“O produto é o excremento da ação”: uma entrevista com o Colligere

Publicado em 20/09/2022

Ilustre banda de hardcore curitibana retorna após 14 anos com um de seus melhores álbuns

Por Eduardo Ribeiro

Num dos momentos mais sinceros desta conversa que tive com os meus parças de longa data do Colligere, durante a estada deles em São Paulo para finalizar a gravação do novo álbum, previsto para outubro via Flecha Discos , o Rodrigo, vocalista e letrista da banda, solta da memória uma referência automática, que de certo marcou a vida de quem esteve envolvido com hardcore e luta antiglobalização no começo do século: “O produto é o excremento da ação”. Por esdrúxula que pareça a frase, ela faz todo o sentido no contexto em que foi veiculada. Trata-se do título de um artigo publicado no clássico zine Arauto (“Harbinger”, em inglês), do coletivo anarquista americano CrimethInc, traduzido na época para o português.

Revirei minhas caixas de zines antigos ao chegar em casa após a entrevista e não é que achei a parada?! O trecho em que a expressão aparece fala assim: “(…) Mas os produtos são os excrementos das nossas ações. Produto é o que resta quando a poeira baixa e a pulsação volta ao normal, quando o dia acaba, quando o caixão é depositado no solo. Nós não existimos na poeira abaixada ou no resultado final: estamos aqui no tempo presente, no fazer, no sentir. Assim como nós tentamos nos imortalizar fugindo para o mundo das imagens fixas e imortais, nós tentamos nos externalizar pensando nos resultados de nossas ações ao invés da experiência das próprias ações.”

O quinteto curitibano de hardcore, cujo primeiro show foi no dia 20 de maio de 2000 e que agora retoma as atividades após um hiato de 14 anos, está prestes a brindar um público ansioso com uma de suas melhores realizações. A plena forma, a maturidade, a poética das letras e as calculadas firulas instrumentais da trepidação sonora em estúdio, no entanto, são apenas o “excremento” do que há de real por trás de tudo isso: os laços afetivos. Sentado à mesa, com a xícara de café em suspenso no ar, de repente me encontrei diante de uma bonita história de amizade, que poderia ser um livro ou um filme, mas que vai virar disco – acima e além do que se entende por cena punk/hc, aqueles caras sempre se apoiaram uns nos outros, de uma forma ou outra, ao longo de quase todas as fases da vida.

Por isso, aquele suposto último show da turnê do álbum Palavra não era o fim do Colligere. A velocidade, o peso e a intensidade retornam agora enquanto espectro de coisas em comum saboreadas e pensadas  pelos integrantes ao longo do retiro. Embora tenham muito a dizer, o motivo maior da volta é que eles precisam estar juntos. Daí que os novos sons a caminho são o “produto” de uma comunhão criativa que se traduz na integridade das relações que a cultura hardcore tradicionalmente evoca. Enfim, o lance do “true til death”.

A banda é hoje formada por Artur Roman (guitarra), Brunno Covello (guitarra), Gabriel Covello (baixo), Rodrigo Ponce (vocal) e Tiago Barbosa (bateria). Eles iniciaram, lá em janeiro de 2020, a confecção das novas faixas no Estúdio Costella, com os produtores Gabriel “Bil” Zander (Zander e Radical Karma) e Cyro Sampaio (Menores Atos).


Cata a brisa:

VISTA: Impossível não começar esta entrevista falando sobre o sumiço fonográfico de 14 anos do Colligere, quebrado recentemente com a chegada da inédita “Lugar Algum”. O que rolou com a banda nesse período? Ela estava apenas adormecida ou renasceu mesmo?

Brunno Covello (guitarra): A gente parou em 2008, e ali morreu mesmo. Ficamos uns três anos sem ter contato enquanto banda, embora a amizade continuasse normal. Aí começaram a surgir algumas oportunidades de fazer reuniões, e fizemos. Mas totalmente focados naquelas apresentações. Não tinha nenhuma intenção de voltar. Ao mesmo tempo, ao longo de uma década, foi aparecendo a vontade de voltar e de compor. Algumas músicas que estão entrando no álbum agora foram criadas já em 2012, 2013…

Rodrigo Ponce (vocal): Que foi quando começamos a pensar em voltar a ser uma banda. Entre 2008 e 2012 a gente não existia…

Brunno: O que aconteceu foi que nesse período, de 2013 a 2017, a vida levou cada um para um caminho. O Rodrigo foi morar fora, o Gabriel teve filho, eu casei… Não é que a ideia da banda havia acabado totalmente, é que ela ficou ali como o quarto, quinto plano de cada um…

Rodrigo: Mas o FIM, em 2008, não foi com esse espírito, não… Ali era para ser um fim realmente. Teve um lance que eu falei, “Caras, não quero mais tocar. Se vocês quiserem achar outro vocalista, eu vou achar massa.” Mas os caras achavam que não fazia sentido e ficou decidido terminar.

Gabriel Covello (baixo): É, foi um cansaço dele, na verdade, porque nós queríamos continuar. Até porque em 2007 havíamos lançado um disco que as pessoas estavam gostando muito. O Palavra estava tendo uma troca legal pra caramba, e em 2008 essa repercussão culminou com o último show junto com o Comeback Kid que foi muito bom, mas o Rodrigo já estava numa ideia de…

Rodrigo: Uma ideia que tinha a ver com aquilo que estávamos conversando antes da entrevista, o lance do “dar certo”. Foi aquele momento, depois de uns oito anos de banda, que dava a sensação de que havíamos feito a coisa mais legal que poderíamos ter feito, tipo, “agora deu certo” [risos]. Mas eu já estava com 26 anos e não tinha uma “carreira”. Foi quando comecei a tentar uma carreira acadêmica. Comecei a perseguir alguma outra coisa que “desse certo”, olhei para a banda e meio que desvalorizei. Eu precisava me esforçar muito em outras coisas e não tinha mais energia para colocar na banda. Não fazia sentido. Isso durou uns três, quatro anos. Mas sempre mantivemos a amizade, e em alguns momentos pintava aquele papo de “vamos tocar”. Aí você faz um show e volta a antiga sensação de que aquilo é legal mesmo. Aparecem bandas novas, e dá mais uma empolgada.

Gabriel: Quando você percebe a cena se movimentando, bandas novas e boas surgindo, você se inspira novamente, volta a sentir que o punk é legal, que dá para ser legal. 

Brunno: Em Curitiba mesmo, durante esse nosso hiato, surgiu um monte de banda boa, fazendo música boa, e nós acompanhamos, mas muito mais à distância. Mas só para fechar o papo dessa volta: em 2018 estávamos em mais uma dessas reuniões, compondo em um ritmo muito preguiçoso, e aí tocamos em um festival com o Zander e outras bandas. Então o Bil [Zander] e o Cyro [Menores Atos] chegaram para o Digão, disseram que tinham visto nosso show e gostado muito, e falaram “Vamos gravar!”. Quando o Digão contou para a gente, cheguei em casa e em um mês fiz quatro sons. E começamos a maturar essa vontade de voltar a existir.

Essa necessidade de volta à existência nasce de um “algo a mostrar”, do ponto de vista criativo?

Rodrigo: Cara, eu não sei da parte de vocês [referindo-se aos demais integrantes da banda], mas nunca pensei em voltar porque tinha alguma coisa para mostrar. Era mais porque eu não estava falando com vocês, e tocar era um motivo para a gente se ver, no caso do Gabriel, por exemplo. O BC [Brunno Covello (guitarra)], meio que a gente se via um pouco. O Tuzi, muito distante. Então eu quis voltar por achar legal ter uma atividade junto com os broder. Não era tipo passar uma mensagem para o mundo…

Gabriel: Mas tem a parada de criar, a maturidade de compor, o cuidado com a produção que estamos tendo agora. Acho que está rolando isso…

Rodrigo: Sim, isso rola…

Brunno: Rola sim, mas o lance é que o “algo a dizer” a gente meio que foi buscando depois.

Rodrigo: Sim, era mais a vontade de estar criando junto.

Gabriel: Esse disco está sendo um puta desafio.

Brunno: Não que não tenha rolado outros projetos. O Rodrigo teve banda, eu tive, o Gabriel teve comigo também.

Como o Colligere virou o lugar ideal para vocês se expressarem, que outros grupos ou vivências artísticas anteriores não lhes proporcionaram?

Gabriel: O Colligere é uma mistura né? Sempre foi, e continua sendo. 

Brunno: É, poderíamos ter feito uma banda nova, mas o Colligere é o nosso melhor, de verdade. É onde, sei lá, eu consigo me expressar musicalmente de um jeito que gosto, e acho que o Rodrigo também consegue com a letra dele, com a forma como ele canta. Já vi o Rodrigo em outras bandas, não que eu não goste do som, mas acho que no Colligere é a melhor versão dele. E, agora, com a entrada do Tiago, novo baterista, ele trouxe outra energia! Então temos essa coisa que veio de novo e trouxe um gás pra gente. O Tuzi não mora em Curitiba, mas quando está, ele traz isso também. Então todos temos algo que, quando juntos, funciona legal.

Rodrigo: É muito louco esse negócio da mistura, que o Gabriel falou, e o quanto as nossas bandas, separadas, são completamente diferentes. O BC e o Gabriel, principalmente, tiveram bandas que soavam mais como hardcore melódico oldschool, bem no estilo que fazíamos antes; pô, eu tentei fazer umas bandas meio punk…

Gabriel: Punk diferentona [risos]…

Rodrigo: O Tuzi mesmo é um cara que mostra isso. O rolê da música dele é completamente diferente do punk. E ele tem uma energia para tocar com o Colligere que às vezes nos surpreende. A gente fala: “Cara, por que ele está vindo aqui de novo tocar com a gente?!”. E ele curte a versão dele nessa mistura. Acho que trazemos coisas de lugares muito diferentes.

Gabriel: É… porque o que esses caras ouvem não é mais hardcore [risos]. Vocês ouvem muita coisa nada a ver com isso.

Brunno: A gente busca no Colligere o limite da nossa possibilidade.

Rodrigo: Mas isso é um desafio foda para a banda. Porque na real a gente não tem limites. Não tem uma fórmula, entende? Então é fácil errar. O limite é nossa capacidade de tocar. O Incerto, por exemplo, é um disco em que muitas vezes a gente vai no limite do bom senso [risos]. Hoje a gente olha e fala, “pô, isso aqui poderíamos não ter feito.” No Palavra, e principalmente agora, acho que temos mais controle, mais confiança. Então rola abrir espaço para uma liberdade até maior do que imaginávamos. Mas continuamos fazendo coisas que olhamos e ficamos pensando se realmente ficou bom.

Brunno: “Será que não misturamos demais?”, enfim… Mas curtimos isso. Penso muito nisso. Escuto às vezes algumas bandas e existe uma fórmula, né? Você faz ali o riff, o refrão, parte C, refrão, acabou. Nós curtimos fazer músicas que contam uma história de um jeito diferente. Não é melhor ou pior, mas simplesmente vamos caminhando por outros lados. Existem climas, nuances, em cada música, e chega num final ali. Às vezes pode ser meio over, mas é o que gostamos de fazer. Acho que nos encaixamos melhor desta forma e, juntos, conseguimos fazer dessa ideia uma busca nossa. Meio caótica até, talvez, mas que acontece.

Eu estava dando uma lida nas letras e, poxa, são verdadeiras poesias! Num meio em que as bandas se dividem às vezes entre políticas, apolíticas, reaças, emos, ogras e “for fun”, vocês trazem um conteúdo que leva o ouvinte muito para dentro do ser… Há, inclusive, menções a Galeano, Mario de Andrade, Schoppenhauer e Julian Assange. Poderiam nos dar uma geral sobre isso?

Rodrigo: Quando o Brunno diz “contar uma história”, é isso mesmo. É muito louco porque o BC chega com umas músicas que tem muitos caminhos. E elas vão provocando sentimentos. Então eu olho e identifico o que cada parte transmite: raiva, calmaria… nem sempre me dei conta disso. Eu busco a letra depois. Primeiro vamos construindo a música e sentindo todos esses momentos. Daí eu vou brisando e falando com os caras sobre que tipo de letra ficaria legal, vou sugerindo, para tentar casar o clima.

Brunno: Mas também tem muita coisa pessoal sua…

Rodrigo: Sim, mas eu levo isso para a banda e digo o que estou pensando em escrever.

Brunno: Tem uma troca. O Rodrigo é um cara muito prolixo, ele escreve muito bem, e em alguns momentos ele põe lá umas palavras que a gente fala, “pô, Rodrigo, vamos mudar”. Mas na verdade isso é só uma troca entre nós.

Rodrigo: E isso é uma coisa que acontece com o BC também…

Brunno: A composição vai nesse clima de quase não repetição e as letras também são isso, vai contando uma história e seguindo para um lugar. Nesse disco novo estamos tentando trazer algumas repetições, fazer um refrão aqui, outro lá. Tentamos colocar, no meio do caos, uma certa ordem [risos].

Gabriel: É, o Rodrigo mudou bastante. No começo do Colligere ele escrevia uns textos em vez de letras…

Vem daí o lance de não ter refrão? Por se tratar de uma outra concepção de escrita, que só anda em frente?

Rodrigo: Sim. E a escrita da composição musical é geralmente circular, né? Acho que no Palavra, e principalmente agora, conseguimos misturar essas duas coisas. São duas bases, eu acho. Uma, emocional, uma parada que me tocou. Tem uma letra nesse disco, por exemplo, que eu estou numa rodoviária e vejo um morador de rua tendo um surto, falando sozinho, desesperado. E eu estava indo para casa. Daí ficou aquela sensação, de ver o outro daquele jeito… senti a necessidade de escrever sobre isso. Tentei escrever como se fosse ele. E, às vezes, rola a vontade de querer escrever sobre um tema. Então começo a ler sobre o assunto. Por exemplo, tem uma música nesse disco sobre a relação do humano com as plantas e os animais. Era uma coisa que eu já estava lendo, na verdade, e achei que seria legal escrever uma música sobre isso.


Vocês já tomaram posição em mil coisas, mas nunca assumiram uma bandeira. Por quê?

Rodrigo: É… acho que nunca representamos nada assim…

Brunno: Isso é um papo antigo, mas a mudança do Family [antiga banda straight edge dos parças] para o Colligere tinha esse objetivo também, de abrir outro leque, falar sobre outras coisas, de outras formas.

Quer dizer, o Colligere chegou para renegar o Family [risos].

Rodrigo: E ficou, né. Engraçado isso. Porque não tem a negação do Colligere [risos].

Gabriel: É, porque a gente manteve essa página aí, não virou esse capítulo [risos]

Brunno: Tamo nele! Desde então não sentimos a necessidade de mudar para fazer as coisas. Mudou, em muitos sentidos, como seres. Somos outros. Tantas marcas nas nossas vidas aconteceram nesses últimos 14 anos. Boas e ruins. Sei lá, perdemos a nossa mãe, o Rodrigo terminou um casamento, Gabriel também, tivemos filhos, nos formamos profissionalmente…

Rodrigo: Mudamos de trabalho, de cidade…

Brunno: É… somos outras pessoas. Mas, assim, acho que tem isso também nessa nova fase. Não é que a gente não soe diferente. Acho que soa bastante diferente do começo. Até a forma como encaramos essa gravação, a nossa dedicação nesse momento aqui. Mas é o mesmo espírito.

Gabriel: Acho que é continuar contando a história, né. Contar a mudança, sem a necessidade de negação.

Rodrigo: Principalmente o Incerto e o Palavra são exatamente isso, cara. Na época do Incerto, lembro da gente conversando ali sobre o nome do disco, e tinha sido um processo de composição meio caótico, indo para vários lugares, então chegamos nessa ideia de “incerto”. Já no caso do Palavra, não sabíamos muito sobre o que falar, qual seria a mensagem… e aí veio o termo “palavra”.

Muitas bandas acabam e as pessoas nunca mais trocam ideia. Já o Colligere tem esse espírito de clube de amigos, acho isso muito característico.
Rodrigo: Mesmo com as mudanças. O Metano, por exemplo, que foi o primeiro guitarrista, é nosso amigo até hoje. O Popota, que saiu da bateria há muito tempo, e o Vovô, que saiu agora também, a gente troca ideia.

Brunno: O Thiago…

Rodrigo: Thiago Marques, antigo guitarrista, é um grande amigo até hoje. E o Tuzi [guitarra] é muito louco, porque às vezes sinto que ele entrou ontem na banda, e ele já está há 15 anos! [risos] E ele é O CARA DA BANDA por mais tempo.

Brunno: É que tipo, ele entrou, tocou dois anos e a gente parou, né… Aí ficou nas reuniões e tal. E eu sinto, falei isso para ele lá em 2020 pré-pandemia, quando começamos a gravar, que foi muito massa esse período que tivemos mais próximo um do outro. Ele e eu principalmente, ficamos muito próximos uma época. Antes, ele era da banda, entre 2006 e 2008, mas era assim ele queria muito tocar com a gente, ensaio, rolê, show, e acabou. Hoje, temos uma relação muito mais próxima, todos nós com ele, do que naquela época.

Rodrigo: E com o Tiago (novo baterista) está se construindo uma coisa muito parecida. Porque ele é um menino bem mais novo, e às vezes ele olha e fala, “Caraca, que massa que estou tocando com vocês!” E a gente fala, “Mano, você já é da banda!”

Gabriel: Ele ainda não conseguiu fazer show…

Brunno: Nunca tocamos com ele, mas ele é um monstro, toca muito. É um demônio, o cara é demais. Nisso, ele trouxe um punch para nós, uma energia, de vontade do ao vivo também, porque nas composições ele destrói demais. Ele consegue alinhar toda a minha ideia, do Rodrigo, do Gabriel, ele consegue dar o norte. Tipo assim, ele pega a ideia e encaixa no trilho, saca?

Podecre. E como se chamará o novo álbum?

Rodrigo: Nome não tem, mas ele já tem capa há uns quatro anos, porque gostamos muito da foto. É uma foto do pai do BC e do Gabriel…

Gabriel: Em 1988, não foi?

Brunno: É, final dos anos 1980, início dos 90. Ele foi para a Europa, e aí é na Alemanha, e tem tipo uns punks assim… Ah, não vamos contar a foto, né, deixa esse suspense aí. Basicamente, é uma foto muito bonita, que se encaixa.

Rodrigo: Já teve um momento que esse disco era para ser sobre a morte. Ausência e morte. A primeira letra, “Abissal”, é sobre suicídio, sobre a falta de sentido da vida, pessoas que vão embora. Começamos a brisar nesse lance da morte, e aí as pessoas próximas começaram a morrer de verdade. Aí fomos para outro lugar, onde estamos hoje. E o lance da capa, para mim é muito isso mesmo, uma imagem bonita que fez com que o nosso pensamento fosse para lá.

Gabriel: É, o nome estamos questionando, mas a capa, não.

Serão quantas músicas?

Brunno: São nove músicas. As três que já saíram vão se juntar com as outras seis que estamos finalizando.

Rodrigo: Tem umas de dois minutos e umas de seis minutos.

Gabriel: Em média, três e meio, quatro. Essa de seis minutos é a última.

Brunno: É, vai dar uns 30 minutos, provavelmente.

Rola descrever um pouco a sonoridade para os leitores? Está na mesma linha dos três singles que já saíram?

Gabriel: Tem umas diferentes, umas surpresas aí, até para a gente. Tem umas bem rápidas, umas mais melódicas.

Brunno: Acho que todas são, de fato, intensas. A visceralidade é o que estamos buscando. Mas a diferença que o Gabriel está dizendo é que tem uma, por exemplo, que chega a ser mais pop… quer dizer, pop talvez seja uma palavra forte demais [risos].

Rodrigo: É uma baladinha [risos]. 

Ôh louco! Baladinha?

Rodrigo: Se você olhar para “Vertigem”, que é uma música do Incerto, é meio naquela pegada. Ela é mais lenta.

Brunno: Ela é mais linear. O ponto é esse. Não tem nenhuma parte rápida.

Gabriel: Sentimos que ela ainda tem a nossa cara, mesmo assim.

Brunno: Eu nunca componho esse tipo de som, mas fiz e encaixou com o que o Rodrigo está vivendo…

Rodrigo: É uma música sobre o amor, que tem a ver com a capa também.

Brunno: Se relaciona muito. E é uma música forte, achei bem forte. E aí tem outros sons também com intensidade, outros mais rápidos, muita variedade. É bem Colligere [risos].

Gabriel: Tem peso pra caramba, né, e acho que está um disco bem completão.

Pode ser exaustivo, mas também divertido o processo todo de concepção de um álbum no estúdio. Dá para brincar com microfonação, efeitos, timbragens, dobras. O que tem neste trampo de diferente ou curioso, do lado técnico?

Brunno: Acho que está legal o lance do trabalho da voz do Rodrigo. O Bil e o Cyro trazem esse cuidado que a gente nunca teve tempo, nem capacidade técnica para fazer.

Brunno: Nós ficamos olhando para as composições por muito tempo, teve bastante espaço dessa vez. 

Gabriel: Vocês se pressionam pra caramba! [risos]

Brunno: É… eu me pressiono muito… e acho que esse disco tem o nosso melhor mesmo.

Rodrigo: E esse gás do BC bota gás em todo mundo. Sem dúvida, se ele não tivesse esse gás, a banda não existiria mais.

Brunno: Fico bem feliz de isso estar acontecendo, me emociona ver a gente fechar essa história, estava demorando. E parecia que quando era para acontecer, dava errado, mas agora que vem chegando a hora, nem acredito!


O que vocês estavam ouvindo na época de formação do Colligere e que os impulsionou a querer buscar uma nova identidade estética, na contramão do Family?

Gabriel: Bem, nós não queríamos parar de tocar, de jeito nenhum… mas é que o Family era muito moldado.

Rodrigo: É, as bandas que começamos a ouvir eram o Bane, o Battery também, ouvíamos muito, By The Grace of God, e acho que era isso.

Gabriel: Catharsis também, de certa forma.

Rodrigo: Acho que um pouco depois… Entre 1999-2000, que foi quando o Colligere começa mesmo, era mais isso…

Gabriel: Era um hardcore melódico que misturava emo com oldschool, uma coisa assim…

Rodrigo: Teve um lance também, não sei se o Gabriel concorda, de que essa emoção, essa melodia, foi de uma coisa mais crua, agressiva, com mais certezas e convicções, para algo mais emotivo, aberto… Esse é o lance… Para mim o Colligere nunca foi leve, sempre foi emocionalmente tenso, nós buscamos essa tensão, sabe? Não é uma coisa agressiva, de certezas, e também não é uma coisa triste, é tipo… tensa.

Gabriel: É caos, né.

Brunno: Cara, ontem estávamos ouvindo as seis músicas novas, e é uma verdadeira tensão mesmo.

Gabriel: Tanto de andamento como de grito, de voz, falas fortes. Sempre foi, mesmo no começo. Junto com um questionamento meio desesperado. Do começo, lembro disso, era uma parada meio…

Rodrigo: “Questionamento meio desesperado”! [risos]

Gabriel: O primeiro disco é isso. Sobre Determinação e Desespero.

Rodrigo: Ainda que o Sobre Determinação e Desespero tenha um pouco de panfleto, nós vamos saindo disso para uma coisa cada vez mais…

Gabriel: É, começa a ir mais para o “não sei”, “tô descobrindo, vamo aí”.

As fitas atuais da polarização política, dos ataques à democracia, das fake news, acabaram influenciando o clima das músicas?

Gabriel: Cara, a gente surfou nessa ideia, pensou, “vamos entrar nisso?”

Rodrigo: Tipo assim, a posição da banda tem a ver sempre com o que estamos vivendo no momento. Com o tipo de coisa com que estamos nos envolvendo, ou que é importante para a gente. Por isso os temas das músicas foram variando com o passar do tempo. Mas especificamente sobre política, teve um disco do Dead Fish – Ponto Cego -, que ouvimos e falamos: “Caraaaaaalho! Que animal!” Não dava para fazer algo mais foda que aquilo. Mas nossas músicas são diferentes. Tirando “Desaparecido”, que é mais nessa pegada. Uma música sobre vidas desprezadas, esquecidas, vulnerabilizadas, apagadas… sobre lutar contra esse esquecimento. Essa é a única mais direta. E ela é foda nesse sentido.

Gabriel: “Lugar Algum” também, mas não nessa pegada forte da “Desaparecidos”.

Brunno: “Lugar algum” permeia…

Rodrigo: “Lugar Algum” fala um pouco sobre isso: Para onde estamos indo? Que país é este? Não me reconheço neste lugar.

Brunno: Você [referindo-se ao Rodrigo] escreve de uma forma muito pessoal. Então você traz a sua interpretação das coisas, mas não está falando abertamente.

Gabriel: São as coisas que a gente pensa, nunca é “faça isto.”

Rodrigo: Apenas “Desaparecidos”, no caso, é assim. Ela clama umas coisas. Ela fala, “vamos lá, vamos lembrar, vamos lutar”, é a única mais…

Gabriel: …mais “não esquecer.”

Brunno: É uma mensagem necessária, acho que ela é muito foda.


Como a perspectiva do pessoal do Estúdio Costella ajudou a dar forma aos novos sons?

Brunno: Gravar com o Bil e o Cyro é daora porque eles têm esse conhecimento grande que trazem de muitos anos. As nossas músicas são bem complexas e, às vezes, as “colinhas” deles vão salvando. Porque tocar direto e ficar perfeito é bem mais difícil. Sobre efeitos, estamos usando mais um reverb, porque, como a minha guitarra tem muito detalhe, isso dá um preenchimento maior. Tem muita dobra nas partes mais pesadas, que essa minha guitarra fica mais no meio, fazendo uns barulhos, e a guitarra do Tuzi mais cheia, a gente faz essa dobra. Tá tendo muita dobra de voz, isso é superlegal também. O Tuzi cantando mais, o Rodrigo fazendo duas vozes, às vezes em outra nota. O legal é que eles têm um bom gosto muito grande na mix, e já entendemos. Nas primeiras três, ficávamos assim: “Caraca, como isso vai ficar?!”, parecia até um sertanejo [risos].

Rodrigo: Pela primeira vez estamos gravando com duas pessoas que também têm esse cuidado. É leve gravar com os caras, mas eles se preocupam com cada detalhe, com cada nota. Tipo, cara, minúcia, de olhar cada detalhe. E na pré-produção algumas músicas têm o dedo deles. Cortaram coisas, acrescentaram, criaram junto. Inventaram com a gente ali o final da música.

Brunno: “Lugar Algum” foi isso. A música começava já na parte rápida. Aí eu tinha uma intro, e já tinha falado que queria fazer o começo do disco com ela. Mas os caras da banda falaram que já tinha muita faixa e tal. Aí na hora eles – Bil e Cyro – acharam que estava faltando alguma coisa na música para começar. Então eu mostrei, e o Bil criou a bateria, meio que criou a ideia. Eu ia tocando na repetição, e junto com o Tiago ele foi definindo. Funcionou muito legal.

Rodrigo: E aí depois da bateria gravada, ele veio com a ideia do baixo, né. Ou foi o Cyro?

Brunno: Foi o Cyro.

Rodrigo: É, o Cyro veio no ouvido do Gabriel e cantou a melodia, não foi isso?

Gabriel: É, teve isso. A gente trocava ideia até no quebra-cabeça das músicas, tira daqui, joga para cá…

Rodrigo: Teve música que o meio foi para o começo e o começo foi para o meio…

Brunno: …uma volta do riff, rápido e invertido… Mas acho que, dessas, a que está mais me trazendo essa novidade é a que vai fechar o disco, “Desaparecido”. Porque não tínhamos feito a parte instrumental do final, com o vocal do Rodrigo. Foi tudo feito no estúdio e gravado nesta semana.

Rodrigo: Inventamos esta semana no estúdio.

Gabriel: A parte final inteira.

Brunno: Sempre buscamos, assim como individualmente nas músicas, no disco, tentar contar uma história e, se você olhar nossos outros discos, as últimas músicas são sempre meio que uma parada que vai indo e acaba…

Gabriel: …fritando!

[risos]

Brunno: Tem isso, e a interpretação que o Rodrigo fez ficou muito forte.

Rodrigo: Eu cantei ali do jeito que o Bil sugeriu.

Gabriel: Você tentou uma, aí ele sugeriu outra, e ficou daquele jeito.

Rodrigo: Igual rolou com a bateria, com o baixo, então nessa parte final tem eles ali.

Brunno: Às vezes chegávamos nos outros álbuns muito do nosso jeito, só do nosso jeito. Eu acho muito massa, adoro o Palavra, acho um disco foda. Neste, ia ficar bom também, mas esse toque a mais dos caras é muito bom. É muito bom uma outra pessoa observar o que você está fazendo.

Gabriel: E ter esse tempo também, para questionar. Antes, nunca tivemos esse tempo para considerar se isso ou aquilo ficaria mais legal, era muito corrido.

Brunno: Como viemos do rolê punk/hardcore, nunca nos tratamos como músicos, sabe? É um lance de passar a olhar com esse respeito para aquilo que estamos fazendo. Beleza, somos punks, queremos fazer um rolê fóda, do nosso jeito, mas que a parada fique massa.

Rodrigo: Não se enxergar como artista… acho que isso é verdade, cara.

Brunno: Isso não é uma crítica ao punk.

Gabriel: É para nós mesmos, nunca fizemos as coisas com esse cuidado.


Como é a relação do Colligere com as pessoas que escutam a banda, acompanham a jornada de vocês, os shows, em todos esses anos?

Rodrigo: Isso é muito louco porque no começo éramos nós e nossos amigos, né. E aí o tempo vai passando, vai entrando gente nova no rolê, e algumas dessas pessoas se tornaram nossos amigos também. Mas, primeiro, eles gostavam muito da banda. Tipo, o Gabriel Saltore. Primeiro ele fez um show em Blumenau, levou a gente para tocar, e então virou um superamigo. O Eduardo Lubiazi também. Eu trampava numa loja, ele ia lá, gurizão, dava um rolê para ficar perguntando como era a cena nos anos 90. De repente, o cara é do nosso rolê, a mesma coisa. E, ao mesmo tempo, tem pessoas que realmente não conhecemos. Fico muito feliz, porque vejo gente fazendo coisas legais, que eu admiro, então descubro que elas gostam da banda. Às vezes você está dando rolê num show, surge alguém que você não conhece e fala: “Pô, que massa aquele som!”. Perceber o modo como as pessoas foram impactadas pelo Colligere é muito importante para mim. Eu consigo olhar de novo para aquilo que a gente fez, perceber que aquilo era legal mesmo.

Brunno: Nas redes sociais as pessoas mandam mensagens muito fortes. É uma relação visceral com a nossa música, muito grande.

Gabriel: A expectativa que está rolando também, pelo que vem.

Brunno: É, a galera está cobrando, querendo ver, ouvir. [risos]

Rodrigo: Para mim isso nos leva para o começo da conversa, sobre “dar certo” [risos]. Teve um momento em que parecia que “dar certo” era um número, tipo quantas visualizações, quantas pessoas no show, quantos likes, quantos shows, quanto recurso… Então rola essa interação com UMA pessoa, quando você está falando sobre uma coisa que impactou a vida dela, que representa a singularidade da vida dela. A banda deu certo? Deu!

Brunno: A gente vive nesse meio virtual e às vezes acaba caindo nas armadilhas dele, vai entrando no erro, mas a nossa busca não é essa. Que é essa vida virtual, né, você não consegue criar relações fora dali. Isso acontece.

Gabriel: Às vezes o cara põe grana até no Bandcamp ali, banca a parada, mas não se envolve além disso. Antigamente era outra parada. Você ia fazendo amizade. Em cada cidade tinha um grupo de amigos, você lançava aqui, os caras distribuíam por lá.

Rodrigo: É por isso que você tocava. Para poder ir até aquela cidade, encontrar aquelas pessoas. E a gravação era tipo… o excremento…

[RISOS]

Rodrigo: …da ação, tá ligado?!

Brunno: [risos] “Excremento” é foda!

Rodrigo: [risos] Digo, assim, tem toda a vida que a gente vive junto… 

Brunno: …Não, mas “excremento” é foda, vai!… [risos]

Rodrigo: É o produto!

Brunno: Tô brincando, eu entendi.

“O produto!” [risos].

Rodrigo: Mas era isso, cara! 

Brunno: Não era o primordial…

[RISOS]

Rodrigo: …é que eu lembrei do lance daquele zine famoso lá…


Tô zoando, mas flagrei a referência. Era o Arauto [risos], tinha um texto com esse título, né: “O Produto é o Excremento da Ação”, eu lembro desse negócio!

Rodrigo: Exatamente! [risos] Você lembrou disso também! [risos]

Brunno: Aê Catito [apelido do repórter no rolê punk], tá aí a chamada da matéria: “Lá vem o novo excremento da ação do Colligere.”

[RISOS]

Gabriel: O Catito tá anotando no bloquinho, ele vai usar isso, com certeza!

Vou usar, mano, já era [risos]…

Rodrigo: Mas sério: falamos sobre como neste disco estamos pensando na obra, com minúcia, e estamos mesmo. Muitas vezes imaginamos como reproduzir alguma coisa ao vivo, olhando a gravação. Só que, por mais que estejamos nos dedicando para o disco, para as músicas, o que mais importa é estarmos juntos, tocando. O que importa são as pessoas que vamos encontrar. As nossas relações.

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