Renato Custódio lança o JARDIM

Publicado em 02/09/2021

JARDIM é o novo livro do fotógrafo e artista Renato Custódio e tem histórias bem interessantes. As fotos trazem o ponto de vista do skate na periferia e sua concepção foi além dos limites geográficos. O lançamento é dia 02 de setembro, no restaurante Piccoli Cuccina, às 19h30, em São Paulo. 

O livro foi feito no Brasil e conta com edição argentina, impressão mexicana e poemas europeus e asiáticos. Para falar sobre tudo isso e você entender melhor os detalhes por trás de JARDIM, perguntamos pro próprio autor, que é pra não ter dúvidas. Fala aí, Ned!

Salve, Renato! Fala um pouco sobre o jardim, seu livro novo.

Eu cresci no Butantã, que é mais periferia que centro em São Paulo. Meus amigos são todos de onde eu moro, ou pra trás da Raposo Tavares. A gente andava no shopping da Raposo, nos supermercados da região.Tem até uma galera que hoje faz parte do mercado de skate, o Gui Theodoro, o Andre Porto, o Cotinz…

Quando comecei a fotografar skate, praticamente não tiravam fotos nas quebradas, uma porque não tem pico e outra porque o skate técnico não combina muito com esses picos roots. Não tem como um cara dar um flip crooked numa parede podre ou pular um monte de mato. Fui morar fora de casa e voltei em 2017. No ano seguinte, o Felipe Oliveira ficou duas semanas em casa e saímos a pé para fazermos uma foto de forma mais livre. Eu já tinha mapeado uns lugares perto que davam pra andar e levei o Felipe. A gente fez tudo em dois dias, bem rápido e comecei a guardar para fazer um zine só com ele andando na minha área.

Eu já tinha outras fotos além do skate, coisas de textura, de quebrada, de portão, de periferia mesmo como os carros, a ausência de pedestre, os muros… E também eu estava lendo um livro chamado “Cidade de Muros”, da Tereza Pires da Caldeira, uma amiga, Paula Dykstra, me ajudou com referências de livros, como esse e outro da Octavia Butler, que também narra um pouco um possível futuro apocalíptico, o que parece que está perto, né?

Mas voltando ao livro, comecei a fotografar outras pessoas porque o livro já estava tomando mais forma na minha cabeça. Também peguei umas fotos que conversam com o conceito do Jardim, da Xuxinha, do Felipe Nery, do Victor Sussekind… O conceito foi mesmo falar sobre a periferia, coisas mais descentralizadas. É uma pesquisa que traz a realidade que vivemos, né? Só de estar materializando a realidade, já é o mote do livro em si. A Paula também ajudou a escolher os poemas dos livros e acho que eles tem a relação bem intrínseca com as imagens e com o conceito.

A gente está vivendo um jardim só no nome, né? Não existe uma praça planejada, não existe esse jardim na periferia. Aqui é tudo largado às traças. A gente está falando da cidade mais rica da América Latina e o parque mais próximo onde tem pista de skate é triste de ver a falta de cuidado do poder público. E é uma região onde as pessoas realmente precisam, sabe?

A gente vive esse descaso porque vivemos num país escravagista onde as pessoas não tem tempo de organizar e reinvindicar e o poder público está preocupado em fazer ações que dão visibilidade política e nada mais.

 

A gente que cria esses jardins dentro da periferia? 

É, não só nós skatistas, mas muitos artistas tem o tempo livre para escolher o que fazer e isso é uma coisa bem valiosa na América Latina. Toda pessoa que tem tempo livre tem uma responsabilidade social a ser feita, porque elas têm que cobrir o tempo que as pessoas que estão sendo escravas não tem. Quando a pessoa sai do trampo, ela tem que trabalhar em casa.

O livro jardim não fala exatamente politicamente sobre isso, mas é um retrato da realidade que a gente está hoje. 

Desde que te conheço, o skate e a arte estiveram sempre ligados. Onde está o Ned skatista e o Ned artista nessa relação?

A arte e o skate vieram juntos. Talvez o skate primeiro e através dele as artes. Minha mãe falava “para de fazer arte, menino!”.
Quando a gente era pequeno, pegamos um shape do Thronn, tubarão, e fomos treinar streetplant, ficando de ponta cabeça com o shape nos pés no alto. Um dia o shape caiu no meu dedinho e quebrou, eu tinha 7 anos. Tenho foto desse aniversário com a mão enfaixada.

 

Isso foi antes da capa da VISTA, que é aquela com o olho roxo. Era arte performática (risos), sempre rompendo com os próprios limites e foi assim que mais me quebrei. Eu sempre tive essa coisa de me puxar ao máximo, tanto no perfeccionismo, quanto uma coisa que nunca foi feita e querer fazê-la.

A arte está ligada ao fazer e à sensação do fazer. No fim dos anos 80, a arte era ir buscar madeirite na construção para fazer as rampas de skate. A gente fazia as próprias rampas e a parte mais legal era a primeira varada de rampa, sabe? Isso está muito ligado à arte, o fazer, ver pronto e ver o que acontece.

Voltando um pouco ao Jardim, você fez o livro aqui, a edição é argentina, impressão mexicana… Conta um pouco sobre esse processo Latino Americano.

Eu conheci o Mateo Barbuzzi, o editor da Clube Del Prado, um editorial que também lança várias publicações de skate, zines como o Zine Mostro, livros autorais… E ele também edita livros de outros artistas, como do Gianfranco Vaccani que lançou dois já com ele.

A gente sempre falou de fazer livros e apresentei o projeto do Jardim, que era um zine na época, mas o editorial dele começou a tomar mais corpo para virar um livro, ter mais profundidade do que um zine. O livro já está sendo diagramado há uns dois anos, na época ele morava na Argentina, mas eu sempre pedia um pouco mais de tempo para ter mais fotos que eu queria. Nisso ele mudou para o México e imprimiu por lá.

A impressão aqui em São Paulo em risografia é muito gourmetizada, tem um certo glamour, de ter um granulado, sabe? Parece aqueles filmes fotográficos de ISO 1600. Ele tem essa característica no livro e imprimir no México ficou mais barato.

A maioria das fotos é analógica, mas tem digitais também. Eu juntei fotos de celular, Hasselblad, Nikon 35mm e digital da Fuji.

Essa coisa de pedir pro editor segurar para pegar mais footage é algo que parece com fazer uma videoparte de skate e geralmente o skatista nunca está satisfeito com o resultado. Você está satisfeito com o livro?

Eu estou! Fiquei feliz com o livro, na real. Ele está bem amarrado e consegui ficar bem satisfeito, sim. 

Estou produzindo mais um, que ao contrário do Jardim, vai ser produzido todo no centro de São Paulo e gira em torno do Vale do Anhangabaú. É sobre o Vale e sobre o entorno, uma pesquisa sobre pedras, skate nas pedras… Vai ser uma videoparte mais rapidinha (risos).

 

Boa. E pra quem quiser adquirir teu livro, como faz?

Vai rolar um lançamento oficial no dia 02 de setembro, uma quinta feira, no restaurante vegano Piccoli Cucina às 19:30h.

Também pode comprar Comigo direto, via instagram e vou mandando pelos correios. Vai ter na Afonte, na Locomotiva Discos, na Crema Gallery e na Galeria Aura.

 


Jardim, livro de Renato Custódio

Produzido por: Clube Del Prado

Editado por: Mateo Barduzzi 

250 unidades