Victor Fão – latino sonhador

“Latino Americano e sonhador”.

Assim que o Victor Fão se denomina numa famosa rede social. E aqui você vai descobrir que ele, na verdade, é um tanto mais que isso. Músico e ilustrador, por exemplo. Mas o bom mesmo é seguir o papo aí abaixo, confere:

 

 

Você quando bem jovem começou na música tocando baixo. Como foi esse começo, quais foram as suas inspirações?

Fão: Sim, comecei tocando baixo e guitarra com uns 13/14 anos em bandas de punk rock no bairro em que eu morava na época, o Lauzane, na Zona Norte de São Paulo. Desde criança tinha vontade de tocar algo, montava bateria com almofadas em casa e brincava de tocar com uns pedaços de madeira como se fossem baquetas. Mas depois que comecei a andar de skate essa vontade de ter uma banda só aumentou e então pedi uma guitarra de Natal pros meus pais e fiz algumas aulas. Só que meu professor era muito metaleiro e eu gostava mesmo era de punk rock, então parei com as aulas, montei uma banda chamada Nakeds e comecei a tocar daquele jeitão auto-ditada, aprendendo com a banda. Saia da escola, andava de skate e depois ia ensaiar num estúdio. Voltava pra casa e ficava ouvindo os CDs que tinha na época, Ramones, Gritando HC, Dead Fish, The Clash e muitas coisas do punk inglês, essas eram as bandas que eu tentava imitar na época. Foi uma fase muito boa pra aprender, o lance do DIY que o punk e o skate ensinam muito.

 

Conta um pouco sobre as influências do punk rock e skate na sua trajetória artística? Ainda anda de skate?

Fão: Eu sempre brinco que o skate fez eu ser quem eu sou hoje e estar aonde estou, se não fosse o skate eu não teria conhecido o punk rock, não teria conhecido um monte de gente legal que me ensinou muita coisa sobre a cidade, sobre a rua e sobre as coisas além do meu bairro, sobre como ser um ser humano melhor, sobre ter empatia com as pessoas. Eu acho que o skate e o punk rock são uma ótima escola para o ser humano sabe, por conta dessas coisas conheci gente da cidade toda que gostava das mesmas coisas que eu, que me apresentavam livros, filmes, gibis e coisas que fazem um adolescente buscar novos caminhos na vida. Eu gostaria muito de andar de skate todos os dias, mas infelizmente ando pouco hoje em dia, tenho receio de me machucar e ficar sem tocar por um tempo. Numa das minhas últimas sessões eu caí feio, trinquei a costela, dai fiquei preocupadasso, mas ainda assim sou um apaixonado pelo skate e muito grato por tudo o que ele me apresentou.

 

 

De baixista em bandas de punk rock a trombonista em bandas de Reggae e Ska, como foi essa transição?

Fão: O punk e o reggae são subculturas que tem muita ligação entre si, no final dos anos 70 na Inglaterra, algumas bandas começaram a incorporar o reggae ao punk rock. O Clash é um ótimo exemplo disso. Por conta do punk rock eu conheci bandas de ska Two tone como o Specials, o The Selecter entre outras, e logo na sequência o Skatalites. Foi quando me apaixonei pelo Ska tradicional e toda a bagagem da música jamaicana antiga que é apaixonante. Depois de alguns anos tocando baixo em algumas bandas de rock e punk rock, quando já tava na faculdade, queria experimentar algumas coisas novas, tentar aprender um novo instrumento e comprei um trombone, justamente pra aprender a tocar as músicas do Skatalites e me desenvolver como músico. Fiquei anos autodidata, tocando, mas ainda trabalhando em agências de design. Nessa época, montei minha primeira banda tocando trombone, os Pinguins Tropicais. Foi ali que deu o estalo: “tá na hora de largar o trampo formal na agência e trampar com música”. Então, juntei uma grana e fiquei 1 ano só estudando trombone.

 

Como começou o seu interesse por música jamaicana e como foi pra você tocar com a galera do Ba-Boom lá na Jamaica alguns anos atrás, que depois acabou virando um documentário?

Fão: Ixi, acho que respondi o interesse sobre música jamaicana na pergunta anterior hehehehe foi mal. Tocar com o Ba-boom foi maravilhoso. Por conta de alguns amigos em comum conheci a galera da banda e eles me chamaram para um ensaio em 2009, ano que lançariam um EP, depois disso acabei entrando pra banda. Em 2011, gravamos o disco Incendeia e em 2012 fomos convidados para tocar num festival de Jazz na Jamaica o Ocho rios Jazz Festival, um dos poucos festivais de música ao-vivo que ainda rolam por lá e foi uma oportunidade sensacional pra um amante de música jamaicana como eu. É mais que um sonho, é a oportunidade de estudar in loco. Fizemos 5 shows, demos uma oficina de música brasileira e da sua mistura com a música jamaicana, participamos de workshops com artistas locais e conhecemos uma galera das antigas que mantem a tradição do jazz na Jamaica. Essa troca foi demais e tá registrada no documentário Baboom Jamaica 2012.

 

 

Atualmente, em quais bandas você tem tocado?

Fão: Toco trombone na Nomade Orquestra, Samuca e a Selva, Buena Onda Reggae Club, no projeto solo do Pipo Pergoaro chamado Antropocósmico e sou beatmaker e produtor do Gliti.

 

Como é a dinâmica de tocar em várias bandas diferentes e com tantos integrantes em cada uma? Como ficava a agenda nos tempos antes da pandemia?

Fão: Tocar em bandas grandes é um enorme aprendizado, viver em coletivo é muito massa e as bandas nos ensinam muito. São vários espelhos num mesmo grupo e a gente aprende a ter empatia e enxergar o melhor do outro. Já conciliar as agendas é uma parada difícil, a gente vai como dá, muitas vezes acontece de ter show de duas das bandas no mesmo dia, daí tem que escolher um e colocar um substituto no outro show. Pra ensaiar já é mais de boa, as agendas eram bem organizadas, então todo dia da semana tinha ensaio de alguma das bandas.

 

 

Por falar em pandemia, tem rolado projetos nesse novo esquema não presencial? Como tem sido a experiência? Sente saudades de se apresentar pro público?

Fão: Tem rolado sim, a Nomade Orquestra gravou uma live pro Festival BB Jazz e Blues. O Buena Onda fez uma série de shows on-line pelo edital do reggae da prefeitura de São Paulo, gravamos cada um da sua casa, editamos e eu fiz a mix e a master dos áudios. Além disso, vamos lançar duas músicas novas, uma em dezembro e outra em janeiro. Já com Samuca e Selva, estamos produzindo um disco novo, a distância. Quase todos os músicos tiveram que se adaptar e montar um home studio. Também tenho feito algumas composições e gravações em casa, uma delas inclusive fez parte do projeto “Não Repare a Bagunça”, do Selo Sesc. Fiz a produção musical, chamei um time de músicos e musicistas e gravamos também cada um na sua casa. Essa experiência me deu ânimo pra começar a compor um disco solo que quero lançar até o meio do ano que vem.

Mesmo com tudo isso rolando, a coisa que mais faz falta são os shows e a estrada. Nos últimos anos, tocava de quinta a domingo quase toda a semana. Encontrar os amigos pra fazer um som, dividir essa alegria com as pessoas faz falta demais.

 

Agora pra gente falar do seu lado ilustrador, quando você começou a desenhar? O que te motiva e como é o seu processo?

Fão: Eu desenho desde que me conheço por gente, meus pais sempre incentivaram, tanto a mim quanto ao meu irmão. Então na minha casa sempre tinha muita tinta, papel. Quando comecei a andar de skate, conheci muita coisa de arte urbana, quadrinhos alternativos, grafite… Nessa época até achei que poderia um dia virar um artista desses de galeria. Mas, por pressão da família, acabei fazendo publicidade e mesmo assim pude me aprofundar em alguns aspectos da arte, através das aulas de desenho que me fizeram começar a entender outras técnicas.

Minha inspiração vem muito da cidade, sou um cara que gosta de flanar por ai, sair andando e encontrar figuras e histórias de todos os tipos, arquiteturas e tipografias vileiras que só as cidades da grande São Paulo possuem. Esses caminhos me influenciam muito. Gosto também de misturar meus desenhos com música, acho que tudo no mundo é meio sonoro, meio rítmico e meio musical, então tento trazer isso pro meu desenho, como se fosse tudo uma coisa só. Muita gente que ouve minhas músicas diz que imagina os meus desenhos quando tá ouvindo, eu acho isso muito massa.

 

 

Tem alguma aspiração aqui? Conta um pouco sobre os desdobramentos, já ilustrou capas de álbum, cartazes de shows?

Fão: De uns tempos pra cá tenho estudado muito história em quadrinhos e produzindo algumas coisas. Por enquanto histórias curtas de uma página ou tirinhas. Tô desenvolvendo uma história longa, quero um dia lançar uma graphic novel, grandona, sem pressa… Tô trampando bastante nisso quando sobra um tempinho. Por ser músico e também ilustrador, já fiz bastante capa de disco e cartazes de show, principalmente das bandas que eu toco e é uma parada que eu amo fazer.

 

Deixa pra gente algumas dicas de bandas/músicas que você tem escutado nos últimos meses?

Fão: Gosto muito de pesquisar música e quando gosto de alguma coisa vou atrás de tudo, ficha técnica, com quem toca e tal. Esse ano tive uma fase bem grande de pesquisar Cumbia e música latino-americana em geral, das papayeras ao jongo. Nessas pesquisas descobri uma banda japonesa muito foda, que mistura Cumbia com música tradicional nipônica: a Mynio Crusaders. Depois dessa fase, pirei em highlife e música da África Ocidental, Gana, Nigéria, Mali, coisas de antes do Afrobeat e muita coisa dos Touareg. Tem um artista chamado Alogte Oho, da banda Alogte Oho And His Sounds Of Joy, ele é do interior de Gana e faz música gospel, mas com essa pegada highlife. É demais.

 

 

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por. Grasi Ferrari