Vista 068 – Guilherme Granado

“Hoje em dia todo mundo gasta dinheiro com tudo, menos com música.” – Guilherme Granado, 2016.

 

O skate faz com que você pense do seu jeito. Pensar em criar a sua realidade seja lá do que você curta ou esteja acostumado a viver e fazer. Esse é o motivo que acredito vermos tantos skatistas fazendo música, fotografia, cinema, pinturas, design e tantas outras formas de expressão com uma identidade muito forte e completamente diferente do que se aprende em cursos e escolas de qualquer lugar do mundo.

Na música é fácil ver essa influência e pra mim, aqui no Brasil, temos grandes exemplos dessa conexão. Uns dias desses consegui uma fita cassete do Guilherme Granado, um amigo skatista das épocas da Prestige e do centro de São Paulo, no meio dos anos 90, que me lembrou o quanto era insano conseguir músicas novas, independente e com uma linguagem nova naquelas épocas. Coisa que a tecnologia facilitou extraordinariamente, ainda bem.

Então porque uma fita cassete em pleno 2016? Qual a graça? Qual a vantagem? Usamos isso de desculpa pra trocar umas idéias com o Guilherme para a Vista 068 e esse material especial abaixo.

Vista 068 – Guilherme Granado
Vista 068 – Guilherme Granado
Vista 068 – Guilherme Granado
Vista 068 – Guilherme Granado
Vista 068 – Guilherme Granado

Abaixo algumas frases pinçadas do nosso papo com o Guilherme e mais os registros feitos na sua casa durante a gravação do vídeo:

“a fita cassete era o mp3 mais romântico, a pessoa conseguia o disco, lembrava de você, te ligava, comprava uma fitinha, gravava e as pessoas trocavam essa energia sobre aquele som”

“O cassete é mais barato de produzir e por isso vejo que tem bem a ver com esse fator, o tipo de som de um cassete também é diferente e causou um interesse, não vou dizer que é um som bom, não é o melhor formato em se falando de qualidade, mas tem a sua identidade.”

“antes a indústria da música era bem resolvida, a gravadora fazia tudo para que o artista só fizesse música, para que ele fizesse o melhor dele. Tanto gravadoras pequenas como grandes, mas se você não tinha nenhum dos dois, você gravava sua fita demo, e hoje em dia todo o trabalho está na mão de quem produz, não tem mais o “homem do meio” para a grande maioria. Tudo está mais na mão do artista. Se você é criativo é natural você testar, experimentar outras coisas, principalmente em divulgar seu próprio trabalho, que tem uma grande conexão com o skate pra mim”

 

 

“o ser humano é romântico, no sentido de usar as mãos, poder tocar nas coisas. MP3 é bem legal, mas pegar um vinil é outro sentimento. O Mc Donalds é legal, mas a comida feita em casa é outra conversa, você nem sabe porque. A mesma coisa pra mim acontece com os fanzines. Você tem um prazer maior em saber que aquilo foi feito na mão por alguém, não foi um algoritmo que decidiu o que você quer, ou o que você gosta.”

“Pense se ao invés de música fosse fotografia. Imagine que a partir de amanhã todas as tuas fotos estarão disponíveis na internet para serem baixadas sem créditos nem limites de uso pra nada, aí você me diz: “Pô, mas eu estudei….” e eu não? todo dia eu estou estudando música. Isso está acontecendo com o jornalismo, todo mundo sendo mandado embora dos jornais. Bem vindo ao meu mundo!”

“Eu relutei muito sobre essa história de música na internet, mas também pra mim não fazia sentido eu estar sentado em cima de um monte de música esperando o formato ideal, a hora certa, ou alguém se interessar. Chegou uma hora que eu tinha 4 ou 5 discos prontos. Fiz umas fitas com o Farofa e outras coisas, mas achei que o bandcamp.com era a ferramenta certa, tem varias opções pro músico e para o ouvinte.”

“Coloquei meus discos por U$2, mais barato que uma cerveja, mesmo assim nenhum brasileiro comprou, só gringo. Você não precisa comprar o disco do Metallica, eles já vendem muito, ganham muito dinheiro, agora um músico independente, que está fazendo todo esse processo, ele depende daquilo sabe? Você ajuda mesmo ele a continuar a arte dele comprando esses mp3.”

“tudo que é muito abstrato, dá margem pra muita coisa gratuita, ninguém discute o que você está fazendo porque você declara aquilo como sua arte. Se você usa a roupa certa, coloca a mão no queixo e faz aquela cara de arrombado, todo mundo acha que você tem uma viagem por trás. Quando é um meio de você realmente se expressar, eu acho muito válido, agora quando você usa isso apenas como um veículo para você conseguir outra coisa, entrar em algum grupo, isso em qualquer tipo de arte é vergonhoso.”

“eu não acho que as coisas que eu toco, vá fazer alguém de um outro universo musical se interessar, mas se interessar eu já vou achar incrível e ver o que tem pra conversar, se for uma conversa de coração mesmo, eu estou aberto. Isso é uma coisa que o skate me ensinou, numa sessão você encontra de tudo, todos os tipos de seres humanos, todas as personalidades, todo tipo de gente. Aquele negócio em comum, as pessoas começam a conversar sobre as realidades delas tendo aquele ponto em comum. A minha janela pro mundo de verdade foi começar a andar de skate, porque no skate eu comecei a me relacionar com gente mais nova, mais velha, daqui, dali e você começa a entender que o mundo não é só a vila que você começou.”

 

Leia a matéria com o Granado e muito mais na Vista 068.

Imagens: Flavio Samelo
Edição vídeo: Robson Minhoca/Leme Estúdio
Texto: Flavio Samelo com participação especial de Felipe Narvaez

A Morte do Impresso

A morte é um período transitório. Não um ponto final. Precisamos aceitar as mudanças. Elas são boas. Significam novas possibilidades. E são estas partes que vão pavimentando o caminho da evolução. A Vista como você conhece, termina agora. Sem choro, nem vela. Mas tranquilo, nossa alma, segue viva e ativa. Você pode nos ver e reconhecer em tantos espaços que nem imagina. E seguiremos por esses caminhos da vida.

Dito isso, façamos como a sabedoria dos hermanos mexicanos nos ensinaram e vamos comemorar num dia onde tudo se encontra. A vida e a morte, o real e o mágico, o conteúdo e a produção. Uma revista, um evento. Você! Sim, a parte mais importante para que tudo faça sentido

Vamos ocupar a rua!
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16.12 - 15h | Casa da Vista - SP