Vista apresenta: CannabiComix

A ligação do homem com as drogas é algo que remonta há milhares de anos, nos mais diversos lugares e épocas, sejam em tratamento terapêutico ou em rituais religiosos. O uso da Cannabis como droga teve início há mais de 4.000 anos, na China. Sua descoberta foi atribuída ao imperador e farmacêutico chinês Shen Nieng, cujo trabalho em farmacologia advogava o uso da planta, no tratamento do reumatismo e apatia, e como sedativo (Carlini,1980; Costa & Gontiès,1997; Nahas,1986; Sonenreich,1982).

No ano de 2015 o Brasil ultrapassou a Rússia, “conquistando”, assim, a terceira maior população carcerária do mundo – segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça. O cenário de violência é claro e faz parte de uma cultura punitivista e preconceituosa, com alvos estabelecidos desde antes da década de 30: negros e pobres. A guerra contra as drogas é um dos principais meios de criminalização da pobreza e não é atoa que a maconha só se tornou um “problema social” quando houveram denuncias de minorias fumando a erva nos EUA. A Cannabis passou a ser associada a mexicanos e negros, durante as primeiras 3 décadas do século 20, alguns dos mais xenofóbicos da história dos Estados Unidos. Mitos e casos esdrúxulos foram sendo associados a planta, pelo próprio comissário de narcóticos do Departamento de Tesouro dos EUA, Harry Anslinger. Sem nem citar o presidente Nixon, nos anos depois, responsável por cultivar e fortificar ainda mais as políticas de encarceramento em massa e violência ao povo negro e pobre.

Além de toda a questão racial, um ponto industrial também entrou em jogo para aumentar ainda mais a demonização da Cannabis, na época de sua proibição, a indústria do petróleo estava em ascensão e um dos seus principais produtos, o Nylon, tinha como maior  concorrente a fibra natural da Cannabis.

Levantamos essa análise de contexto para apresentar um velho conhecido da firma, Felipe Navarro. Felipe tem 29 anos e é formado em Publicidade e Propaganda – graças a uma bolsa de estudos do PROUNI. Atualmente, ele mora na região central de Porto Alegre e  nos contou que tem uma forte conexão com a arte desde pequeno, quando já desenhava e hoje a utiliza para lutar a favor da descriminalização da maconha.

“…Comecei a juntar a experiência que tive em uma agência de conteúdo que trabalhava muito com artistas da cena pop de uma grande gravadora a nível mundial. Fui observando como são retratadas nas músicas os estímulos para determinados padrões de comportamento. Em meio a esse turbilhão de coisas, voltei a fazer arte marcial, que também é uma forma de arte, na qual transforma-se o corpo em uma arma. Partindo desse ponto comecei a ver que na realidade a arte, em suas diferentes facetas (escrita, visual, dialética, escultura, cinema, interpretação, etc) são usadas para transformar, por exemplo, uma imagem de instagram em uma “arma” para desencadear uma ação, que pode ser comprar algum produto ou pensar de determinada forma sobre um assunto/tema. Ultimamente estou focado em desenvolver novas publicações impressas pois na internet está rolando uma forte censura”

Navarro nos contou que o ativismo cannábico começou em sua vida quando enfrentava uma forte crise de asma, sem dormir e tendo que se privar de algumas atividades. Ele não podia usar frequentemente as bombinhas para tratar a doença, já que elas podem desencadear algumas complicações cardíacas e havia um histórico de problemas no coração presente na família.

Depois de já ter pensado em criar alguns quadrinhos com personagens que interagissem com a temática da maconha, de forma mais engraçada e divertida, o artista se reuniu com alguns amigos no fim de semana e um deles o falou sobre as propriedades medicinais da maconha e que ela poderia ajudar com a asma, já que o THC é um forte broncodilatador e atua abrindo a cavidade de entrada do pulmão. Na mesma hora, Navarro e seus amigos fumaram um baseado e alí ele percebeu, que por meio da maconha, poderia ter uma outra qualidade de vida, respirar normalmente, diminuir as crises e levar uma vida normal. O estalo aconteceu na mesma hora, os quadrinhos e personagens que ele já havia desenhado serviriam para exercer um papel ativista, utilizando a arte como meio de luta.

“Comecei com o ativismo fazendo quadrinhos. Mesmo sem saber fazer, fui aprendendo enquanto fazia. Desde como fazer roteiros, até como trabalhar uma narrativa visualmente interessante. Com o tempo fui fazendo quadrinhos abordando usos medicinais academicamente testados e outros de conhecimento popular, usos recreativos e sobre a política de drogas, principalmente isso. Pois a legalização da maconha envolve questões muito abrangentes, como a criminalização dos negros, repressão na periferia, desemprego, crise financeira, atraso na medicina e superfaturação dos medicamentos entre tantas outras coisas.”

Durante seus processos de desenvolvimento, Felipe conheceu a galera do Coletivo Princípio Ativo, grupo responsável pela Marcha da Maconha em Porto Alegre e a partir desse encontro começou a contribuir com seus trabalhos também para a divulgação da Marcha, em vários cantos do país. Assinando seus trabalhos como CannabiComix, Navarro passou a estar sempre presente no ativismo. 
“Se ainda não temos uma sociedade que entende questões raciais e de gênero, como vão entender uma questão de saúde, economia e segurança tão complexo quanto a legalização da maconha”
Para saber mais sobre o assunto, Felipe nos indicou o Blog do Hempadão, escrito por seu amigo Cadu Oliveira, que também assina a primeira revista mensal sobre maconha, chamada Hempada, onde também publica seus quadrinhos e por vezes contribui com algumas outras ilustrações. E a coluna semanal do Hempa, na Carta Capital, na qual Navarro também participa com suas ilustrações.
Sobre essas colaborações, Felipe nos diz: “Foi uma surpresa, mas também um desafio enorme e constante, pois falar coerentemente sobre maconha semanalmente é uma grande responsabilidade.”
Por último, gostaríamos também de chamar a atenção para que se entenda que apenas a legalização da maconha não faria com que milagres acontecessem no âmbito social. Parar de consumir do tráfico não é o suficiente, já que existem famílias sustentadas por ele e é preciso além de tornar legal e não-violenta sua fonte de renda, uma reestruturação para que essas pessoas não continuem em empregos degradantes ou dependentes de outros tipos de crimes.
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Por Luísa Mattos