No flow cosmopolítico da arte de Brisa

Publicado em 03/02/2022

Por Thuanny Judes

A brisa fresca que se destacava numa tarde de janeiro, em meio a uma onda de calor em Porto Alegre, era prenúncio de uma presença forte, porém moderada. Brisa de la Cordillera, mais conhecida pelo nome artístico de Brisa Flow, era a visita anunciada pelo clima ameno e agradável em meio a um verão sufocante. 

Mulher ameríndia natural de Sabará, município da região metropolitana de Belo Horizonte (Minas Gerais), e filha de chilenos caminantes, a rapper, compositora e poeta trouxe sua performance para a capital gaúcha através do Circuito Orelhas e dividiu um pouco do seu tempo com a gente. Entre um peixinho e uma passagem de som, Brisa bateu um papo com a VISTA, falando sobre os períodos de ausência e retorno aos palcos, arte, política, futuros projetos e temas que atravessam sua existência.

A primeira coisa que eu quero saber de você é como foi e como lidou com o período fora dos palcos. Foi um momento em que o que acontecia no Brasil influenciou de alguma forma na sua criatividade, escancarou seus sentimentos?
Acho que a maior falta foi de trocar com o público, né? Essa falta da energia, da troca, foi muito intensa, acho que pra todos nós, músicos. Porque cada show, partindo do ponto de vista artístico, cada show é uma performance, né? E toda a performance, eu que gosto muito da improvisação, do freestyle, e gosto de ter o freestyle em todos os shows, e o encaro e o defendo como um rezo dentro dessa mistura da música originária com o rap, então para mim fez muita falta essa troca com o público,  esse momento único em que cada performance é uma performance né? O meu público gosta de falar que cada show meu é muito diferente do outro, então eu gosto de ouvir essa opinião do público e pensar que isso torna o momento único ali. Então esses momentos únicos e especiais ficaram ausentes, e isso me influenciava muito. Porque, querendo ou não, você se sente incentivado quando você tá num show e alguém troca uma energia com você, aí você conhece outros artistas, conhece outras pessoas que trabalham nas artes, isso vai retroalimentando. Mas ao mesmo tempo, acho que diante da desgraça mundial que é a pandemia que a gente ainda tá vivendo, meio que não tinha muitas outras opções, a não ser sair dos palcos mesmo e pensar outras formas de trabalho. Então foi aquele misto de sensações: saber que era importante e necessário a gente não estar nos palcos, não estar produzindo shows, mas ao mesmo tempo, entender como continuar trabalhando, como continuar alimentando a arte. E outra: não é só a gente que canta. Pra eu cantar, tem a produtora, tem um técnico de som, uma técnica de luz, a pessoa que faz o video mapping. Então várias pessoas que trabalhavam juntas que, de repente com o formato das lives, também pararam de trabalhar. Acho que isso influencia diretamente no nosso emocional, influencia nas criações também. São novos mundos e a gente tá pensando agora em como voltar, né?

E como está sendo para você esse retorno aos palcos?
O último show que eu fiz foi muito emocionante. Foi ao ar livre e, ao mesmo tempo, foi uma situação de não ir muita gente, foi numa comunidade e colarem crianças, pessoas mais velhas. E no final, eu tive contato com as pessoas que falavam coisas muito bonitas para mim e, mesmo de máscara… Isso que eu acho muito louco, né? Que a gente tá de máscara e a gente tá se vendo, olhando nos olhos uns dos outros. E essa coisa do olhar foi muito emocionante pra mim: a pessoa de máscara, eu de máscara, e a gente conversando e olhando bem nos olhos… foi muito emocionante ouvir o que as manas estavam falando, né? Uma fã chegou falando que me ouviu durante toda a pandemia! Então, esse retorno tem sido bastante emocionante. Tá valendo muito a pena cada instante que a gente aproveita no palco. E como a gente está numa situação instável diante de uma pandemia, eu dou muito valor para o momento, quando a gente consegue realizar alguma coisa em equipe, tanto internamente no show quanto externamente.

Me conta como é ocupar o palco com um corpo que é território de tantas experiências e que buscam o afastamento de um padrão eurocentrado? O que você sente?
É muito louco, né? Porque eu penso assim: quando eu vou cantar, eu tenho um costume que vem desde a minha família. Meus pais são artesãos. Inclusive, já trabalharam aqui em Porto Alegre em feiras de artesanato. Quando eu era nova, já ouvia dos meus pais: “ah, vamos para Porto Alegre, pra uma feira internacional latino-americana de artes”. E eles falavam muito sobre isso, né, por eles serem caminantes, que são povos migrantes, dessa coisa de licença pra chegar, do estar aqui no tempo e no espaço. Minha mãe é uma pessoa que valoriza muito a vida presente, meu pai é uma pessoa que valoriza muito a humildade pra chegar. Então eu acho que, quando eu chego no palco, eu peço a licença a esse território porque eu sou um corpo originário, mas todo o continente que a gente vive é originário. E tiveram povos originários em todos os lugares que a gente anda aqui nesse continente e que a gente não sabe, né? É o apagamento. Inclusive, teve lugares que eu já cantei que foram transformados em centros culturais e que antes eram espaços onde pessoas foram mortas diante do genocídio, então tem todo esse respeito em saber desse território, o que ele foi antes. A gente fala que o Brasil é terra indígena, né? Tem um artista Denilson Baniwa, que inclusive já veio pra cá também, que tem um trabalho urbano, de colar vários lambes pelas cidades, e a gente fala que o próprio meio urbano é a floresta, só que é o concreto disfarçando que não é floresta mais, mas aqui é floresta, aqui embaixo é floresta. As cidades ainda são florestas. E aí ele fala muito sobre isso, dessa coisa de ao mesmo tempo em que também são territórios indígenas, a gente tem cemitérios indígenas. Minha mãe me conta também que foi a cerimônias de quando as pessoas morrem, lá no Chile, nas culturas originárias, encara-se a morte de outra forma, diferente dos eurocentrados. Então, da mesma maneira, eu encaro a música de outra forma. A vida dessas pessoas que passaram por aqui, a gente tem que não deixar esquecido, né? Porque é um assunto denso. Você entra no palco e vai falar sobre música independente, vai falar sobre a atuação das das mães na música, vai falar sobre corpos originários, vai falar de indígenas contemporâneos se juntando para fazer música de etnias diferentes. Então, quando olham meu corpo no palco e não me conhecem, não conhecem a música, de repente estão esperando uma coisa e eu solto um rap com música eletrônica… Dá um nó na cabeça das pessoas, mas é esse “opa, peraí”, essa dúvida abre portas pra que as pessoas comecem a quebrar os estereótipos. Acho que isso é o fantástico: quando você entra no palco e quebra o estereótipo, e quem já te conhece do streaming falar: “nossa, ao vivo é outra coisa, é tão diferente”. Não que seja ruim ou bom, mas é uma experiência única. É isso que eu tento trazer, porque acho que se a pessoa vai ouvir meu trabalho musicalmente igual ao disco, ela escuta em casa, né? Que aí também é outro trabalho que eu me dediquei pra produção, que eu sou uma pessoa muito chata, faço direção musical de tudo. Então eu pego, escuto a mix, escuto a master, peço mais sub aqui, menos grave, mais agudo, mexo na dinâmica do som. Eu sou bem detalhista. Porque eu acho que esse é o momento que você vai ter meu em casa, que a gente vai compartilhar juntos, você vai me ouvir em casa. Quando estou no show, aí eu me preocupo com outras coisas. A performance, a sensação que você vai sentir ali. Então, acho que eu sou um mix de tudo isso, porque eu cresci em Minas Gerais, que ao mesmo tempo é o rolê da batalha. Então eu trago tanto essa questão da espiritualidade originária fazendo música, que pra nós é como um rezo mesmo a música, não é algo que se separa da vida, e ao mesmo tempo trago essa vivência do hip hop, que é onde eu cresci e aprendi a fazer música. Foi com o rap, né?

Foto: Pyetra Salles


Acredito que as atuais ações do governo contra a preservação ambiental e demarcação de terras indígenas seja um dos assuntos que atravessam a sua arte. Em um período tão duro para o país, qual você acha que é a sua contribuição como artista de ascendência indígena, mulher, como mãe e como feminista interseccional?
Eu acho que, na verdade, a música sempre foi política, né? A música indígena em geral, a arte indígena em geral. Nem tem a palavra “arte” pra nós, em várias línguas, não tem. Isso é uma coisa que eu tenho pesquisado. Não existe palavra que defina “arte” em várias línguas, de vários povos. Pra nós, a arte não se separa da vida, como eu disse. E aí você pra e pensa: se a arte não se separa da vida, a gente tá o tempo todo tentando criar a cidade de uma forma a separar a cidade da floresta. Então, você, no seu psíquico da matrix da sua ilusão, da ficção Brasil, você pensa: o Brasil é uma capital. O Brasil é uma cidade, o Brasil é carros, Brasil é fábrica, o Brasil é agronegócio. Mas não! Olhando o Brasil de cima, você vê que é um lugar que é uma ficção de fronteiras, sem pé nem cabeça, que não faz sentido, não respeita os povos. Existem povos lá no norte norte que fazem divisão com a Guiana Francesa, que fazem divisão com a Venezuela. São povos que foram divididos por uma fronteira, mas estão em dois países. Ou seja, os países são ficções. E aí, quando você traz isso pras pessoas pensarem na música, através de poesia – porque às vezes as pessoas não tão a fim de dar um Google na história: “ah, beleza. O Brasil não foi descoberto, foi invadido”. E para aí! Não é uma coisa que é falada, né? A gente tem muito mais uma preservação de uma história colonial baseada nas construções civis, arquitetônicas colonialistas do tipo centro histórico: “vamos preservar o centro histórico”. História de quem? Uma história eurocentrada. Por que a gente não tem bustos de guerreiros indígenas, ainda mais no sul, que tiveram vários?! Por que a gente não tem no sudeste, onde também tiveram vários? No norte, também tiveram vários! A gente não tem bustos de guerreiros e guerreiras indígenas em praças públicas, a gente não tem preservação de línguas nas escolas. Então, se a gente, na música, puder trazer um pouco desse pensamento, é importante.

E eu falo que é arte cosmopolítica, porque a gente pensa não só na preservação ambiental. Eu tenho até quebrado a ideia do conceito “natureza” porque acho que é um conceito fictício, inventado. Sempre foi tudo floresta! A gente é ser de floresta também. Aí você cria um conceito natureza como “aqui está meu carro, meu apartamento, minha água encanada, meu esgoto, meu lixo, isso é a minha vida. E a floresta e a natureza tá lá, na vida selvagem, onde só encontro mosquitos”. E você, na verdade, está bebendo uma água que vem da floresta, comendo um alimento que vem da floresta. Então essas formas que nos separam da floresta são totalmente intencionais pra que a gente não tenha, não só preservação, mas também pra que a gente não tenha autonomia do nosso território. Porque se a gente tem consciência da quantidade de água que a gente tem aqui no Brasil , da quantidade de riqueza florestal, a gente toma uma autonomia pelo território e para de ser lugar de exploração. Torna-se um lugar mais forte politicamente, economicamente. Então assim, o artista vem com essa visão na arte indígena desde quando [Ailton] Krenak pinta o rosto, faz aquela performance com jenipapo. Eu nunca tinha visto isso como performance, mas entrando no conceito artístico, isso é uma performance. Ele chega ali, no meio de um monte de políticos que estavam super interessados no agronegócio, se pinta de jenipapo falando sobre o direito de demarcação. Aí você vai ver também têm outras ações. Se não me engano foi o [Mário] Juruna que recebeu um monte de dinheiro nos anos 80 pra negociar terras indígenas, e ele vai, tira uma foto diante de todo o dinheiro que ele recebeu. Também é uma performance! Você começa a fazer esse paralelo de que a arte indígena sempre foi voltada pra isso. E musicalmente eu sou influenciada pela Violeta Parra, que fez isso no Museu do Louvre, quando ela foi representar a América Latina lá na França, ela fala uma pá no meio do Louvre, cantando com a guitarrinha dela.

Então, assim, são coisas que necessariamente não queria ter que falar “nossa, minha arte é política, estou aqui pra falar toda vez sobre uma coisa óbvia” porque eu sou plural. Eu falo disso, mas eu falo de sexo, eu falo de amor, eu falo sobre diversão, porque tudo isso me compõe. Mas, infelizmente, a gente tá sempre querendo encaixotar as coisas: ah, essa música é sobre tal coisa; esse artista faz um trabalho militante. Então, isso que não faz a gente enxergar o Brasil como uma riqueza total. Se a gente parasse de ver o Brasil separado e começasse a ver que o Brasil é rico musicalmente, rico ambientalmente, rico financeiramente. Se a gente soubesse usar todas essas tecnologias a nosso favor. A gente não precisaria, nós músicos, ficar batendo nessa tecla de arte-educação, mas eu acredito que é algo que eu vou sempre fazer porque eu sou arte-educadora e eu acredito que a melhor ferramenta é a famosa que o Mano Brown fala: entrei pelo seu rádio, tomei, cê nem viu. Então, você entra pelo foninho da pessoa. A pessoa tá indo trabalhar, aí “nossa, como assim, que ela tá falando?”, e dá um Google. Aí você já tá mudando o pensamento colonialista de uma pessoa, já vai fazendo um trabalhinho ali, né?

Você tem notado uma abertura maior para as mulheres no rap nacional nos últimos anos? Acha que é um cenário que tem dado maior espaço para as mulheres?
Quando a gente pensa no mercado do rap das minas, a gente tem que levar em conta várias coisas. Primeiramente, de qual tipo de mercado a gente tá falando? Mercado digital, mercado físico (das pessoas que compram ingresso, compram merchandising)? Porque eu acredito que são diferentes, né? A pessoa que escuta as minas em casa, infelizmente, nem sempre vai no show das minas. E aí a gente tem toda uma lógica de line up de festivais. Infelizmente, quando você vai no line up e tem cinco pessoas no festival, às vezes é uma menina e não é do rap. Então, você vai ter dois, três caras rap e uma mina que não é do rap. Ou uma mina do rap. E geralmente essa mina tá abrindo, né? Então, isso faz o rolê ser voltado, culturalmente, pra apoiar mais homens dentro do rap. Eu acredito que as minas são mais ouvidas em casa do que as pessoas vão aos shows. Infelizmente. E por incentivo de line up, eu acho que se a gente começasse a ter um line up mais justo, de ter uma mina trans, de ter uma mina cis, de ter um cara do rap. De ter tanto o público LGBTQIA+, que ta muito grande no rap, quanto as minas, quanto os caras, e a gente tivesse uma cultura de juntar isso… porque isso já tá junto no digital. Hoje a gente já consegue ter umas playlists incluem minas monas e minas cis juntas, boycetas também, que são os homens trans do rap – que a gente também tem que falar deles porque eles não estão em line up nenhum! Então, eu acredito que a gente está construindo algo muito melhor do que já foi no início da minha carreira, mas ainda falta as próprias pessoas começarem a ver que tem potencial de essas pessoas num line up. A gente precisa de um festival só de minas porque a gente não tem festivais com as minas, mas a gente não precisaria se a gente tivesse todo mundo, um incentivando o outro. Porque uma pessoa que escuta um cara de rap, e que é fã de rap, e escuta uma mina boa do rap, uma mona boa do rap, essa pessoa consegue ver: pô, eu to analisando o som! Se é mina, se é mona, se é cara, eu gosto de música boa. E eu acho que eu tenho um público assim, que gosta de caras do rap, que gosta de monas, que gosta de minas que fazem som eletrônico, música independente de outros gêneros.

O Brasil tem um potencial tão foda pro rap, e o rap tem um potencial tão foda de misturar com outros gêneros. Isso é uma coisa que nós, no Brasil, fazemos muito bem. A gente tem rap com samba, rap com jazz, rap com música eletrônica, com tudo que a gente imaginar. Deve ter rap com sertanejo também. Eu que não conheço, mas deve ter. Então assim, esse mercado é muito bom dentro das plataformas digitais. Acho que, depois da pandemia, a gente vai conseguir ver isso, o quanto cresceu na pandemia, que todo mundo começou a ouvir som a mais em casa, a gente conseguiu ter uma noção melhor do que são esses streamings. Tenho amigas que tão fazendo revistas de análise desses streamings dos anos da pandemia, e elas têm visto isso, que muitas pessoas têm descoberto sons novos porque você vai lá, escuta um álbum, fica um pouco enjoada… Eu não fico, tá, gente. Escuto Naná Vasconcelos e Alice Coltrane, os mesmos álbuns há anos, mas enfim. [risos] Aí as pessoas ficam meio enjoadas, escutam outro álbum, e isso vai aumentando o público. Imagina quando essa pandemia acabar – que eu to torcendo que ela acabe – e a gente conseguir concentrar esses públicos em festivais diversos? Aí a gente vai ver o potencial que a gente tem pra quebrar esses machismos dentro do rap.

Foto: Pyetra Salles

Você acha que isso já acontece nos streamings, onde é tudo um pouco mais democrático?
Sim, apesar de que ainda os nossos plays de minas são muito inferiores! É que a gente vive numa bolha às vezes de amigos curadores, de amigos que são DJs e fazem sets mais democráticos, né? Mas ainda, num todo, os caras ganham muito mais plays de streaming do que as minas. Tem essa análise da Nerie Bento e da Luana Rabetti pra uma revista digital [Voz das Minas], que mostra que nosso gráfico até no mês de março, que seria teoricamente o mês das minas, é lá embaixo, e o dos caras lá em cima. Mas é o que eu falo, até começarem a pegar essa visão de quantas minas fodas, vai ser bom pras playlists, pras playlists ficarem mais ouvidas. E cara, é tão legal quando você vai num festival e você curte o som de alguém, e aí você encontra um cara ou uma mina que também curte o mesmo som… dá uns bons flertes, vira uns crush [risos]. Eu sou a rainha dos relacionamentos de festa ou de playlist. “Meu ex me falou de você, a gente namorou, foi linda nossa história de amor”. Ou histórias tipo “eu fui no festival que você ia tocar pra ver não sei quem, aí encontrei uma pessoa que era sua fã, a gente começou a ficar”. As pessoas sempre vêm pra mim com histórias de amor com as minhas músicas. Acho muito legal! O Djonga casa as pessoas, e eu vou começar a fazer recadinhos de amor: “mande um recadinho de amor pra quem tá nesse show!”.

Seu último lançamento foi “A Sensação da Raiva”, com Jup do Bairro e Leonardo Marques, em 2021. Podemos esperar algum lançamento seu ainda para esse ano?
Cara, esse ano tem muita coisa que foram seguradas, que já tão prontas, do ano passado. Até porque foi isso que a gente falou sobre pandemia. Eu queria fazer as coisas respeitando o momento que a gente tem. Não dá pra gente fechar os olhos “não, não está acontecendo uma pandemia, vamos trabalhar”. Não funciona assim, né? Então, eu vivi outro código de tempo, comigo mesma também, de ficar menos ansiosa com meu trabalho, entender que estamos sobrevivendo a uma pandemia, “seja mais tranquila com seu trabalho”. Então eu produzi um álbum que é o Janequeo. Começou com a ideia de um EP e se transformou em algo maior porque eu falei: “ah já que eu to demorando mais tempo, vou colocar mais essa… agora vou botar mais essa”. [risos] E aí foi nascendo o Janequeo, que eu falo que é um grande tecido que eu fiz durante a pandemia. Fui bordando ele, costurando ele e é isso. E também com a Badsista, que a gente tá produzindo um álbum juntas. E aí sim será um álbum, a gente quer chamar outros músicos, uma coisa bem maior. Mas o Janequeo tá muito legal, esse primeiro que vou lançar, porque são faixas que eu peguei do inicinho, sabe? Aquela música que nasce no banheiro, você cantando, gravando no celular, e de repente você faz um beat, tudo isso. Então acho que vai ficar muito massa. 

Para quando estão previstos esses lançamentos?
A gente vai ter um primeiro lançamento agora, que é de um freestyle, antes do Janequeo. E depois tem a Making Love, que é o primeiro lançamento do EP/álbum (que a gente tá chamando). Making Love a gente acredita que agora em março vai sair o clipe, porque a gente quer lançar o clipe e a música.

E quem é a Brisa fora dos palcos?
A Brisa fora dos palcos é a Brisa de la Cordillera, que fez a Brisa Flow. E a Brisa de la Cordillera é muitas coisas. Ela é arte-educadora, ela é mãe, ela é produtora também, porque acredito muito em emancipação de trabalho, de juntar várias pessoas que têm boas intenções e bons talentos, e umas vão ajudando a outra. Acredito muito nessa coisa de comunidade. Acho que a gente fala muito sobre atitudes anticoloniais, mas é difícil colocar isso na prática, principalmente no mercado de trabalho artístico, que é um mercado muito louco de tempo, de todo mundo tá surtando de ansiedade. Então, eu sou essa pessoa que tá tentando criar novas formas, inclusive pra Brisa Flow viver mais tranquila. E ao mesmo tempo, sou uma pessoa que gosta de comer muito peixe [risos]. Hoje comi um peixe aqui em Porto Alegre! Foi gostoso! [risos] Sou uma pessoa que come peixe, que gosta de nadar no rio, e que anda de bicicleta. Sou uma bikeira. Essa sou eu. E que tem amigos skatistas, tá, revista Vista?