Sobrevivendo do skate: um papo com Débora Badel

Publicado em 26/02/2022

Por Thuanny Judes


Quando entrei em contato com a Débora, com o convite para esse papo, ela demorou um pouco para me retornar. Ela estava competindo no STU, com nomes como Rayssa Leal. Mesmo veterana e profissional no skate, ela corre campeonatos open ainda por falta de incentivo e de skatistas mulheres profissionais para compor eventos femininos profissionais. 

Depois do STU, conseguimos marcar nossa conversa. Aberta, simpática e super humilde em suas opiniões, a primeira skatista negra a se profissionalizar no Brasil revelou o quanto é difícil viver do skate. Segundo ela, apenas sobrevive.

 

Débora Oliveira Badel sabe bem de onde veio. Nascida na periferia de São Paulo, em Jabaquara, a skatista com mais de 15 anos de estrada foi a primeira mulher negra a se profissionalizar no skate no Brasil, em 2019. Essa conquista tão recente revela o quão atrasadas as coisas ainda estão – para o skate e para as mulheres.

Aos 15 anos, Débora não fazia ideia do que estava para acontecer na sua vida. Sua história começa junto com a pista de skate da Imigrantes que, assim que inaugurada, já virou local de diversão para ela e mais três amigas.

Você começou a andar de skate com 15 anos, assim que a pista de skate da Imigrantes foi inaugurada, certo? Conta um pouco mais sobre essa época, sobre o que fez com que você tivesse a curiosidade de conhecer o skate.
“Quando eu comecei a andar de skate, eu não sabia que isso tudo ia acontecer na minha vida, que eu ia virar uma skatista profissional. Eu comecei a andar de skate por pura diversão, com mais três amigas: Daiana, Jéssica e Carol. A gente começou a andar, fazer aulinhas gratuitas na pista. Na época, eu tinha 96kg e eu só usava roupa de surf, bem larga assim. Morria de vergonha de mim, era zoada na escola, né? Eu era bem tímida, e a gente começou a fazer aulinha e eu comecei a me identificar muito. Tanto que eu fazia aula de manhã, e aí tinha a aulinha da tarde, e eu ficava o dia inteiro na pista para poder fazer aula da tarde. E aquilo me salvou, foi o que salvou a minha infância e adolescência! 

O professor via que eu queria andar de skate, que eu gostava daquilo, aí ele me dava o ticket do lanche e eu pegava o lanche da tarde, um bolinho, um suquinho, e passava o dia todo andando de skate. Foi o que me livrou de estar ali no convívio de onde eu nasci, que foi na favela. Querendo ou não, eu tive muitas oportunidades de ter outros caminhos diferentes, de entrar no tráfico, sabe. Eu vi vários amigos meus morrerem, até hoje vejo meus amigos morrerem. É muito triste. Então, graças a Deus, o skate me salvou!”

O preconceito dos familiares e as diferenças de um ambiente predominantemente masculino não deixaram que as amigas da Débora pudessem trilhar o mesmo caminho:

“As minhas três amigas pararam por causa de preconceito, os pais não deixavam, falavam ‘para de andar com isso, não é legal, vai arranjar uma coisa pra fazer’. E a Jessica, que era a que andava mais de nós quatro, dava várias manobras, deixou de andar por causa de uma cena bem chata que aconteceu na pista. Ela ficou ‘naqueles dias’ e tava com uma bermuda branca, e aí acabou sujando a bermuda, e foi um amigo nosso que avisou pra ela e tal, e meu aquilo foi horrível. Ela amarrou a blusa na cintura e foi embora. Nunca mais ela teve coragem de botar na pista que ela ficou muito envergonhada.”

Ao passo que as amigas foram desistindo, ela começou a correr campeonato, conhecer pessoas e tudo que o universo do skate proporciona. A empolgação a levava para a pista logo ao acordar e, com a prática diária, foi perdendo peso sem nem perceber. Os campeonatos começaram a tomar conta dos finais de semana e as vitórias mostravam que esse era o caminho certo.

“Eu comecei a ganhar e aquilo me motivou mais ainda. Eu achava o máximo me desafiar a cada dia. Poder ir e ter aquela sensação ali acertando as manobras. Eu nunca corri campeonato pra poder ser melhor do que alguém ou pra poder ganhar, sabe? Eu sempre corri campeonato porque eu gosto da vibe! É muito legal poder encontrar todos os amigos. E a sua parte, o seu minuto, a sua vez… acho isso muito importante, diz muito sobre você, né? O quanto você consegue controlar a sua mente, o seu skate. Então campeonato é muito mais além do que correr.”

Os pais, orgulhosos, ainda guardam todos os troféus e medalhas conquistados ao longo da carreira, mas nem sempre foi assim.

“Hoje, minha mãe adora. Antes ela não gostava muito, mas hoje ela é minha fã! Eu posto e já espero comentário dela. Hoje ela acompanha, minha família me apoia. Mas skate feminino no Brasil infelizmente é bem difícil. Na época eu sofri bastante preconceito. Minha mãe não gostava que eu andasse, nem meu pai. Meu pai falava: cê tem certeza que é isso que cê quer? Meu pai nunca criticou muito, mas minha mãe criticou bastante. Há 15 anos era muito preconceito. Eu saía com o skate e eram vários comentários que os homens não escutam por estarem com o skate na mão. Ninguém fica causando com eles. Então, pra poder me desviar disso, eu usava roupas largas. Eu queria passar batido.”

Com que idade você começou a competir?
“Comecei com 16, 17 anos. Na época eu ia pro Sampa Skate, que era um circuito que tinha na cidade de São Paulo. Tinha umas 10, 12 etapas no ano, era quase uma por mês, então eu ia em todas né? Aí eu fui campeã do circuito, ganhei ranking, era bem legal. Na época, não tinha premiação, então a gente ia pra campeonato só pela vibe mesmo, porque a gente gostava. Não era como hoje que tem premiação de 60 mil reais pro 1º lugar. A gente ganhava aquelas bermudas de surf, tênis 44 e fé em Deus. Se não serviu, problema é seu. Tinha que dar graças a Deus que ganhava alguma coisa.

Acho que a essência do skate é na rua, você sair remando, pular calçada.

Campeonato feminino da Converse (2006) – Acervo pessoal

Quando comecei a correr, tive um apoio que começou a me levar pra outros estados, e fui até pra Argentina. Gostei de competir. Achei massa! Eu gosto muito de andar na rua, sabe. Acho que a essência do skate é na rua, você sair remando, pular calçada. Eu acho que a essência é na rua. Porém, eu não me deixo vincular a uma coisa só. Comigo não tem essa. Eu ando de skate, é só isso. Eu ando no street, ando no bowl, se for pra ir pra campeonato, corro campeonato. Vou dar sempre o melhor de mim, onde eu estiver. Eu acho que isso é o mais importante. É sempre você e você, independente do que você estiver fazendo. Ser melhor do que ontem.”

Apesar do skate estar em alta, o mercado core hoje em dia parece ser mais fechado e ter menos recursos do que há alguns anos. Como é para você tentar viver do skate?
“Na real, eu não vivo do skate, eu sobrevivo, né? Eu ando de skate há 15 anos e, hoje, como skatista profissional, eu tenho que me virar de vários jeitos pra poder pagar meu aluguel. Eu dou aula de skate, eu me viro em propaganda. Eu tenho recebido muitas propostas de publicidade, de revistas de moda feminina, né? Só que assim, é muito oba oba, né? Galera acha que porque o skate tá em ascensão, ‘ah vamo ali’. A galera nem quer saber de todo o corre que foi feito pra me profissionalizar, de todo o preconceito que eu venho sofrendo todos esses anos pra poder continuar nessa resiliência andando de skate, né? E aí acho que essa é a hora de a gente colocar os pingos nos ‘is’ pra poder conseguir viver do skate.

Então, é uma luta, cara! É uma luta mesmo! Eu abro mão de propostas porque pra mim, às vezes, não diz respeito. Às vezes não é uma proposta contextualizada pra minha história, pro que eu tenho a dizer. Às vezes a pessoa quer fazer uma foto de moda e tal, mas beleza, e aí? Eu não vou vender o meu skate dessa maneira, sabe? Mas eu preciso pagar minhas contas, então, eu tô procurando levar o skate pra lugares que ele nunca foi.

Foto: Tauana Sofia

Quem vê no Instagram não vê corre, né? A gente só posta o que a gente quer que as pessoas vejam. Eu não posto os dias que eu tô sem um real na conta pra poder comer, não posto quando meu aluguel tá atrasado, não posto os dias exaustivos de aula, de skate no sol, porque eu sei que tenho que fazer aquilo pra poder sobreviver do que eu amo, que é a minha profissão.

Não vou abrir mão disso pra poder trabalhar de qualquer outra coisa, não desmerecendo porque já trabalhei muito de telemarketing, de garçonete, já tive minha própria cozinha. Só que hoje eu procuro trabalhar no meio do skate e aproveitar essa exposição que o skate tá tomando agora pra poder levar ele pra outros lugares. Pra levar ele pra marcas que às vezes não são de skate, mas que têm uma estrutura boa pra fazer uma equipe, pra poder patrocinar atletas negras como eu, pagar um salário. Porque é muito escasso, cara! Você para nos campeonatos e você não vê gente negra. É bem difícil. Agora que a galera tá percebendo isso e tão convidando um ou outro, mas é muito seletivo ainda. Se você não tem um perfil que atrai naquele evento, naquela parada, você não é convidado.

Durante muitos anos, eu tentei não enxergar que isso era porque eu sou negra, porque não tinha o corpo padrão. Hoje eu enxergo. Dentro de casa, eu sempre convivi com igualdade, só que a partir do momento que eu fui crescendo e vendo todos os preconceitos que eu sofria por ser negra, eu comecei a ver que o negócio não era bem por aí. Então, hoje eu não vivo do skate, eu sobrevivo. Eu faço mil e uma coisas pra conseguir viver do que eu amo, que é minha profissão, pra poder continuar abrindo portas pra que as próximas gerações de mulheres negras não sofram como eu. Pra que, se eu tiver uma filha negra e ela andar de skate, que ela tenha oportunidades que eu não tive.

B/S crooked na Copa Court (2017) – Foto: Flavio Samelo

Eu sou a primeira mulher negra a se profissionalizar no Brasil! Isso foi em 2019, e essa semana mesmo eu tava sem tênis pra andar. Ainda bem que uma amiga de São Paulo me mandou tênis. E antes disso, mandei mensagem pra várias marcas de tênis, pra alguns profissionais pedindo: ‘pô, tem um tênis aí, consegue falar com teu apoio, com a tua marca?’. Alguns fingiram que não viram, outros falam: ‘ah, eu calço 42, 43, não é teu número’. Aí você vai ver, o cara tem acesso a tudo e não consegue te mandar um tênis. Depois você vê outras coisas acontecendo e pensa: ‘pra mim ele não conseguiu mandar, mas pra outras pessoas ele mandou seis!’. É bem dolorido, sabe? É uma luta o tempo todo. Mas acredito que tô quebrando barreiras, trabalhando minha mente pra deixar ela forte. A galera não quer ver a gente do mesmo jeito, isso é uma parada estrutural.”

Você é a primeira mulher negra a se profissionalizar no skate no Brasil. Como você entende essa conquista? Você consegue mensurar o quanto isso é representativo?
“A gente precisa de representatividade, isso é uma coisa muito importante. Hoje o que eu recebo de mensagens de meninas perguntando como faz pra se profissionalizar, meninas negras… é imensa! E na minha época, não tinha essas inspirações. Eram poucas. Eram Sara Trindade, Euli Vieira, e elas não vivem do skate, nunca viveram! Sofreram muito. Pararam de andar, voltaram, porque sempre amaram o skate. Mas não viveram do skate.

Então, eu vi que esse papel era muito importante, que eu precisava levantar essa bandeira de todos os jeitos. Mas desde 2019 até hoje, não se profissionalizaram mais mulheres negras, porque nenhuma marca de skate quer pagar um salário pra uma mulher negra andar de skate. Não só pra mulher negra, mas muito pro skate feminino. Só que no geral, se tem que pagar, uma marca vai escolher uma mulher branca, padrão. Não profissionalizam uma mulher negra. Muito porque não tem espaço, então são poucas que aparecem de verdade. Você tem que cavar de volta e sair pra poder conseguir viver.

Eu faço parte da Confederação Brasileira de Skate, do comitê de street. Esse ano a gente teve o acompanhamento de alguns amadores que querem passar pro profissional, e só teve um pedido de uma menina. Porque aqui no Brasil as meninas não querem ser profissionais. Compensa muito mais continuar amadora. As profissionais não têm espaço, não têm evento, não têm patrocínio pra continuar desenvolvendo o trabalho delas. Enfim, não tem estrutura nenhuma. É muito difícil. 

Pra mim, hoje, o papel que eu tenho é muito importante. Por isso às vezes eu tomo algumas decisões meio radicais, tipo não dar entrevista pra uma revista com 4 milhões de seguidores. Tem coisas assim que… por exemplo, a CemporcentoSKATE, a VISTA, a Tribo Skate são mídias de skate. Essas sim fizeram acontecer, tão construindo a nossa história. A gente tem toda essa história arquivada graças a essas mídias, um corre que nunca parou. Graças a elas, a gente consegue comprovar toda a nossa história em cima do skate. Essas mídias têm que ser valorizadas, têm que ter espaço pra poder também ganhar dinheiro, como outras marcas que não são do skate ganham.

Pro Model pela Monkskate (2019) – Acervo pessoal

Pra me profissionalizar foi muito difícil. Na época não me profissionalizei porque eu não tinha nenhum patrocínio que pudesse me passar pra profissional, que é uma das exigências. E aí, em 2019, eu tinha todos os pré-requisitos, mas não tinha o patrocínio. Aí a MELANCIA me patrocinou, e eu pude passar. A gente não tá mais juntos, mas eu tenho uma gratidão enorme pela marca, a Karmel [Liedmann] faz tudo pra poder acontecer. É só por causa disso. Se não fosse pela Karmel e pela Melancia, eu não teria me profissionalizado. Tenho certeza que se eu tivesse tido oportunidades reais, que nem você vê a molecadinha tendo hoje em dia, eu teria levado o nome do skate feminino pra muito longe. Mas hoje, eu só tô feliz por não ter desistido.”

Por cerca de um ano, a Débora parou de andar de skate. Vendo os amigos evoluindo com patrocínio enquanto ela recebia diversos “nãos”, a vontade de desistir acabou falando mais alto. Agora recebe o apoio do Corinthians, da La Bella Mafia, da Ativa Play Fitness Floripa, do Sushi Segredo dos Mares e da Pilates Racer. Essas marcas não têm a ver com skate (embora o Corinthians tenha inaugurado sua primeira pista), mas abriram as portas para que a skatista pudesse continuar seu trabalho. A Monkskate e a Anarquia, mas com skate no DNA, também apoiam o trabalho da Débora junto com outros parceiros, como Odontologia Iamamoto e seu fisioterapeuta, Breno

“Conseguir viver do esporte, ser artista no Brasil, é complicado. Ainda mais no skate. Eu mesma, como skatista profissional, tá sobrevivendo do meu esporte já é um feito porque eu sou a única skatista profissional negra no Brasil! Tô aí levantando essa bandeira. E tem várias manas que se inspiram em mim, mesmo vendo que não é fácil.”

Você falou agora sobre viver de esporte e de arte no Brasil. Você enxerga o skate como esporte ou como algo artístico?
“Skate, pra mim, é estilo de vida, na real. Desde que eu comecei a andar de skate, eu saía de skate de manhã, voltava de skate a noite. Aí eu ia dormir, sonhava com as manobras que eu tinha mandado. Eu acordava, colocava vídeo de skate. E aí eu comecei a ver que eu tava respirando a parada, e até hoje é assim.

Não é porque a gente é skatista que a gente é vagabundo. Só pra dar um flip é uma luta! Vai lá dar um flip pra você ver como é uma luta! Tem que respeitar. A gente é louco!

Eu vivencio a parada. A experiência que eu tenho com o skate é uma coisa profissional. Apesar de o skate ser hobby pra muitos, pra mim virou profissão. Eu acho super válido a galera que quer andar de skate sem ser remunerado. Isso é resistência, sabe? Só que pra mim, como profissional, tem que pagar meu aluguel. Eu tenho que me adaptar de uma maneira que eu não me venda, mas que eu consiga viver da parada. Então, skate é meu estilo de vida. É minha respiração. É o que eu faço. E eu sou muito grata por isso!

Museu do Ipiranga (2012) – Foto: Atilla Kerman

Durante um tempo, há três anos, eu tinha aberto uma cozinha, tava trabalhando de cozinheira, tava sendo o maior corre, tava vivendo bem, mas eu não tava feliz. Eu não tava fazendo o que eu amo. Então, hoje estar conseguindo andar de skate, estar em cima do skate todo dia, é tudo que eu sonhei. Eu só espero que as coisas realmente melhorem pra minha filha conseguir andar livremente, sem se preocupar com roupa ou sentir vergonha. Pra gente parar de sofrer como skatista. Não é porque a gente é skatista que a gente é vagabundo. Só pra dar um flip é uma luta! Vai lá dar um flip pra você ver como é uma luta! Tem que respeitar. A gente é louco!”

O que você acha que falta para que as próximas gerações de meninas negras da periferia conheçam o skate e construam uma história como a sua?
“Eu acredito que faltam mais projetos sociais na favela. Eu moro aqui na Costeira, em Florianópolis. Eu moro na comunidade. E, cara, eu fico na pista o dia inteiro. O que desce de criançada de chinelo, o que desce de mulherada que quer andar, que quer aprender, mas fica com vergonha, cai uma vez e para. Então acho que faltam mais movimentos femininos, mais projetos sociais, resgatar a criançada porque, pô, skate salva! Eu mesma tô com várias aluninhas, e é uma satisfação ver elas subindo no skate, nem conseguindo remar, e depois já conseguindo dropar e fazer altas coisas. Falta isso e oportunidades. A gente já tem um mercado de skatistas negras aqui no Brasil, porém são três ou quatro que tão em ascensão, que a galera dá uma estrutura legal, devida, merecida, e o restante tá ali, escondido.

O negro é visto de uma maneira ruim o tempo todo. É como se a gente não gerasse trabalho, é como se a gente não gerasse inteligência, a gente é visto de uma maneira triste pro amor. O corpo negro não é visto como um corpo de amor. Faltam oportunidades pra que as pessoas olhem e falem: ‘pô, olha essa negona, que naipe, ela dá umas manobras! Vamos dar uma estrutura pra ela!”‘ Pra eu conseguir tirar foto em revista, pra eu conseguir fazer vídeo parte, foi uma correria! Eu pedia pra um amigo, o amigo filmava na boa vontade. Às vezes eu via um grupo de caras filmando, eu falava: ‘ô fulano, filma uma manobra minha aí!’. Aí fulano falava ‘beleza’, e ia embora! Cadê que filmava? Filmava nada! Eles se ajudam entre si. É uma panela que se forma. E pras mulheres, essa panela não é aberta. Então, a gente só se identifica quando a gente encontra outra mulher na pista. As oportunidades não são dadas.”

Hoje, aos 31 anos, em Florianópolis, Débora vive sua melhor fase. Mesmo não estando em São Paulo, pano de fundo forte e clássico para a cena do skate, consegue manter uma rotina de saúde, com melhor estrutura de cuidados e acompanhamento, além de parcerias que possibilitam fazer o que mais ama. 

Às vezes eu via um grupo de caras filmando, eu falava: ‘ô fulano, filma uma manobra minha aí!’. Aí fulano falava ‘beleza’, e ia embora! Cadê que filmava? Filmava nada! Eles se ajudam entre si. É uma panela que se forma. E pras mulheres, essa panela não é aberta. Então, a gente só se identifica quando a gente encontra outra mulher na pista.”

São poucas entrevistas e conteúdos que contam a sua história, de forma mais complexa e aprofundada. Isso acontece porque você é mais reservada ou você acha que as mídias de skate ainda não dão o espaço que as mulheres merecem, principalmente as minas pretas?
“É tudo isso que você disse! As mídias de skate tão aprendendo agora a dar oportunidade pras mulheres, a entender o valor que a gente tem dentro do skate. Querendo ou não, o skate sempre foi um esporte machista, e a gente sempre sofreu muito preconceito. Agora que as revistas tão abrindo esse espaço. 

Essa semana até encontrei um fotógrafo bem conceituado, e a gente tava conversando sobre isso. E ele me pediu desculpa por não ter me chamado pra fazer foto, por ele ter feito vários projetos e não ter contado com o feminino. E aí eu falei pra ele que o importante é ele ver isso e tá tentando mudar a partir de agora. Ficar chorando em cima do erro não dá. O importante é o que a gente vai fazer daqui pra frente. 

Eu até pensei esses tempos em escrever um livro. Tem muita coisa que eu resolvi esquecer porque doeu muito. Então, hoje eu vejo que quando eu dou entrevista, eu não aprofundo na minha história real, sobre o que eu presenciei dentro da favela, sobre todos os perrengues que eu já passei, sobre como é tá aí ainda tentando fazer a diferença. Enfim, essas oportunidades eu acredito que serão dadas a partir de agora. Espero que tenha mais mulheres negras em tudo, não só meia dúzia. 

“Trabalho voluntário que o Sandro Testa fazia em Febems femininas. Íamos toda semana ensinar a andar de skate” – Acervo pessoal

Eu acho que a minha história nunca é contada de uma maneira real porque não convém. Querendo ou não, ninguém às vezes quer ficar sabendo de uma mina preta que saiu da favela e que tá passando perrengue, sabe? Pessoal quer saber da galera que tá bombando, com carrão, com like no Instagram, que tá vivendo bem, postando foto de comida bonita. Galera quer saber disso! Galera não quer saber de uma pobre louca tentando viver do skate! Por isso eu acho que não sou tão pautada, só quando convém pra algumas pessoas.”

Em outra entrevista, você disse que o skate realmente te salvou. Você afirma isso em quais sentidos? Como o skate salvou a Débora Oliveira Badel?
“Olha é bem difícil a gente falar o que seria de mim se não conhecesse skate. Mas eu tive bastante oportunidade de convite pra traficar, sabe? Cheguei até a ficar um tempão com a galera sempre ali, mas eu nunca aceitei porque a minha mãe sempre me ensinou a ter o que é meu, a nunca tirar o dos outros, a correr pelo certo. O skate me salvou dessa maneira, cara. Às vezes eu imagino o que seria de mim se eu tivesse aceitado aquelas propostas, né? Eu conheci o Brasil inteiro! Graças aos campeonatos que eu corri, eu saí do país. Eu não sei se eu teria todas essas oportunidades se eu não tivesse andando de skate. 

STU (2021) – Foto: NAS

Quando eu vou para São Paulo, eu vejo os meus vizinhos e meus amigos de infância do mesmo jeito, como se eles não tivessem saído dali. Então, eu vejo que a estrutura que eu tenho hoje pra gente poder tá trocando essa ideia, quando eu vou conversar com alguns amigos meus, eles não têm. São pessoas humildes, são pessoas batalhadoras, mas que não tiveram as oportunidades que eu tive graças ao skate. Eu sou quem eu sou graças ao skate. Eu não sei se eu teria capacidade de conversar com você hoje dessa maneira se eu não tivesse todo entendimento que o skate me deu. Se eu não tivesse tido todo o sofrimento. 

Pra alguns é mais fácil. Já começam no skate com vários patrocínios, coach, assessor, empresário. Nunca tive nada disso, eu nem preciso disso. Acho muito válido pra essa criançada toda que tá aí. Skate é o futuro, né, meu? A gente vai ver as próximas gerações andarem muito mais do que a gente tá vendo hoje. Então, é muito válido a gente investir tudo que for possível, mas não foi a minha realidade. 

Quando eu volto lá pra quebrada eu vejo a galera do mesmo jeito e me bate a tristeza de saber que não são todos que vencem, não são todos vão conseguir. A cultura do nosso Brasil é assim. Não dar oportunidade pro preto porque o preto é feio, ladrão. É bem triste.”

Skate é o futuro, né, meu?

Apesar de todas as dificuldades, Débora Badel e outras skatistas negras representam uma resistência, não só no skate. Em um país que desvaloriza tanto as mulheres, ela criou seu próprio espaço e abraçou as poucas oportunidades que lhe foram dadas para fazer com que a roda gire para outras mulheres e meninas que amam o skate e gostariam de viver dele, não apenas sobreviver.