PLANTUMANA -Felipe Barros e sua moda-manifesto

Publicado em 14/05/2021

Se você conhece um pouco de skate, quando ouve o barulho de alguém remando na rua, automaticamente olha pra ver quem é. Agora imagine se, ao você olhar, tem alguém vestido de planta em cima desse skate. 

 

Foi assim que muitas pessoas conheceram o PLANTUMANA, projeto do bioartista, designer floral, poeta, paisagista-jardinista e skatista Felipe Barros. Outras souberam da obra através do Ludens, o último vídeo da crew dos Flanantes

 

Plantumana é uma moda-manifesto por meio de uma roupa-obra criada pelo Felipe e que ganhou vida no coração financeiro da maior cidade da América Latina: a Avenida Paulista. A obra foi composta por materiais vegetais da própria cidade, coletados nas remadas do skatista e, após a performance, esses materiais foram devolvidos ao verde paulistano.

Sobre a obra

 

Segundo o Felipe, “Plantumana representa o conflito da aparente desconexão do ser humano com a natureza”. Nela, o participante é convidado a vestir a roupa, se tornando um com a obra.

Além dos materiais vegetais, a roupa-obra foi composta por placas eletrônicas, refletindo sobre a tecnologia da natureza como a natureza da tecnologia.

 

Na obra, há também um poema de autoria do Felipe, utlizando uma linguagem integrada e metafórica que conecta a condição humana às das plantas, gerando assim uma consciência cíclica e mística. O poema na íntegra está ao final deste artigo! 

 

O Plantumana lida com questões pertinentes ao nosso tempo, dando uma resposta à diversos temas importantes como na área da arte,  com uma obra multissensorial, que propõe novas formas de conceber os sentidos e relações entre o artista e o público que é chamado a se tornar um participante com a obra.

 

Toda a obra e sua performance incentivam a reflexão de como nós mesmos também estamos presos a conceitos pré-formados socialmente e como podemos, ao mesmo tempo, ser livres para flanar dentro dos espaços que estamos inseridos. Além, é claro, do chamado da natureza e o alerta aos impactos socioambientais. 

 

Filmando a performance

 

O vídeo da performance foi gravado por Vitor Takayama da IndaHouseFilms, e ele falou um pouco sobre essa reação das pessoas que viram Plantumana flanando pelas ruas da cidade: 

 

“Era engraçado sair na rua como Plantumana. Tinham algumas pessoas que achavam que tinha a ver com maconha… Foram várias reações, não só uma, isso que foi legal. As crianças gostavam bastante. 

 

A pessoa que mais gostou foi a senhora de chapéu, que aparece no vídeo. Acho que ela entendeu ou correlacionou com o que estava acontecendo ambientalmente na época do vídeo. 

 

As pessoas estavam realmente prestando atenção na obra, ela não estava passando batido”. 

 

O vídeo da performance completa ainda conta com uma segunda parte além da Avenida Paulista, que traz o uso de elementos visuais para o contexto do Plantumana. Ao pixar círculos em volta de si mesmo em uma placa branca encontrada na rua, o artista quis explorar os sentimentos que as cores trazem e também brincar com os limites dos traços impostos ao skate, à natureza e à arte nas grandes cidades. 

Plantumana e o Ludens 

 

Para quem gosta de vídeos de skate, Plantumana pôde ser visto no último vídeo de Murilo Romão e sua crew Flanantes, o Ludens. Para o Murilo, a performance casou perfeitamente com o que eles estavam propondo com o Flanantes da época das filmagens: 

 

“No início era pra ser o Plantumana e o (Marcelo) Formiga vestido de dinossauro, mas o Formiga não pirou tanto, eu acho. Mas aí a gente fez na Paulista a performance com o Plantumana. 

 

Achei dahora de conversar com o vídeo porque tinha bastante a ver. No Ludens a proposta foi de ser algo mais livre, mesmo, então casou perfeitamente”.

 

Sobre o artista

 

Falar sobre o Plantumana é também, de certa forma, falar sobre como o Felipe Barros enxerga o mundo. O artista, natural de Goiânia, mora desde criança no Estado de São Paulo, em Botucatu, e traz consigo muitas raízes.

 

Para o ecocryptoartista Caró Brandão, “Felipe Barros antes de ser planta humana já foi humano planta”. Veja o que mais Caró disse sobre Felipe e sobre o Plantumana:

“As plantas rasgam a cidade, algumas delas quebram o concreto, outras deslizam sobre ele.
B.hissss- Slide
I.shhkrrrsl – derrapa uma rodinha no chão
O.uuhhhh – uma planta salta sobre outra planta.

Felipe Barros antes de ser planta humana já foi humano planta. Caminhando por um outro tempo, orgânico como o crescimento e despreocupado com o capitalismo, o artista situa e organiza a vida. Através da Bio arte, o bio artista, desvela a consciência da natureza ao apontar e nomear que ela a natureza a maior tecnologia de todos os tempos, conhecida como a digitalia, o fruto de uma ampla pesquisa poética, a interseção entre palavra, tecnologia e a natureza.

A potência de brotamento e crescimento da obra de Felipe Barros é tão intensa que elas não conseguiram ficar paradas e enraizadas como as plantas comuns. Elas criam rodas nas raízes, saem deslizando, rasgando a cidade como a planta humana, talvez como a personificação de um espírito rebelde, uma entidade afro-indigena que retoma seu local de origem, ocupando a paisagem que um dia lhe pertenceu. Criando estranhamentos e afetos a planta humana se mescla a cidade, ocupa e floresce em todos os locais, talvez a planta humana brote no seu quintal, aconselho regar e deixar crescer saudável, se tentar podar um galho ela vai só vai criar espinhos e crescer mais e mais, tomando todo o terreno que um dia você humano achou que era seu.”

 

Felipe tem uma preocupação ambiental, além de cultural e estética em seu trabalho como bioartista. Então flanar pela cidade traz olhares diferentes à sua caminhada, já que sua pesquisa, por muitas vezes empírica, dialoga sobre Arte, Natureza e Tecnologia.

 

Em 2021 expôs na Pinacoteca a roupa-obra Plantumana, na exposição Afromodernos. Além disso, participou em 2020 do Fashion Revolution Brasil, também com a Moda-Manifesto “ Plantumana”. Já expôs na Bienal do Ouvidor 63 em 2019, na exposição “Agosto Indígena” e “ Nós Podemos”, ambas na galeria Colabirinto em São Paulo, também em 2019.Participou do  Novembro Negro de Botucatu em 2017.

A gente aqui da VISTA trocou uma ideia com ele para saber um pouco mais sobre o Plantumana: 

 

VISTA: Salve Felipe! Explica pra gente sobre a concepção da obra do Plantumana. Quais suas inspirações e referências pra criar essa moda-manifesto?

 

Oi pessoal! Então, foi uma conjunção de diferentes processos, onde eu já desenvolvia há algum tempo a ideia de obras vivas, além de experimentar cada vez mais uma arte multissensorial. A Plantumana sintetizou parte dessas vivencias, por ser uma roupa-obra a partir de uma moda-manifesto.

 

Ela foi composta por meio de uma bioexpedição que fiz  na natureza nativa e urbana de São Paulo, onde coletei materiais naturais para compor, unindo-os depois com placas eletrônicas.

 

As inspirações foram bem intuitivas, ancestrais e espirituais. Depois de conceber a obra, é que fui conhecer que ela conectava e ao mesmo tempo rompia com uma tradição de artistas, como por exemplo, Helio Oiticica com seus Parangolés. Depois de lançar ela, também conectei com referências de povos indígenas e africanos, que traziam a figura daquele que se veste e se torna de certa forma um Plantumana em rituais, inclusive, alguns povos específicos tratavam esse ser como um representante sagrado dos deuses na terra.

 

Plantumana poderia existir sem o skate? Por que o skate é importante nessa junção?

 

O skate já me  proporcionou muitas vivências, e como artista e skatista, eu percebia esses universos como potências que se conectam e criam diálogos. Ao mesmo tempo essa obra não tinha o skate como propósito, essa articulação foi feita depois graças a conexão especial com o Vitor Takayama, da Indahousefilms e do Murilo Romão, com o Flanantes.

 

A vivência com o skate acabou sendo o principal laço que interligou todas essas pessoas incríveis, onde por causa delas, além da obra, pode existir o registro em fotos e vídeos, como também a própria oportunidade da performance.

 

Qual é seu sentimento quando você é o Plantumana? O que muda quando você veste aquela roupa?

 

É difícil descrever em palavras, e olha que sou poeta (risos). Mas eu me senti em uma experiência imersiva e cíclica. Após vestir, eu realmente me tornei um com a obra, podendo assim ver e sentir o mundo através dela. Há uma poesia e metáfora profunda nesse processo, que é o de compreender o mundo com a consciência de se sentir parte da natureza. 

 

Vamos ver o Plantumana novamente? Se sim, onde e quando?

 

Essa obra lançou as sementes da arte e da moda do futuro neste tempo presente. Não sei dizer se vamos vê-la depois disso, penso e sinto que sua missão já foi concluída.

 

Hoje ela se encontra exposta na Pinacoteca de Botucatu, limitada apenas para a contemplação do público, como também podendo ser assistida no vídeo da performance.  Porém a moda-manifesto em si foi semeada e irá continuar a germinar em obras vivas, roupas naturais, ensaios florais e cenografias botânicas que, futuramente, irão se encontrar e florescer em um desfile. Fiquem atent@s!

 

Assista ao vídeo da performance do Plantumana na íntegra: 

Leia o poema que faz parte da performance:

 

Violentas violetas

Claro fito com clorofitos

ficando dentro de filodendros

 

Em crises do eu te amo com crisântemos 

risos de rosas

Delírios de paz/Dê lírios-da-paz

Encho à vera em echeverias

a poda o carpir o campo

podocarpo para tanto polipodium

pulei o pódio e

abelhazzzzzzzzzzz

abelhas ao propósito própositivo 

um própolis ativo

em um bac que ninguém ara

um baixo que ninguém acha

ranhuras  raízes  arraigam

palmas às palmáceas

pois palmeiras sem eiras nem beiras

brotam na borda do lago

arbustos astutos…

musgos mudos…

houve horas ? São onzes-horas ! 

Nos chama na fonte a dama-da-noite 

 

Por onde flor-de-maio 

por onde cor caio

laranjamarelazul 

Ipês !

Quando sem nenhum piu

há um n de pi em uma pinha

 

Acaso ache as acácias

samba na baia das samambaias 

phalaenopsis 

nos falam uma sinopse às sinapes

L  A    P    S O S

cact(ações)

desamargar a árida vida com margaridas

arcar com a dívida das orquídeas

já que jade

caqui cá aqui

skate jazz 

jaz a mim

Um jasmim-dos-poetas

 

Ficha técnica:

Performance : Felipe Barros

Ilustração: Gabriel Soares

Edição de vídeo: Vitor Takayama

Vídeos : Vitor Takayama, Murilo Romão

Fotos: Felipe Alves

Trilha: Netuno - Guizado

poesia : Felipe Barros