Rodrigo Corrêa e seus conteúdos sobre política, música e sociedade

Publicado em 13/01/2022

Por Filipe Maia

Fazer conteúdo hoje em dia não é tão difícil quanto antigamente. Você não precisa ser dono de uma rádio pra ter um programa de entrevistas por áudio, nem comandar uma editora gigantesca pra rodar um impresso. De fato as coisas são mais acessíveis, mas não necessariamente todo produto que existe é um bom produto.

 

Se fazer conteúdo está mais fácil, fazer conteúdo relevante é o dobro mais difícil. E conteúdo relevante que seja pesquisado, compilado, entrevistado e colocado sob perspectivas foras do status quo, porra, isso é 300 vezes mais embaçado. 

Quando a gente conhece alguém ou algum produto que tenha todas essas características acima hoje em dia, a gente fica impressionado. Na verdade é um mix de sentimentos de “caralho, que foda!” com “caralho, que puta trampo que essa pessoa teve”, mas esse segundo é só nossa parte preguiçosa de ser humano falando alto. Esse mix de sentimentos eu tive quando conheci as paradas do Rodrigo Corrêa. 

O podcast Balanço e Fúria e a editora sobinfluencia são dois de seus filhos, igualmente crescidos e bem criados. O primeiro, o podcast que interpreta as relações entre política e música no decorrer da história, tem temas como “punks e ficção científica”, “boxe contra o fascismo”, “a música e o partido dos Panteras Negras”, entre outros, que colocam a lupa sobre temas não-tão-gerais, de forma analítica em cada uma dessas relações históricas. 

No podcast, nomes como Marcelo D2, Lilian Rodrigues, Mauricio Takara, Murilo Romão e Elaine Campos são os entrevistados e as pessoas que somam com os conteúdos abordados. Ou seja, não tem tiro no escuro nem com o tema nem com a escolha de quem vai falar sobre. 

Já na editora, o foco é em materiais revolucionários, que trazem discussões e pensamentos que mudaram e mudam o mundo de formas sócio-políticas através da história. Autores como Louise Michel, Guy Debord e Walter Benjamin são alguns enfocados e reproduzidos pela sobinfluencia.

Fato é que a gente é fã do que o Rodrigo põe na rua e fã faz o que fã gosta de fazer: a gente foi atrás pra conversar e saber mais. Então hoje nosso papo é com a mente por trás desses dois produtos cabeçudos, para saber se tem boné que cabe nessa cabeça ou se ele tem que fazer por encomenda. (Há, pegou?) 

Salve Rodrigo! Quais e/ou quem foram suas primeiras influências musicais na vida? O que te influenciou a você gostar do que você gosta hoje em dia?
E aí, Filipe! Bom, acho que a pedra fundamental que representa a interseção entre quase todas as coisas que me acompanham há algum tempo, é o skate. Nunca andei muito bem, nem andei por muito tempo, mas quando aos 10 anos saio na rua do bairro em que cresci, em Piracicaba, e vejo que há um grupo de moleques aparentemente interessados numa mesma coisa que não estava na TV, na escola ou na igreja, aquilo me foi revelador. O skate fez com que eu me interessasse por uma música que não fosse a dos meus pais, me fez sair do meu bairro e ir pra bairros cada vez mais distantes, fez com que eu prestasse atenção na cidade e talvez, a partir daí, desenvolvesse algum senso estético e crítico, num espaço de troca relativamente diverso e acessível. Mas acho que o principal disso tudo, é que a partir do skate acessei o punk, e daí milhares de conexões foram se estabelecendo. Quando escuto o Pela Paz em Todo Mundo do Cólera e aquele split do Olho Seco com o Fogo Cruzado e Brigada do Ódio aos 11 anos, tudo ficou pra trás, inclusive o skate. hahaha A partir daí começo a frequentar os shows que aconteciam na minha cidade e nas cidades próximas, tenho contato com os fanzines, o veganismo, o straight edge, a política, assim como outros estilos musicais.
Acho que esses dois elementos se complementam, o efeito plástico que o skate propõe talvez tenha refinado meu gosto pela imagem, assim como a forma de ler a cidade. O punk te apresenta um léxico político que te aproxima de questões complexas com alguma energia que é capaz de engajar alguém mesmo muito novo. Outro elemento que não mencionei, mas que foi fundamental na minha formação, é o rap, algo que demorou a florescer pra mim, mesmo frequentando a Casa do Hip Hop de Piracicaba desde muito novo, acho que só a partir dos 15/16 anos, depois de ver o Kamau no Benjamin Rock Bar e Marechal na Casa do Hip hop que a coisa toma forma mesmo e me abre um leque gigantesco para outras expressões, aquele clássico caminho do sampler que te faz prestar atenção em algo de jazz ou de música brasileira, tipo isso.

O que mais, além da música, te influenciou a você seguir o que você faz hoje em dia?
Quando eu era mais novo, o fato de ter alguns amigos mais velhos professores me inspirava, eram pessoas envolvidas com o hardcore/punk e lecionavam ou estavam na graduação de história, letras, filosofia… isso era algo que eu observava e achava bonito e talvez tenha sido a maior inspiração para que eu fosse estudar história na graduação, até porque, apesar de sempre ter interesse, curiosidade, acesso a textos e livros, nunca fui necessariamente estudioso ou leitor assíduo.
Depois disso, já formado e trabalhando em lugares que me permitiam trocar com pessoas de repertório dos mais diversos, percebi que as coisas mais interessantes estavam nas “pessoas comuns”, às vezes nos achamos iluminados porque acessamos uma coisa ou outra de fora na adolescência, mas nós não desenvolvemos nosso gosto por jazz a partir de desenhos animados, provavelmente não temos algum amigo que inventou o próprio nome aos 15 anos, porque até então não havia nenhum registro de sua existência, não conhecemos alguém que foi preso no Mato Grosso do Sul e foi jogado numa cela com outros nove presos indígenas e a única forma de comunicação era através do desenho. Trabalhei pouco mais de um ano numa Fábrica de Cultura na Zona Norte de São Paulo e acho que a troca estabelecida com algumas pessoas naquele espaço me inspirou pra vida inteira, eu ainda busco por essas pessoas.

Vamos falar das coisas que você produz. Como surgiu a ideia de fazer o podcast Balanço e Fúria e quais foram os primeiros recortes que você quis trazer pra esse produto digital? 

Quando eu era mais novo, em Piracicaba, volta e meia as conversas giravam no entorno de curiosidades das bandas que a gente gostava, tipo, “mano, você sabia que o HR do Bad Brains gravou a Sacred Love pelo telefone da cadeia?”, ou “o Fabião do Olho Seco se correspondia com o pessoal da Dischord nos anos 80, por isso ele tá com X na mão no encarte do Grito Suburbano”, e tinha um camarada que sempre vinha com histórias ainda mais escabrosas que dificilmente a gente acreditava, tipo “Cês sabiam que o Morrissey quase cantou no Slaughter and the Dogs?”… acho que isso deixava um rastro pra investigação no fundo da cabeça, talvez a minha formação em história tenha contribuído um pouco pra forma que o podcast acabou tomando, não sei.
Fora isso, alguns detalhes de artistas que eu gosto sempre me encabularam, tipo, de onde vem a ênfase dada à questão do corpo (exercícios físicos, veganismo e kung-fu) na obra do Dead Prez? Qual a relação da comunidade negra estadunidense com a comunidade oriental pra vermos com frequência menções às artes marciais e a cultura chinesa/japonesa em grupos/artistas como Wu-Tang Clan, Afu-ra, Planet Asia…? Ou de onde vem a inclinação das pessoas ligadas a cena pós-punk de São Paulo dos anos 80 pelo trotskismo?
Essas questões já passeavam pela minha cabeça antes do podcast existir, criar o podcast foi só uma forma materializar um caminho pra desbravar algumas dessas curiosidades.

O programa tem um lado bastante político, voltado para história e contexto histórico dos movimentos musicais e outros movimentos sociais mais ligados com o underground. O quanto é importante, pra você, ter esse lado político dentro dos temas que você aborda?

Eu não costumo pensar na importância da coisa, tem alguns episódios que não são tão políticos e eu adoro, mas ao mesmo tempo eu tenho um comichão natural de buscar justificativa pra algumas coisas, e muitas delas estão na música. Se não busco justificativa, busco o conflito, eu acho que a coisa mais interessante de qualquer fenômeno humano é o conflito. Quando eu olho pro skate, pro punk, pro rap, pro jazz, pro samba, o que mais vai me chamar atenção serão os momentos de conflito, e o conflito inevitavelmente abre margem pra interpretação, pra especulação, pra politização da coisa, acho que o caminho é mais esse.

Você já teve convidados tipo o Juninho do Ratos, Kiko Dinucci, Bruna Provazi, entre outros. Como você chega nesses nomes? Eles têm relação com o tema?
Na maioria das vezes eu chego no tema antes dos nomes, às vezes um convidado legal casa com um tema em que já há o interesse em desbravar, mas não houve nenhum episódio em que o convidado é prioridade em relação ao tema. E sim, pensar no convidado é pensar em sua relação com o tema. Tipo, seria animal conversar com o Kamau sobre qualquer coisa, mas o episódio que discute a relevância das trilhas sonoras das skateparts tinha que ser com ele por conta da sua relação com skate e vídeos de skate, assim como seria sensacional conversar com o Marcelo D2 sobre sua carreira, mas acho que investir no recorte de uma leitura sobre a constituição e desenvolvimento do rap carioca a partir da ótica dele pode deixar um documento mais interessante para os ouvintes.

Quem foi o convidado ou a convidada mais treta de chegar e qual foi o mais surpreendente?
Os convidados mais treta de chegar são os que ainda não responderam. hahaha no geral, todos que participaram foram receptivos, acessíveis, abertos e práticos, mas tenho alguns na minha lista que negaram ou não responderam e que eu queria muito conversar um dia, como o KL Jay, Dexter, Lecy Brandão, Ariel (Restos de Nada/Invasores de Cérebro), Sandra Coutinho (Mercenárias), Rubia (RPW), Ferréz, Marechal…
Mas como disse, todos foram acessíveis. O primeiro convidado de relação distante, que não me conhecia e talvez nem conhecesse o podcast, mas que foi muito aberto e me surpreendeu, foi o Kiko Dinucci. O Parteum também foi querido, mandei uma mensagem pra ele pelo Instagram propondo o tema, ele me respondeu falando que tinha gostado da ideia, pediu meu celular e disse que ia me ligar pra combinar, depois de duas semanas sem sinal dele, num dia qualquer, no meio da tarde o telefone toca e é ele querendo conversar sobre o episódio. Essa conversa dura uma hora e só é interrompida porque eu tinha que entrar em uma reunião. O acesso ao Marcelo D2 foi simples também. Um dia eu acordo e ele tá seguindo o balanço e fúria no Instagram, mando uma mensagem, ele diz que acompanha o podcast, proponho de gravar um episódio e isso acontece. Fico feliz com essa abertura de pessoas que sempre me inspiraram curiosidade por seus feitos e com a possibilidade de materializar conversas que penso em ter desde moleque.
Fora isso, tem alguns episódios que tenho um carinho enorme e já considero clássicos, como o do Tiago Frúgoli, Nathália Grilo, Malu de Barros, Wander Wilson e Acácio Augusto, Murilo Romão, Jurássico… enfim, recomendo que escutem todos. hahaha

Como é produzir um conteúdo que seja diferente dos demais em uma era em que podcasts estão em alta?
Uhm… não sei o quão diferente o Balanço e Fúria é, não sei se consigo mensurar isso. É um formato limitado tecnicamente, o tempo que tenho pra pensar e desenvolver é ainda mais limitado, acho que tudo que o Balanço e Fúria pode oferecer de interessante é o recorte do tema e a curadoria em relação aos convidados, mesmo com o áudio não tão bom e às vezes com uma pauta dispersa. Não há Balanço e Fúria se não houver livre associação de ideias, especulação, aproximação, antes de tudo é isso, um espaço pra especular e aproximar coisas que gostamos e aparentemente não tem nada a ver. Apesar de reconhecer a limitação em muitos sentidos, principalmente técnico e de tempo pra executar, não posso negar que há uma preocupação fundamental com a elaboração conceitual e estética da proposta.

Quais suas inspirações e influências para se fazer um podcast político e social?
Acho que o estalo foi “quero saber o que essa pessoa sabe ou acha desse recorte mas talvez ela nunca me leve a sério se eu puxar essa conversa num rolê qualquer”. É óbvio que as pessoas vão se dedicar mais a uma conversa se houver registro, então o formato do podcast foi só uma das formas de se realizar essas conversas.
Eu tenho uma certa fixação por arquivo, acervo e catálogo também, na minha cabeça o Balanço e Fúria segue um pouco esse caminho, mais que um podcast, produção de documento talvez, de registro, de memória, não sei se é muito ambicioso pensar assim, talvez seja só uma conversa em formato de áudio nas plataformas digitais, mas a minha cabeça pensa muito na coisa arquivística, isso vale pra sobinfluencia também.

Massa, vamos falar da sobinfluencia agora. Fala um pouco mais sobre a editora pra quem ainda não conhece. (falar do sobinfluencia é também falar do cisma estúdio?)

A sobinfluencia é uma coisa que existe desde 2016, mais ou menos. Antes de ser uma editora, era uma espécie de ocasião em que eu e meus amigos nos juntávamos para ouvir música e conversar, isso aconteceu duas vezes em Piracicaba, uma em um café, outra em um centro cultural, “sob influência” era o nome da “exposição” de algumas artes que eu começava a fazer e tinha a cara de pau de expor.
Depois disso, a sobinfluencia se transforma numa plataforma em que eu publicava esses experimentos que eram basicamente colagens digitais e em março de 2019, morando em São Paulo, invisto no que viria a ser a primeira expressão impressa da sobinfluencia, que foi o Zonzo, fotozine do vídeo de mesmo nome, feito em conjunto com o Flanantes.
Em 2020 a fagulha gerada pelo encontro entre eu, Fabiana, Alex e Gustavo faz com que a sobinfluencia tomasse definitivamente a forma de editora e nossa primeira publicação foi do “Por uma arte revolucionária independente”, de André Breton e Diego Rivéra.
O cisma tem uma história mais simples, eu trabalhei até meados de 2019 na área da cultura, depois disso, ingresso no ramo editorial, começo a fazer artes e diagramações para outra editora chamada Autonomia Literária, algumas coisas para a Jacobin Brasil e o catálogo da sobinfluencia também começa a tomar forma e eu precisava de um portfólio. Esse portfólio é o @cismastudiocisma haha

Qual o intuito de se fazer uma editora independente com viés político e social?
Eu acho que às vezes fazemos algumas coisas simplesmente porque é aquilo que sabemos fazer, ou não queremos fazer nada além daquilo. Estamos vivos, o mundo é difícil e trabalhar/criar/tentar viver daquilo que se ama talvez seja nosso consolo.
A sobinfluencia é a confluência de tudo que estamos conversando aqui. Existiria de qualquer forma, acho que dificilmente haveria um caminho que não convergisse arte, política e literatura na minha vida e na vida dos que constroem a sobinfluencia comigo.
Quando houve a publicação do Zonzo, foi simplesmente um olhar praquilo que parecia interessante e merecia uma forma que permitisse explorar o papel, o design, o texto… depois, quando nos juntamos os quatro para publicar o Por uma arte revolucionária independente, o sentimento foi o mesmo, foi o desejo de descobrir o que há de escondido no mundo, ontem e hoje. Tem muita coisa escondida no mundo. Muita gente escreveu, filmou, queimou e construiu coisas e não sabemos direito onde estão esses registros, ou não há nada em nossa língua, também temos amigos e amigas vivos, espertos, inteligentes, criando coisas maravilhosas… a sobinfluencia é o resultado de um sentimento que você acorda e dorme com ele, um sentimento de “isso precisa acontecer”, “as pessoas precisam ver isso também”, “isso aqui é potente demais pra não estar acessível”… não entra no cálculo a importância de se fazer isso, a utilidade de se fazer isso, imagina quando descobrirmos que o que fazemos é desimportante ou inútil? Eu não quero parar de fazer isso porque descobri que é inútil. hahaha

Quais tipos de obras são abordadas e comercializadas por vocês?
Costumamos dizer que a sobinfluencia é uma editora que transita pelas margens. De forma geral, é uma editora voltada para arte, política radical de esquerda, filosofia e literatura. Nas especificidades, há um olhar voltado pra contracultura, teoria crítica, situacionismo, surrealismo, marxismo heterodoxo e todas as demais nuances que compõem essa coisa toda. haha Até agora publicamos autores como André Breton, Guy Debord, Louise Michel, Neel Doff, Walter Benjamin, Félix Guattari, Andityas Soares e Francis Collado e muito em breve sairá a reedição do “Louise Bourgeois e modos feministas de criar”, de nossa amiga Gabriela de Laurentiis. Mas nosso trabalho extrapola o fazer livros, também oferecemos cursos e encontros que tenham a ver com a linha editorial, temos nosso podcast que é a Rádio Aurora e além disso, considero que há uma conexão com a música, o livro “Guattari/Kogawa – Rádio Livre. Autonomia. Japão” teve uma fita k7 especial com sons de bandas como Bufo Borealis, Ordinária Hit, Assopro, Diego Max, Keith, Froihov e etc…  é algo que alimenta nossa percepção para além dos textos em si.

Quais as dificuldades de se fazer impresso hoje em dia? Existe público?
O Brasil (ou o mundo) parecem travar uma guerra contra o material, o avanço tecnológico e concentração de conteúdo em um único objeto vem minando a diversidade das formas, a possibilidade do experimento, a troca real… tem sido cada vez mais difícil arcar com a opção pelo impresso, pelo tátil, pelo papel, por conta do preço e do público leitor que é cada vez menor.
Como se não bastassem as condições do custo que envolve fazer um livro e da mudança do hábito dos leitores ou não leitores, lidamos com um governo que é declaradamente inimigo da cultura, da leitura, da pesquisa, da ciência, do conhecimento, e não somos só ignorados ou esquecidos, mas editoras, livrarias, universidades, pesquisadores e professores são estrategicamente sabotados, perseguidos e sufocados.
Mesmo com todas essas questões, acho que estamos lidando bem com a crise que nos abate, a sobinfluencia começou como editora em março de 2020, tudo é muito recente e estamos a todo vapor, estamos conseguindo nosso público, formar nossos pares, amigos, parceiros, camaradas, formar uma rede que é essencial para nossa sobrevivência.
É difícil, mas é possível, e o único caminho para manutenção da vida nesse campo é a partir da criação de comunidades, das trocas e do apoio mútuo.

Ler e caminhar já te levaram pra cadeia?
Ainda não, hahaha mas a frase “ler e caminhar podem salvar a sua vida ou te levar para a cadeia” tem uma história que eu gosto. Eu sonhei com essa frase. Sonhei que um dia eu abria o Instagram e a primeira foto que aparecia no feed era a de um amigo raspando a minha cabeça e a legenda era essa, lembro que já acordei pensando que deveria usá-la em algum lugar. A sobinfluencia nem tinha a forma de editora ainda, mas assim que tivemos a oportunidade de usar essa frase em algum lugar, usamos.
Esse paradoxo do salvar e condenar ao mesmo tempo é um negócio interessante também, já que o jogo que jogamos nesse mundo foi feito para perder. Talvez escolher fazer aquilo que possibilite criar vida e não só produto, seja algo que possa te levar para a cadeia mesmo, ou viver com pouca grana, sei lá…

Seus trampos são bastante ligados com política. Existe vida sem política, logo, viver é um ato político?
Vida sem política não existe, mas não sei se viver em si é um ato político. Tem aquela máxima, “tudo é político”, tudo bem, mas acho importante entender que “nem tudo é política”, se pensar na política como um exercício. Eu mesmo me questiono o tempo todo o quanto fazer livros ou um podcast que especula as relações entre música e política é efetivamente “político”… até porque a intenção não é “fazer algo político”, mas é de fazer algo que eu gosto, e nisso entra política, história, etc… etc…

Impresso, áudio… Qual a próxima plataforma de conteúdo? Quais seus planos futuros?
O meu desejo mais urgente é o de usar a plataforma da rua, do encontro, da vida real, não mediada pela tela e pelas conversas via meet. Tenho pensado em fazer algumas coisas que partem do conceito que o Balanço e Fúria propõe em espaços onde o encontro possa acontecer. Penso em uma coisa chamada “Escuta pública”, que seria basicamente uma espécie de podcast ao vivo, num lugar público, com os convidados que já participaram do podcast, mas com a interação de quem nos escuta, penso também em algo que poderia ser uma espécie de festa, mas que não dispensa a conversa sobre um tema, uma discotecagem temática, a “Discotecagem comentada”, não sei se são ideias que podem parecer chatas, mas na minha cabeça parecem legais. hahaha
Esses dias eu assisti o “The Black Panthers” da Agnes Varda e o documentário começa com a seguinte frase: “isso aqui não é um picnic… é uma reunião política”, e eu achei isso maravilhoso, “isso não é um pic nic” me levou direto pro Fugazi com a camiseta bootleg do “this is not a Fugazi t-shirt”, me levou pro Minutemen também, com a música “This aint no picnic”… e apesar da cena retratada no documentário ser realmente a de uma reunião política, os Black Panthers faziam um trabalho maravilhoso de café da manhã gratuíto para a molecada de Oakland e qualquer outra cidade que tivesse uma sede do partido, antes de irem pra escola. Essa coisa de misturar música, distribuição gratuita de comida e política não é nada novo, muitos de nós somos cria da Verdurada… acho que “isso não é um pic nic” instrumentaliza uma ideia que pode amadurecer e ter uma relação com o Balanço e Fúria, são coisas a se pensar.
Além disso, acho que o Balanço e Fúria renderia um livro, mas esse vai demorar.