Ásia, a comunhão com a natureza. É mágico mesmo.

 

 

Para registrar nossa viagem levamos duas câmeras analógicas 35mm, uma Olympus e um Yashica. Infelizmente algumas fotos se perderem porque as câmeras deram problema e não conseguimos revelar todos os filmes. Então o zine é um compilado de fotos analógicas e fotos digitais feitas com o celular. Temos material para publicar outros zines de viagens que fizemos. Não sei, talvez algo com as fotos que fizemos em Nova Iorque ou na Europa. Como nossa memória afetiva foi maior por essa passagem pela Ásia optamos por lançar esse zine primeiro.”

 

 

O Zine dos Skolas tem 64 páginas coloridas no tamanho A5, tem várias intervenções manuais no decorrer das páginas e vem com alguns adesivos japoneses. Infelizmente o zine está esgotado, mas acompanha o trampo deles no instagram e espera por esses próximos zines que estão por vir.