UM PEDAL

Nicolas Berghan é uma inspiração.

E só por isso já vale assistir “Um Pedal”. Mas, esta inspiração tem muitas camadas, como você pode perceber pelo papo que batemos com ele. Foco nas coisas boas e as dificuldades da caminhada são só mais um obstáculo para mostrar nossa capacidade. Leia, assista e compartilhe essa ideia.

 

 

_Desculpa perguntar, mas acho que é uma questão essencial pra gente entender tua história. conta sobre a questão da tua deficiência? Nasceu assim, foi algum acidente ou doença?

Nicolas: De boa, nenhum problema de falar sobre, pelo contrário. Nasci com uma deficiência na perna esquerda, não tenho o fêmur e um dos ossos da canela, o joelho é junto da bacia praticamente. Desde os primeiros passos sempre precisei de uma prótese para me locomover.

 

_Eu te conheci através do skate. como tu conheceu o skate e se envolveu com ele?

Nicolas: O primeiro contato com o skate foi através do meu irmão, o Fred, acho que foi por volta de 2000, com 10 anos. Ele andava de skate e me incentivou bastante nas primeiras embaladas. Logo que consegui parar em cima, embalar e se equilibrar, me apaixonei pelo skate, chegava do colégio almoçava correndo e saia pra andar. Logo conheci uma galera da minha idade que andava também, daí era aquela coisa: amigos, rua, skate e juntar as moedas pra comprar refri, todos os dias (risos).

Em 2001 comecei a ir na pista da QIX e foi muito foda. A galera do skate apoiava muito, me sentia muito bem ali. Um dia o Alexandre Freitas o “Pinto”, que cuidava da pista me disse pra colar no outro dia para fazer umas fotos com o fotógrafo do site, que se não me engano era o Jerri Rossato. Dois dias depois de sair a matéria, eu mais pilhado do que nunca, recebi um telegrama do Sydnei Arakaki, para entrar em contato com a SIMS. Pouco tempo depois chegou uma caixa cheia de produtos na minha porta. Logo depois entrou a Skavator e tudo isso foi me incentivando cada vez mais. A partir daí comecei a ir em campeonatos em vários lugares, tours, viagens com o Kombão do Carlão. Juntava uma galera muito massa, onde eu me senti muito bem, um ambiente que me fez evoluir muito, não só no skate.

 

_E por que se afastou? Lembro de te ver sempre nas sessões, mas fazia bastante tempo que não tinha notícias suas.

Nicolas: Em 2017 eu troquei o modelo da minha prótese, que até então era mais simples, quase uma muleta, por uma prótese com um pé de carbono, onde tenho uma redução grande de impacto na coluna e na perna direita. Uma questão de saúde mesmo, essa troca deveria ter sido feita uns 5 anos antes, mas fui adiando pelo skate e pelo fato de estar muito bem com a prótese antiga.

Nesse mesmo período me mudei de Portão para Porto Alegre para fazer faculdade e logo comecei a trabalhar. Nesse cenário ficava mais complicado toda readaptação que eu teria que fazer, com a mudança da prótese teria que aprender a andar novamente.

 

 

_O que você tem feito hoje em dia? Está estudando, trabalhando? morando aonde?

Nicolas: Esse ano completei 10 anos morando em Porto Alegre, me formei em publicidade e propaganda e trabalho com animação gráfica. Como no skate eu gostava de filmar, fotografar, editar vídeos, desde o início da faculdade comecei a estudar e me foquei em montagem e animação. Fui botando a cara, trabalhei em algumas produtoras, até que me juntei com mais dois camaradas e criamos a Tape Motion, como uma alternativa de se autogerir e fugir um pouco desse mercado que tem uma cultura de exploração muito forte.

 

_Agora vamos falar mais sobre o vídeo “Um Pedal” que você é o protagonista, certo?

Nicolas: Isso aí, nem caiu a ficha direito ainda! O filme conta um pouco da minha história, passando pela infância, pelo skate e focando nas viagens de bike.

 

_Quem teve a ideia? E quem mais participou da produção?

Nicolas: A idéia partiu de um casal de amigos, Alexandre Derlam e Monique Mendes, grandes entusiastas das minhas aventuras. A partir daí se juntaram ao projeto outros grandes amigos, Pablo Rosa (fotografia), Gui Moreno (montagem), Rafa Rodhen (áudio), Gustavo Arruda (cor), Bruno Freitas (drone) e Fred Berghan, meu irmão, fazendo a arte.

Como foi no skate, na bike é tudo entre amigos. Acho que a prótese acaba por ser um ímã para pessoas de verdade, que sempre foram indispensáveis na minha caminhada.
Eu sempre gravei muita coisa nas minhas viagens, com a ideia de gerar algum tipo de conteúdo mostrando como é diferente uma trip de bike, mas nunca consegui colocar nada na rua. Chegava em casa, baixava tudo em um HD e começava a planejar e achar tempo pra próxima viagem. Aí entrou essa galera toda e conseguiu reunir todas essas vivências em um filme curta metragem documental.

 

 

_Como foi contar tua história ali? Por onde tu passou pedalando?

Nicolas: Foi muito louco todo esse processo, principalmente por poder reviver toda uma trajetória que eu tive até chegar nas viagens de bicicleta. Mais legal ainda foi ver o filme pronto, enxergar toda essa caminhada em uma ótica que eu nunca tinha pensado, porque na verdade eu só fui tocando a vida e indo atrás do que me fascinava, sem pensar muito.

Com a bicicleta, foram 5 viagens separadas, geralmente em período de férias. Em 2017 fui de Porto Alegre até Punta del Diablo, primeira viagem e paixão à primeira vista. No ano seguinte foram 3 viagens. No início do ano fui de Porto Alegre até Floripa, por rotas secundárias em cima da serra. Depois em setembro fiz uma volta no Vale Sagrado no Peru, encarando a cordilheira dos andes por uma trilha Inca. E no final do ano comecei fazendo a Praia do Cassino e acabei dando a volta em todo Uruguai, até chegar em Uruguaiana. Ano passado foi a vez de conhecer o coração do cerrado brasileiro, cruzando as areias do Jalapão e acabando na Chapada dos Veadeiros.

Mais que quilometros e pedaladas, são pessoas, lugares e vivências que conectam esses destinos, isso que mais fascina em uma viagem de bicicleta, devagarzinho, em uma velocidade compatível com a natureza humana.

 

_Quando sai “Um Pedal”? Ou se já saiu, onde podemos ver o vídeo completo?

Nicolas: O filme estreia no dia 19/09 pelo Festival de Cinema de Gramado, na plataforma digital do Canal Brasil, ficando na plataforma até dia 22/09. Depois disso ele segue vivo na rede mundial de computadores. Acredito que vamos postar de uma forma mais livre, para poder chegar ao maior número de pessoas possível.

 

_E pra fechar, conta um pouco dos teus planos daqui pra frente. mais skate? mais bike? mais vídeos?

Nicolas: A minha ideia é cada vez mais bike, cada vez mais viagens (risos). Tenho planos de fazer uma viagem mais longa, ficar uns anos na estrada. A ideia é cruzar o Brasil até o Norte, voltando pela cordilheira dos Andes até o Sul. Entrar de cabeça nessa imersão que é uma viagem de bike, viver a estrada, as pessoas e os lugares que nela habitam. O filme acabou por me incentivar e encorajar a ir atrás desse sonho. Nessa jornada o objetivo é conseguir produzir conteúdos diversos, não só em vídeo, tentando trazer um ponto de vista diferente e se possível inspirando pessoas a fazer o mesmo.

 

Aguardem os próximos capítulos!

 

Por. tobias sklar

Fotos: acervo pessoal