O impulso criativo de J. Grant Brittain

Publicado em 17/01/2022

Um dos principais nomes da fotografia de skate lança ‘Push’, livro com coleção dos anos 80


Por Eduardo Ribeiro

Nem toda bela foto de skate é um retrato de manobra. Isso quem acompanha a Vista já saca e aprecia de longa data. Quantas das melhores imagens promovidas por este e outros veículos contemporâneos dedicados ao skate e seu universo não são capturas que traduzem mais o espírito das ruas do que a plástica da desenvoltura atlética? A própria capa do livro recém-lançado, e já esgotado em menos de um mês de sua primeira tiragem, do pioneiro da fotografia de skate, o estadunidense J. Grant Brittain, por exemplo, é de beleza ímpar e traz apenas um sujeito dando impulso.


Capa do livro ‘Push’- 80s Skateboarding Photography (Gingko Press), de J. Grant Brittain

Momentos como este às vezes rolam ao acaso, outras, são planejados. No caso do clique em preto e branco que estampa a capa de Push – 80s Skateboarding Photography (Gingko Press), houve um pouco dos dois: a moldura foi planejada, mas a ideia inicial era de certo pegar uma manobra, e não uma simples remada. No final de 1986, o fotógrafo dirigia para o leste na Via de La Valle, em Del Mar, Califórnia, e passava sob o viaduto da rodovia I-5 a caminho de tomar um café no Pannikin, como era de seu costume trivial naqueles tempos. Ele conta que estava sempre à procura de um bom clique ou plano de fundo, e fazia muito que admirava o feixe luminoso a brilhar através da lacuna que ficava entre as pistas norte e sul e dividia a parede de concreto armado com sombras contrastantes.

Depois de ter estudado a posição do Sol e criado toda a cena, na hora de revelar o filme a poética visual da “remada” fez Grant botar de lado todos os demais frames de manobras e tentar emplacar o retrato na capa da revista em que ele trampava na época, a TransWorld SKATEboarding. Uma das mais clássicas cenas de skate, foi a princípio rejeitada pela maioria da equipe da publicação por causa de sua aura conceitual. Por sorte, acabaram mudando de ideia e a imagem ganhou as bancas. Ao começo de 1987, “The Push”, protagonizada por Tod Swank, veio a público, crua, sem verniz. Ousadia que custou à revista alguns meses de opiniões adversas entre leitores, distribuidores e anunciantes.

Na entrevista a seguir, o autor desenrola com mais detalhes essa fita. Mas a lição que fica é a de que toda geração conta com alguém que chega metendo as caras e quebrando alguns paradigmas. Se hoje desfrutamos com naturalidade e possuímos repertório para saber enxergar a graça das coisas antigamente consideradas entrópicas, ou até indigestas, é porque teve gente que “remou” contra a correnteza modorrenta do conservadorismo.

Grant foi um desses valentes, e continua sendo. Ele pegou uma câmera aos 25 anos e começou a registrar seus amigos no Del Mar Skate Ranch. O “Ranch” era um skatepark em uma pequena cidade litorânea ao norte de San Diego, que ele administrava no início dos anos 1980, e foi lá que aprimorou suas habilidades. Em 1983, a molecada que Grant vinha acompanhando com suas lentes já compunha uma turma formada pelas próprias primeiras lendas do skate no período pós-Dogtown. Daí que Grant recebeu convite para colaborar na edição de estreia da TransWorld. Acabou virando editor de fotos e fotógrafo sênior fundador. As imagens selecionadas para o volume, que inclui prefácio de Tony Hawk, introdução de Miki Vuckovich e uma linha do tempo por Garry Scott Davis, foram capturadas durante este período infante de sua carreira, ao longo do qual J. Grant Brittain serviu de mentor para uma série de fotógrafos iniciantes.

Push – 80s Skateboarding Photography proporciona a chance de poder ver a coleção em um panorama de aguçar os olhos e nos fazer lembrar de como tudo começou e como tudo sempre começará: com um impulso, mesmo que meio desajeitado.

Algumas pessoas que se aproximaram do universo do skate no final dos anos 1970, e que acabaram fazendo carreira profissional nisso, foram para o lado de virarem atletas enquanto outras, como você, investiram esforços em áreas como fotografia, filme, design, jornalismo especializado, etc. O que o levou a se tornar um fotógrafo desta subcultura na época?
Trabalhei no Del Mar Skate Ranch a partir de agosto de 1978 e era skatista, olhava revistas e gostava das fotos. Em fevereiro de 1979, peguei emprestada a Canon do meu colega de quarto e cliquei um rolo inteiro de filme Kodachrome 64 slide e algumas fotos saíram. Na sequência, comprei uma Minolta SRT201 usada e comecei a tirar fotos dos meus amigos e dos locais do DMSR. Fiquei fascinado. Eu não conhecia nenhum aspecto técnico de como fazer fotos, estava apenas adivinhando e aprendendo com meus erros. Foi só um ano e meio depois que Sonny Miller me levou para a câmara escura da faculdade e a luz apagou na minha cabeça e passei a conferir uma abordagem de Arte para a Fotografia Assim, comecei a progredir.

O livro Push trata especificamente dos registros que você fez nos anos 1980. Em sua opinião, olhando em retrospecto para essas imagens e comparando-as com o estilo e a estética do skate atual, o que a década de 80 teve de singular?
Sempre me refiro ao skate nos anos 1980 como “Os Anos Dourados”. A década de 1980 foi um período em que o skate evoluiu a partir do brinquedo dos anos 1970, houve avanços no design de equipamentos e os skatistas usaram sua criatividade para inventar e expandir suas manobras.

Com o skate nas olimpíadas e skatistas posando de carros de luxo por aí, muita gente critica o estado mainstream e espetacular da prática. Nos anos 1980 já havia esse negócio de skatistas que eram como superstars?
Ninguém no mainstream se importou com o skate na maior parte dos anos 1980, exceto os próprios skatistas. Não havia skate na mídia, TV ou comerciais, e computadores e a internet não existiam naquela época. Havia duas revistas de skate e apenas os próprios skatistas as liam. Acho que alguns profissionais começaram a ganhar algum dinheiro no final dos anos 80, mas não havia negócios lucrativos de calçados naquele período. 

Àquelas pessoas que não curtem o que está acontecendo nos dias de hoje, indico que não deem ibope e não comprem o que eles estão empurrando, apenas ande de skate para você. Estou feliz que os skatistas possam ganhar algum dinheiro agora, eles são tão importantes quanto os demais atletas.

Ao longo dos anos, você se tornou referência para muitos fotógrafos de skate, que de certa forma até absorveram uma ou outra coisa do seu estilo, olhares e técnicas desenvolvidas. Mas as suas referências particulares para alcançar os macetes, num momento em que tudo estava ainda se desenvolvendo, como se construiu? Podemos falar em algo como influências?
Não tinha ninguém para me ensinar, aprendi vendo a Skateboarder Magazine e outras revistas dos anos 70. Apenas estudei as fotos desses mestres. Minhas influências foram James Cassimus, Warren Bolster, Jim Goodrich, Bill Sharp, Ted Terrebonne, Craig Stecyk, Craig Fineman e Glen Friedman, e eu ficava ali só reparando em suas fotos e descobrindo como se chegava àqueles resultados por tentativa e erro. Quando comecei a ter aulas de fotografia na faculdade, apenas adaptei o que aprendi lá para minha fotografia de skate. Também comecei a aprender sobre fotógrafos que não são do skate, e eles me ajudaram a me adaptar e encontrar meu estilo. Fui apresentado a Ralph Gibson, Henri-Cartier Bresson, Irving Penn, Walker Evans, The Bauhaus, Avedon, etc., aprendi muito estudando os mestres e vendo exposições.

Como a chegada do digital impactou o seu modo de fotografar?
No início do digital, isso me livrou do desperdício de filmes clicando sequências. Eu às vezes queimava 20 rolos de filme tentando captar uma manobra e, ainda assim, tinha momentos em que não virava. Quando começamos a incorporar câmeras digitais, ainda não estávamos fazendo fotos com elas, mudamos para a Hasselblad quando o digital melhorou e as pessoas venderam suas Blads. O que eu gostei no digital, além dos custos reduzidos do filme, foi que eu podia filmar em situações de iluminação abaixo da ideal e consertar no Photoshop. Traidor? Não, mas é muito mais fácil do que antes. Isso tornou as coisas mais fáceis, e também posso pegar digitalmente meu filme antigo e corrigi-lo e usar fotos que estavam subexpostas na época. Digital é apenas mais uma ferramenta na caixa de ferramentas e quando finalmente é impresso em uma revista, é tudo digital de qualquer maneira.

Quem são os skatistas e eventos que você mais se orgulha de ter fotografado em todos esses anos? Poderia comentar a ocasião de algum registro que você se lembra com um carinho especial?
A sessão da Animal Chin Ramp, com a Bones Brigade, em 1986, foi muito especial. A rampa foi construída e desapareceu em uma semana, e eu cliquei os melhores skatistas do mundo, Hawk, McGill, Caballero, Mountain e Guerrero, sendo dirigidos por Stacy Peralta e Craig Stecyk. No fim, The Search for Animal Chin acabou se tornando um dos vídeos de skate mais importantes e memoráveis ​​de todos os tempos.


Bones Brigade (1986)

Steve Caballero Lien e Guerrero Haight Brittain, por de J. Grant Brittain

Antes de entrar para a TransWorld SKATEboarding, você já publicava fotos sobre skate em outros veículos? Os caras que idealizaram a revista eram seus parças?
Acredito que devo ter tido umas seis fotos impressas na Thrasher em 1981 ou 82. Eu estava trabalhando no Del Mar Skate Ranch entre 1978-1984 e tirando fotos. Em 1983, Larry Balma, da Tracker Trucks, me pediu para contribuir com fotos para um boletim informativo de skate em que ele estava trabalhando. Quando subi um pouco mais tarde para ver o seu “boletim informativo”, me deparei com o espelho de uma revista de skate na parede e foi o início da Transworld Skateboarding Magazine. Conheci Larry Balma e Peggy Cozens através da Tracker e os outros caras através do skate, Blender, Mountain, Garry Davis, Bryan Ridgeway, e nenhum de nós sabia fazer uma revista. Apenas aprendi por tentativa e erro. Isso foi numa época pré-computador e tudo era recortado e colado na unha, era um trabalho intensivo. Todas essas pessoas se tornaram próximas de mim, foram muitas madrugadas e óleo da meia-noite queimando.

Existia um esforço da sua parte, na TWS, em garantir uma linguagem da fotografia de skate diferente daquela exercida pela Thrasher?
O fato de eu ser fotógrafo me levou a fazer as imagens da TWS terem uma boa qualidade. Eu queria que as fotos ficassem melhores em papel brilhante e, depois que David Carson foi contratado como Diretor de Arte, o design se tornou ainda melhor. Acho que os fotógrafos que trabalharam para nós e os skatistas ficaram entusiasmados quando as fotos assumiram um tratamento mais refinado.

Para quais veículos você está fotografando atualmente?
Eu ajudei no lançamento da The Skateboard Mag, depois de deixar a TWS, em 2004. Fui demitido em 2016 e não trabalhei mais fixo para nenhuma revista desde então. Contribuo para uma variedade de revistas, sites e mídias sociais, mas trabalho principalmente em meu próprio arquivo, vendendo impressões em meu site jgrantbrittainphotos.com. Push – J. Grant Brittain- 80s Skateboarding Photography, lançado recentemente pela Gingko Press, agora em dezembro de 2021, é meu primeiro livro, e estou me dedicando a divulgá-lo.

Você gosta mais de cobrir eventos ou sessões?
Eu prefiro desfrutar de sessões de fotografia onde posso trabalhar com o skatista um a um e ser criativo com iluminação e composição. Os eventos são difíceis de captar e as multidões e outros fotógrafos me incomodam. Acho que os X-Games e outros patrocinadores que não são da indústria do skate me irritaram com esse tipo de experiência. Eu fico longe da maioria deles.

Você se lembra de ter testemunhado o surgimento de manobras atualmente clássicas e essenciais ao skate, como o ollie, o aéreo e o kickflip?
Lembro-me de ter conhecido e visto Alan Gelfand em Del Mar mandar um ollie. Fotografei o McTwist em Del Mar. Lembro-me de ver o Miller flip e Elguerial em Del Mar. Fotografar Rodney Mullen sempre foi uma experiência. Fotografar Natas e Gonz, pioneiros do skate de rua, foi muito louco e me sinto feliz por tê-los testemunhado fazendo isso.

Gostaria que contasse os detalhes da história da foto escolhida para a capa do livro, hoje icônica, mas que quase foi parar no fundo da gaveta, e não nos mostruários das bancas.
Muitas vezes me perguntam: “Você vê em preto e branco?” A resposta é “Claro que sim, muito!”. Há certas cenas que gritam em preto e branco, e esta forma geométrica simples projetada pelo Sol no enorme pano de fundo estava se projetando fortemente em meu cérebro fotográfico. Comecei a pré-visualizar uma fotografia de um skatista passando em frente à parede texturizada, e a calcular a hora do dia para fotografá-la. Nos dias seguintes, eu veria o ângulo da luz mudar diariamente, conforme a Terra girasse. Eu finalmente descobri que o início da tarde seria o melhor momento para capturar a forma diagonal da sombra no visor da minha Nikon.

Naquela época, eu era o editor de fotos e fotógrafo sênior da Transworld Skateboarding Magazine (1983-2003), e Tod Swank, que era um ótimo skatista e fotógrafo de skate, também era meu técnico em câmara escura. Escalei Tod como meu manequim de dublê de fotos e nos encontramos no Pannikin. Caminhamos até o local das filmagens e verificamos a situação da luz – parecia muito bom. Assim que assumi posição no lado oposto da estrada de quatro pistas, eu o orientei gritando comandos e agitando meus braços freneticamente. O trânsito era bastante intenso e tinha de esperar uma pausa nos carros que passavam. Tod ficava remando para frente e para trás em seu skate, fazendo uma variedade de manobras, algumas bem cômicas, incluindo uma em uma postura de Superman. Queimei dois rolos de filme Kodak Tri-X 36 de exposição em minha câmera e senti como se tivéssemos algo utilizável. Capturamos o que eu havia imaginado.

Proof sheet ampliada de Tod Swank “The Push”

Deixe-me salientar que isso não foi produzido especificamente para a capa – essa ideia surgiu depois que revelamos o filme na câmara escura – eu só queria ter uma foto para a revista. Tod revelou o filme e me deu uma folha de contato, coloquei-o sobre a mesa de luz e apertei os olhos com a lupa. Uma imagem se destacou, o retrato com Tod simplesmente dando impulso ao longo da calçada. Foi tão básico: é a base do skate, foi a primeira coisa que todos aprendemos a fazer depois de pisar em uma tábua com rodinhas, a essência dessa atividade que nós, praticantes, amamos. Todos nós temos isto em comum: nós damos impulso.

Mostrei o retrato escolhido para David Carson, então diretor de arte (que mais tarde viria a se tornar guru do design), e ele ficou entusiasmado. Ele sugeriu usar a foto na capa da TWS, e eu achei uma ótima ideia. David também achou que a capa deveria ser elaborada sem qualquer camada de Day-Glo, como normalmente era toda capa dos anos 80, estilo New Wave, o que estragaria o design limpo e empurraria o skatista para fora do quadro. Esta seria a capa perfeita para combinar com o artigo “Soul Power” de Garry Scott Davis, que foi agendado para a edição de junho de 1987. Esta foto parecia para David e para mim como a foto do skate Everyman / Everywoman: todos podiam se identificar com ela, e o título dizia “poder da alma”. Ótimo! Isso é o que pensamos, mas o que você pensa nem sempre é o que os outros vão pensar. Apresentamos o design em uma reunião de produção editorial e o resto da equipe odiou. Eles foram muito contra. A proposta contrariava todas as regras mundiais de distribuição de revistas e do skate – não tinha camada de Day-Glo, a foto havia sido tirada em preto e branco e mostrava um skatista não profissional; não era uma foto de ação de um cara voando no céu com seu skate e um logotipo. Fiquei um pouco surpreso com a resposta dos outros membros da equipe, e a reunião foi ficando cada vez mais acalorada. Terminou e eu me retirei para o escritório de Carson, tentando me acalmar. Depois dessa discussão, achei que nossa capa Push era uma ideia de design morta e fiquei puto!

Fiquei afastado por alguns dias para me espairecer. Por fim, voltei ao escritório e a edição de junho de 1987 saiu, milagrosamente, com a capa de Tod Swank desenhada por Carson, foto minha. A legenda da foto na página de conteúdo dizia: “Não importa quem, onde ou o quê. É apenas um skatista… andando de skate. Foto: Brittain ”. Era disso que se tratava! Não importava que não tivesse o nome de Swank, esse era o ponto, era qualquer skatista! (Só para constar, Tod não se importou de não ter seu nome na foto.)

Você pensaria que toda a comoção iria acabar aí, tudo ótimo, certo? Não exatamente. Assim como muitos de nossos leitores de skate odiaram e gostaram. Amigos me disseram mais tarde que odiaram ou não entenderam na época, e se perguntavam o que diabos estávamos pensando. Tentei explicar para aquelas pessoas, aquela coisa de foto de todo skatista, a sensação de liberdade pelo simples ato de dar umas remadas rua abaixo, sabe… aquela coisa que todos nós fazemos, mas foi difícil de vender.

A revista teve de lidar com essa polêmica por um longo tempo, mas comecei a notar que as capas das revistas de skate mudavam com o tempo. Acho que a capa do Push abriu algumas reflexões sobre o que poderia acontecer na capa de uma revista de skate, e deixou mais claro que você não precisa seguir as regras dos consultores de banca de jornal. Afinal, somos skatistas; não precisamos de regras fedorentas! As pessoas gostaram daquela capa do Push depois de uns vinte anos. Eu até ouvi os antigos haters dizerem que virou uma de suas capas favoritas e até uma de suas fotos favoritas de skate. É aquele velho ditado, “O tempo dirá” – bem, neste caso, disse.

Hoje em dia, quando conto para os jovens skatistas como Push quase não foi uma capa e as razões contra ela, eles ficam surpresos, porque trata-se de uma proposta muito inofensiva para os padrões vigentes. Isso me enche de orgulho.

Tony Hawk escreveu algumas palavras na introdução do seu livro, certo? Poderia compartilhar um pouco sobre a amizade entre vocês?
Tony era um garoto que veio para o Del Mar Skate Ranch depois que o Oasis fechou bem na época em que eu era o gerente do parque, e comecei a fotografá-lo em 1980. Nos tornamos bons amigos e ainda somos. Ele diz na introdução do livro que nossas carreiras são paralelas. Nós praticamente apenas cuidamos um do outro ao longo do caminho e eu sei que sempre posso contar com ele, assim como ele comigo.

Tony Hawk Del Mar Skate Ranch (1982)

A seguir, J. Grant liberou para a Vista a reprodução em português do depoimento de Tony Hawk publicado no livro:
Grant Brittain e eu temos carreiras paralelas e – de muitas maneiras – complementares. Nós nos conhecemos em 1979, quando ele era um estudante universitário gerenciando a loja de artigos esportivos Del Mar Skate Ranch e eu era uma carinha magrelo, hiperativo e aspirante a skatista que passava todos os momentos, fora da escola, no skatepark de Grant. Nenhum de nós pensava que estávamos escolhendo nossa carreira na época; nós apenas apreciávamos a cultura do skate / surf e os desajustados ecléticos que a cercavam. Ele estava satisfeito por ter um emprego na “indústria”, e eu estava satisfeito por ter um lugar para andar. Não tínhamos ideia de que o DMSR se tornaria um epicentro do skate para o sul da Califórnia alguns anos depois, especialmente porque parecia que o skate era uma das atividades menos populares na época.

Certo dia, eu estava mandando umas manobras com alguns outros locais na piscina fechada do DMSR. Era uma tarde típica de um dia de semana no parque: ensolarado com pouca gente, apenas alguns curiosos que vagavam pelo campo de golfe em miniatura próximo para ver de onde o punk rock estava emanando. Grant saiu da loja profissional com uma câmera na mão e pediu para tirar algumas fotos minhas andando. Fiquei feliz em obter qualquer documentação de meus esforços na época, e Grant descobriu que eu era um sujeito cooperativo para sua autodidática em fotografia. Nós nos tornamos amigos rápido, independentemente de nossa diferença de idade, e ele me apresentou a algumas das primeiras bandas da new wave que eu gosto até hoje, como Visage, Ultravox e Killing Joke.

O skate começou a crescer lentamente em popularidade nos anos 1982-1986, exatamente quando Grant e eu estávamos desenvolvendo nossas habilidades separadas em saltos simultâneos. Ele se tornou editor de fotos da TransWorld Skateboarding (TWS) em sua edição de estreia de 1983, e já tinha um volume de imagens icônicas dos melhores skatistas antes mesmo de ser impresso. Ao mesmo tempo, eu estava começando a dominar a maioria das competições de piscina / vert, então a TWS publicava fotos minhas em quase todas as edições… quase exclusivamente tiradas pelo próprio Grant. Se algum patrocinador precisasse de uma foto minha, Grant era a escolha óbvia para tirá-la. Embarcamos em uma onda de sucesso que parecia irreal – ambos conseguindo fazer o que amamos para viver, embora nunca tenhamos imaginado que seríamos pagos por nossas paixões. A Del Mar acabou fechando, mas nossos planos de carreira ao longo da vida já estavam em movimento.

No final dos anos 80 e início dos anos 90, continuamos a trabalhar juntos fotografando vários editoriais, anúncios, posters e fotos de “estilo de vida”. Viajamos pelo mundo graças ao crescente alcance do skate e experimentamos novas técnicas e truques em nossos respectivos campos. Foi tudo um turbilhão, e nunca imaginei que algumas dessas imagens que estávamos criando seriam consideradas icônicas ou atemporais. Simplesmente amávamos o que fazíamos e continuávamos tentando melhorar.

Grant foi mentor de muitos aspirantes a fotógrafos de skate ao longo desses anos e, à medida que nossos caminhos começaram a divergir, trabalhei com alguns deles muito de perto. Eles iriam dar o crédito a Grant por despertar sua paixão e por conselhos inestimáveis ​​que ele compartilhou. Foi uma honra ser o protagonista da influência de Grant, uma vez que transcende ao longo de décadas. Até hoje, se surgir uma oportunidade de tirar uma foto para um anúncio, campanha de mídia social ou promoção de algum tipo, ainda ligo para Grant para fotografar, e ele geralmente ainda concorda em fazer sua mágica. Ou, às vezes, Grant terá a ideia de revisitar uma imagem icônica que fizemos (ou apenas testar algum equipamento novo) e eu estarei pronto para a causa.

À medida que Grant e eu ficamos mais velhos e nossos filhos se aproximam da idade de serem pais, é incrível ver o quão longe nossos esforços combinados ressoam através de gerações e fronteiras. Percebi o quanto nossas vidas e carreiras fecharam um círculo quando meu filho mais velho, Riley, abriu recentemente uma cafeteria e solicitou uma impressão de Grant para pendurar no meio da loja: uma foto minha deslizando naquele “buraco da fechadura” de Del Mar em 1985.

Obrigado, Grant, por documentar minha vida no skate de uma forma tão abrangente, como ninguém mais poderia ter feito, e por documentar os anos de formação do skate, com graça e em um estilo icônico.