SONO TWS

 

Num domingo de manhã, Humberto, Roney, Pedro e eu nos encontramos na estação Santo Amaro, com algumas câmeras point n shot e filmes vencidos na mochila, saiamos do extremo sul de São Paulo rumo a Jundiaí, isso por uma boa ideia do Humberto que despretensiosamente entrou na onda da fotografia analógica e me chamou pra registrar os processos do beatmaker SonoTWS, que não por um acaso, usa equipamentos analógicos na produção de seus beats. Chamamos o Pedro e o Roney e marcamos com o Sono um dia que ele pudesse nos receber em sua casa.

Era um começo de manhã fria e nublada, a viagem de trem foi longa, passamos por três linhas da cptm, vários picos… E desde o início explorando as possibilidades visuais dos lugares. Chegando em Jundiaí encontramos o Sono e logo de início vimos que aquele role renderia mais do que algumas fotos pro Instagram.

 

 

Quem é SonoTWS?

Meu nome é Marcelo, 32 anos, nascido e criado em Jundiaí. Morei 10 anos em São Paulo, onde trabalhava como designer gráfico e já fazem quase 3 anos que voltei a morar aqui em Jundiaí, onde trabalho no restaurante da minha família. Meu primeiro contato com a cultura hip hop aconteceu aqui, onde junto com meus amigos escutávamos religiosamente o programa Espaço Rap onde rolava Gog, 509-E, Conexão do Morro, Consciência Humana, Face da Morte, Rzo, Racionais… A molecada aqui da área só escutava isso e esses grupos formaram o meu alicerce. E com o rap acabei conhecendo a pixação e passei a escrever meu nome pela cidade junto a uns amigos. Isso tudo eu tinha mais ou menos uns 15 anos. Meu apelido veio nessa época, porque dormia bastante e as vezes que saia a tarde pra rua, era tipo um evento. O Soneca apareceu (risos). Daí foi Sono, Soneca, Sonolência. Acabou pegando.

 

 

Você tem grande participação na cena do graffiti, faz parte de turmas como Os Meia de Lã (TWS) e Trouble in the Town, como o graffiti aconteceu na sua vida?

Em Jundiaí não tinha muito contato com o graffiti, aqui na cidade o que tinha eram mais os painéis, o muralismo. E eu curtia mesmo era o lado da pixacão. Quando comecei a vir mais para São Paulo já tinha contato com diversos manos que faziam um pixo e passei a ter mais contato com o graffiti ilegal, o throw up. Meu primeiro trabalho em SP, como designer, quem me arrumou foi um grafiteiro, o Sosek e quem me apresentou ele foi o Rodrigo Ogi. Meu primeiro rolê de todos na capital foi com esses 2 monstros sagrados da cultura de rua.

Aí acabei me mudando para São Paulo e no meu segundo trabalho, eu estava lado a lado com dois grafiteiros, o Gesto e o 8ou80, que é meu parceiro de turma até hoje. Meu maior aprendizado foi ouvindo e vendo esses caras no rolê. Nessa época eu não fazia, as vezes ia junto com eles e acabava ajudando a fazer o preenchimento, passava um pano, assinava o meu ali do lado e pequeno. Eu curtia mesmo era estar no rolê com os manos. Nessas fui tomando gosto, riscando umas letras no papel, fiz meus primeiros e ai ferrou, viciei.

As turmas nasceram pela amizade mesmo, não foi nada forçado. Tem mano que sai para jogar bola toda semana, nossa onda era sair pra pintar e dar umas risadas. Foi assim que nasceu essas duas turmas e, hoje em dia mesmo devagar no graffiti, represento a dinastia das minhas turmas nos meus beats, com originalidade e estilo, fatores fundamentais no graffiti.

 

 

Como é seu processo criativo na hora de construir os beats?

Meu processo é bem simples, começo sempre escutando algo. Boto um som pra rolar, vejo se acho uma parte legal, um break de bateria maneiro e aí ligo as máquinas. Tenho uma brisa que é, intercalar o jeito de começar. As vezes começo pela bateria e na outra pelo sample. Faço isso já faz uns anos e é engraçado como o resultado tende a ser diferente pelo jeito que você começa. Achando uma parte legal, eu sampleio pra máquina, monto um loop e começo a ir atrás de outras partes, por exemplo: boto um disco de jazz pra tentar encontrar algo para a linha de baixo, coloco outro para tentar achar algum metal, trompete e por aí vai. É praticamente você montar um grupo do sonhos no seu beat. Você pega o break de bateria de um compacto do James Brown, a melodia principal do beat é de um disco do Curtis Mayfield, o metal para complementar, você sampleia de um LP do saxofonista Gato Barbieri, a linha de baixo para “grudar” tudo de um som do Monk Montgomery e pra finalizar ou começar o beat, um trecho de uma entrevista do Sun Ra. O processo é mais ou menos isso aí, montar tipo um dream team, sacou? E é tudo muito livre, como no graffiti, o importante é se expressar. Não tem certo ou errado.

 

 

 

 

Essa entrevista só foi possível pela condição de não mostrarmos seu rosto nas fotos e no vídeo. Acha que ser “mocado” influencia de alguma forma seu trabalho?

É engraçado isso, tipo vocês, que nunca me viram e estão me vendo agora. Tem pessoas que até se assustam quando me apresento, algumas até se decepcionam. Imaginam que eu sou uma coisa e sou totalmente outra. Nunca fui chegado em foto, quem me conhece sabe que é desde pequeno.

Mas o maior motivo disso tudo é que eu quero que gostem da minha música e não da minha imagem. Hoje em dia o que se vê é totalmente o contrário, as pessoas veneram o visual e esquecem do musical. É exatamente disso que quero fugir. Hoje em dia o que mais rola é a comercialização da imagem. Tendo o rap como exemplo, é só dar uma olhada nos grupos novos e seus fãs. É tudo igual: o jeito de se vestir, de falar e agir é o mesmo, tudo igual. As grandes marcas já sacaram isso e vão atrás desses artistas do “momento” com aquele papo de vendedor de sonho, que vai dar umas roupas, que vai dar exposição, que vai fazer e acontecer e, no final, é tudo ilusão. Comigo mesmo, que sou quietinho na minha, rola isso direto, marcas grandes vem me pedir beats para usarem em seus vídeos, falam que amam meu trabalho, mas aí vem a história triste: não temos verba, mas você vai ganhar uma super exposição…. Tudo balela. Trabalhei mais de 5 anos no marketing de uma marca grande como designer e sei bem como é o tratamento com atletas e artistas. Aí deixo a seguinte pergunta: Será que gostam mesmo do que você faz? Quem gosta, faz questão de fortalecer.

 

 

Como você lida com a comercialização do seu trampo?

Rapaz, é tudo muito complicado e eu gostaria até de ser um cara que relaxasse mais, mas eu to sempre com um pé atrás. Já dei beats (e ainda dou) para mcs, já dei beats para marcas, porque acreditava nas suas propostas, nas suas visões. Tem vários mcs que valorizam a arte, mas tem outros que não estão nem aí, só querem agilizar o dele e tchau. Teve beat que dei para um rapper, saiu no seu cd e até hoje nem o cd ganhei. O mínimo é a valorização, o reconhecimento, ninguém tá pedindo muito mais que isso. Já viu algum álbum virar hit só com a rima, sem a batida? Isso não precisaria acontecer, os dois, o beatmaker e o mc formam um time e se os dois se fortalecem, se unem para fazer algo legal, musicalmente falando, ninguém segura!

Mas como estava explicando na questão acima, é tudo muito complicado. Imagina um mc com um tênis de mais de mil reais, um jaco de $2 mil, anel de ouro, vim te pedir um beat de graça? Como você se sentiria? É estranho, não é? Por essas e outras eu parei de vender por um tempo e fazer só para me expressar mesmo. Foi a melhor coisa que fiz. Mas isso acontece não só no Brasil não, tenho vários amigos beatmakers no mundo todo e todos reclamam disso, dos grandes reconhecidos aos pequenos que estão começando.

Tem outro lado complicado também que é o do conteúdo. Você faz seu som, na espiritualidade, propagando um sentimento legal e o mano vai e rima falando besteira, chamando mina de puta. E aí? Você já vendeu, vai falar o que? É complicado, mano. Hoje em dia eu vendo beats sim, mas acabo pedindo pra ver a letra, a guia, e explico para todos a situação. A maioria entende, pois sabe que eu me importo com a música, com o resultado final, tem que rolar aquele respeito mútuo e respeito principalmente com a cultura que fazemos parte, o hip hop.

 

 

Recentemente você apareceu com o Tired Of People, selo completamente independente, conta mais sobre a proposta e os objetivos do selo.

Tired Of People nasceu quando vim pra Jundiaí. Decidi que iria criar meu selo independente para lançar minhas músicas, tudo do meu jeito, com minhas referências do graffiti e da rua. O nome nasceu exatamente pelo que estava explicando ali em cima, sobre falsa valorização, marcas que só querem usurpar. Enfim, já estamos cansados.

Na Tired Of People faço questão de todos que me ajudam, seja com a arte, logo, tenha uma visão, um estilo diferenciado e utilize a rua como um meio de se expressar. O primeiro lançamento, por exemplo, a capa ficou com os manos da Germes Gang  de Portugal, que tem um estilo totalmente original no graffiti de rua. O logo do selo foi o mano Akbar que destrói no throw up lá na França. A embalagem, que vai para enviar no correio foi desenhada uma a uma pelo meu irmão de turma Oboe , um dos reis do estilo aqui no Brasil. O cartão que vai junto com o código para download foi os irmãos grafiteiro Skola que desenharam e tem um rolê mais que clássico aqui em São Paulo. Todos foram valorizados ($$). Trabalhou, ganhou. O objetivo do selo Tired Of People é fortalecer os amigos, os artistas de maneira real, assim todo mundo ganha. Pode apostar que se chamar todos esses que me ajudaram até hoje, aceitariam fácil trabalhar novamente com a Tired. Essa é a idéia, o respeito é essencial.

 

 

Tem alguns sons que queira indicar? pra quem leu essa entrevista entrar no clima (risos)

Tenho essa playlist que fiz no Spotify de nome Vibin’ with SonoTWS aonde separei alguns sons dos anos 90 que fazem minha cabeça e que sempre estou atualizando:

Clique aqui e escute a playlist

 

E esses são alguns vinil/tapes que adquiri recentemente e ando escutando bastante:

 

 

Algum Salve ou Agradecimento?

Queria agradecer a todo mundo que fortalece o corre independente, a minha família, aos amigos(as) visionários que tenho, e são muitos, a vocês que vieram aqui na minha casa e trocamos essa idéia sem amarras e a Vista pelo espaço. One Love!

 

 

Durante a entrevista além de fazer essas fotos granuladas de filme vencido, o Roney registrou algumas cenas em video, assiste aê!

 

 

Essa entrevista foi originalmente publicada na Vista 073.

 

Entrevista por: Djavan Amorim.
Fotos por: Djavan Amorim, Humberto Rodrigues, Pedro Mirandolla e Roney Silva.

Video por: Roney Silva.