Larry Clark – VISTA 19

Publicado em 24/06/2021

 

O ano era 2008 e, aos olhos mais atentos, Larry Clark desembarcava em Inhotim para uma exposição pública no Centro de Arte Contemporânea, com 110 fotos. Exposição grande pra caralho, se parar pra pensar, né? 

Dentre vidros quebrados e corpos nus, o diretor do KIDS expôs seu olhar na juventude desde os anos 80, tentando não só retratar, mas estar ali. Tão polêmica quanto as fotos presentes, como você vai ver nesse artigo algumas delas, é a vida do autor.

Mas isso tudo você relembra agora na matéria que imprimimos na VISTA 19, do mesmo ano da exposição do Larry. O texto é do Lucas Pexão:

“Eu queria mostrar o modo dos jovens verem coisas, mas sem toda esta bagagem…. Você sabe… eles estão vivendo o momento e não pensando em nada além disso e isso é que eu quero mostrar. Eu queria que o espectador sentisse com se estivesse ali com eles – você pode estar lá fodendo , usando drogas, fazendo sexo…” – Larry Clark


Hoje em dia há diversos programas de TV que prometem mostrar a realidade, a vida das pessoas como ela é. O problema é que é difícil conseguir captar algo verdadeiro de alguma pessoa quando ela tem uma câmera apontada para a sua cara. É aí que o fotógrafo ou diretor tem que mostrar a sua sensibilidade e competência, e são realmente poucos que conseguem isso. Larry Clark é um deste gênios da realidade, seja com imagens estáticas ou em movimento. Suas obras agridem aos olhos e consciências dos mais ingênuos mostrando a realidade dura e crua de jovens americanos revoltados e fracassados.

 

A fama com o grande público veio para Clark com Kids, lançado em 1995. O filme, escrito por Larry Clark e Jim Lewis e com roteiro de Harmony Korine, mostra um dia na vida de jovens skatistas de New York. Sexo, drogas e violência são mostradas de forma quase documental pelo filme, que utilizou atores amadores em seu elenco (inclusive o saudoso Harold Hunter). A carreira como diretor de cinema ainda inclui Another Day in Paradise (1998), Bully (2001), Teenage Caveman (2002), Ken Park (2002) e Wassup Rockers (2006).

 

Mas a vida artística de Larry Clark começou bem antes, em sua cidade natal, Tulsa, em Oklahoma, EUA. Em 1971 o então fotógrafo publicou em New York o livro Tulsa, uma série limitada de fotografias feitas durante os anos de 1963 e 1971. As imagens em preto e branco mostravam Larry e seus amigos degenerados enquanto usavam drogas, bebiam, faziam sexo com prostitutas ou utilizavam armas. Para isso o fotógrafo utilizou um câmera 35mm com lentes wide angle, apenas com a luz do ambiente.

 

A vida fora da lei de Larry Clark acabou por lhe enviar para a cadeia, onde passou 19 meses enclausurado. Isso não evitou de receber 5 mil dólares do fundo governamental norte-americano para a produção de um novo livro de fotografias, intitulado Teenage Lust e lançado em 1983. O livro é uma autobiografia através de imagens de outras pessoas. A nova obra foi considerada ainda mais sexual e perturbadora que Tulsa. Fotos de família, jovens usando drogas e se prostituindo são os temas principais das fotografias, todas elas captadas de forma realista e documental. Algumas fotos incluem, inclusive, o próprio Larry Clark. Após lançamento destes dois livros ele se tornou um artista respeitado na arte contemporânea e abriram outras portas, como a do cinema.

 

Bom, não é a primeira vez que falamos de Larry Clark aqui na Vista. A boa notícia é para quem mora no Brasil e quer dar uma conferida de perto na obra fotográfica do artista. O Centro de Arte Contemporânea Inhotim, localizado há alguns quilômetros da capital mineira, expõe pelos próximos dois anos 110 fotos de Larry Clark em uma de suas galerias. São 110 fotografias, 10 delas da série Tulsa, 1972, e as outras são parte da série Teenage Lust, de 1983. De quintas à domingos, por míseros R$10, qualquer mortal pode adentrar nas fotografias de Larry e ter uma idéia da realidade fracassada de jovens perturbados que vivem no país mais poderoso do mundo. Qualquer semelhança com o que vimos todos os dias nas ruas brasileiras não é mera coincidência.

 

Inhotim Centro de Arte Contemporânea:

Se Inhotim fosse uma obra de arte, com certeza seria uma grande tela surrealista. O Centro de Arte Contemporânea, localizado no estado de Minas Gerais, parece algo fora da realidade brasileira. Inhotim possui mais de 400 obras em seu acervo e é um lugar em contínua transformação, onde a arte convive em relação única com a natureza. O centro fica na cidade de Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte (MG), e ocupa uma área de 45 ha de jardins com uma extensa coleção botânica de espécies tropicais raras e um acervo artístico de relevância internacional.

 

Inhotim foi apresentado pela primeira vez ao público em setembro de 2004 e, em outubro de 2006, sua estrutura foi completada para sua inauguração ao grande público. Desde então, recebeu mais de 140 mil visitantes, número que coloca o museu entre as instituições de arte com maior fluxo de público no país.

 

O acervo de Inhotim vem sendo formado desde meados de 1980, com foco na arte produzida internacionalmente dos anos 1960 até os nossos dias. Pintura, escultura, desenho, fotografia, vídeo e instalações de renomados artistas brasileiros e internacionais são exibidos em galerias espalhadas pelo Parque Ambiental. Uma série de projetos especialmente comissionados por Inhotim está atualmente em andamento e envolvem artistas como Doug Aitken, Matthew Barney, Rivane Neuenschwander, Pipilotti Rist e Carrol Dunham.

 

Os espaços expositivos são divididos entre quatro galerias dedicadas a obras permanentes e outras cinco onde acontecem, com periodicidade bienal, apresentações de recortes da coleção. Na Galeria Lago estão obras de Chris Burden, Artur Barrio e dos artistas tailandeses Rirkrit Tiravanija e Navin Rawanchaikul. Galeria Mata expõem José Damasceno, Janine Antoni, Luisa Lambri, Laura Lima e Valeska Soares. A Galeria Fonte reúne vídeo, pintura, escultura e fotografia. O espaço procura revelar como a linguagem artística é utilizada para desvelar experiências contemporâneas entre diferentes gerações e nacionalidades. É neste pavilhão que Inhotim apresenta a obra fotográfica de Larry Clark, assim como do pintor Michel Majerus, falecido precocemente em 2001. Obras dos artistas Paul McCarthy, Anri Sala, Thobias Rehberger e Nuno Ramos também compõem o espaço. Ainda há a Galeria Cildo Meireles, com obras do artista de mesmo nome, e Galeria True Rouge, que exibe a obra de mesmo nome em caráter permanente.

 

A curadoria de Inhotim é composta por nomes de peso como Allan Schwartzman, Jochen Volz e Rodrigo Moura.  O centro está aberto nas quintas e sextas-feiras, das 9h30 às 16h30 e aos sábados, domingos e feriados, das 9h30 às 17h30. A entrada custa R$10. Estudantes e maiores de 60 anos pagam meia entrada. Crianças com menos de seis anos não pagam.

 

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