Skate (relevante) é trabalho duro

Publicado em 22/06/2021

Skate (relevante) é trabalho duro

 

Como fazer um trabalho que seja relevante em épocas de redes sociais? Como se manter em evidência com algo no skate numa época onde tudo é volátil e passageiro? Como fazer as pessoas voltarem para aquele conteúdo e consumirem mais de uma vez?

Todas essas perguntas acima podem ter mais de uma resposta. Na modernidade líquida atual, são vários os caminhos e muitos deles podem ter diversas variáveis. Acho que o mais fácil é pensar que é “difícil” ou que “tem que pagar”.

De fato, as duas afirmações acima não estão erradas. As métricas das redes sociais nos mantém refém de números e, por muitas vezes, acreditamos que eles são a medida que decidem se nosso conteúdo é ou não relevante.

Relevância essa que tem sido uma palavra bastante utilizada e comumente associada à qualidade, o que, na nossa opinião, não condiz. Mas marcas e mídias (e por dizer mídia a gente não se exclui dessa responsabilidade, mesmo tentando criar diferente) preferem percorrer caminhos mais “de sucesso” pensando em alcance ou no quanto aquele conteúdo pode chegar mais longe.

Mas pensando no skate, não estaríamos “gastando” nossos conteúdos nessa ansiedade de querer falar com todo mundo agorinha mesmo?

Aqui não estamos falando dos skatistas que usam as plataformas para postarem suas melhores manobras. Seria injusto, já que o skatista é a fronteira final, ainda mais no Brasil de raras oportunidades. Para o skatista, postar sua melhor manobra é, talvez, um jeito de ser notado, já que são poucos os que têm oportunidade de fazer um trabalho a longo prazo ou com alguma marca/crew/projeto por aqui.

Dá pra julgar aquele moleque que não tem oportunidade nenhuma e solta uma bomba digna de final de parte no seu instagram? Não dá. Mas o foco não é esse skatista que, dentre muitos, vai ter seus 15 minutos de fama e, se a sorte for muito sua amiga, vai ter algo além disso. 

Então por que os vídeos que gostamos são tão relevantes? Por que as ideias que curtimos permanecem frescas na nossa cabeça até hoje?

Sempre que penso nessas perguntas, me vêm à cabeça o vídeo Spirit Quest, do Colin Read, de 2016. Para muitos, amantes do skate de rua e, principalmente, amantes de novas ideias no skate, esse é um dos melhores vídeos já feitos. 

Spirit Quest mistura skate bem andado (importante isso, guarde bem) com ideias de fora do skate, como a busca de referências no mundo animal, e/ou diferentes técnicas de edição e filmagem. É um vídeo inspirador, diferente e, mais importante de tudo, muito bem trabalhado. 

Levou tempo, levou botar a cabeça pra funcionar, levou trampo. Levou TEMPO.

Esse vídeo levou três anos para ser feito e, consequentemente, levou embora as costas do videomaker Colin Read. Nessa entrevista para a Transworld, o diretor conta que talvez fosse seu último vídeo, já que essa parte física não aguentava mais. E tem outro detalhe: Colin trabalhava para uma agência de publicidade na época. Não estava SÓ filmando skate e mais nada. 

Tem também outros fatores que possam entrar nessa conta de que realmente teve um puta trampo:

_3 anos de projeto

_mais ou menos 8 câmeras Vx1000 e lentes usadas nas filmagens.

_sem nenhum apoio de nenhuma marca

_resultado: vídeo de 80 minutos, com mais de 15 skatistas

Sempre penso no Spirit Quest porque, além de ser um marco na parte audiovisual do skate moderno, é referência para muitos skatistas e idealizadores do skate do quanto o skate pode ser poético ou tratado de outras formas não só manobrísticas. 

Esse exemplo é em vídeo, mas vale também para artigos como esse, para documentários, para registros fotográficos e afins. Tudo o que você curte e que expandiu a barreira dos 15 minutos de fama no instagram, pode ter certeza que levou tempo e trabalho sério. 

Mas o que mais pega pra mim é que muitas vezes essas ideias vão SÓ para o lado poético e se esquecem desse ponto correlativo, que na minha opinião é o mais importante, que são as manobras. Relacionado a isso, o tempo que se tem para acertá-las e o trabalho que dá tudo isso. 

Não se engane: tudo que você curte que é super legal, tem manobra FODA por trás e levou TEMPO pra fazer. O Gonz não seria o Gonz sem manobras. O Mindfield não seria nada sem o tempo que levou pra ser feito. A Leticia Bufoni não seria quem é hoje se não andasse o quanto anda. 

São raríssimas as exceções no skate de pessoas que têm relativa importância como skatistas (excluindo, claro, quem trampa “por trás dos bastidores”) que não sabem manobrar bem pra caramba. Não estou nem falando de saber uma trick ou outra. Estou falando de MANOBRAR DE VERDADE.

O skate tem esse fardo, que é um ótimo gatekeeper, que é que você só vai ser relevante se marretar. Isso influencia até mesmo na hora de trampar com skate: quanto mais você manobra, maior vai ser sua “moral” no mercado. Mas isso é papo pra outro artigo.

Voltando à ideia central de que fazer coisas relevantes no skate merece trabalho duro (e por isso o título), não estaríamos nós, hoje em dia, querendo fazer Spirit Quests em uma semana? Não estaríamos nós, hoje em dia, apostando no conceito e nos esquecendo da manobra?

Precisa mesmo soltar o vídeo da sua crew hoje? Por que não esperar mais alguns meses, continuar filmando, ter manobras melhores e fazer algo que seja mais relevante, misturando a arte com a performance? 

Os conceitos são importantes, sim, afinal, o que seriam das marcas sem eles? Mas sem as manobras, sem o trabalho e sem o tempo dedicado a isso, nada teria longevidade. O trabalho duro não precisa, necessariamente, tirar o aspecto divertido do skate e nem diminuir a importância daquela ideia por trás.

Vale a pena? Tem que valer a pena pra você.

Qual é a sua pressa? Por que você precisa fazer isso agora? São respostas que só você vai saber dar.

Você dorme tranquilo com a cabeça no travesseiro pensando que, se fizesse com mais calma, seu trampo ia ficar melhor e, talvez, ter mais relevância a longo prazo? Ou ainda: você consegue superar as expectativas quando algo que você produz não tem o alcance que você imaginou?

Todas essas perguntas e reflexões deste artigo são o ponto de partida para uma discussão que se vê presente, intrinsecamente, nos projetos de skate atuais. E detalhe: tudo isso atrelado ao fato de que, na nossa cabeça, precisa atingir certa quantidade de números para que consideremos um sucesso. Criamos grandes expectativas, isso é natural. 

Talvez seja frustrante essa missão de se fazer algo de grande trabalho, uma vez que, em terras brasilis, corremos sozinhos em grande parte do caminho. Mas, por experiência própria, é gratificante a recompensa, ao final do projeto, de se fazer algo trabalhoso e relevante para o skate. 

Talvez esse, o tempo, seja o fator importante para discutirmos a seguir, nas nossas práticas de registro e compilações skatísticas, uma vez que vivemos na antítese da espera, no ápice da era da urgência. Relevância leva tempo. Trabalho duro também. 

Você tem tempo pra tudo isso?

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Texto por: Filipe Maia
Foto da capa: Caetano Oliveira