Tênis confortáveis no moshpit

Publicado em 07/03/2022

Por Filipe Maia

Não há nada mais ousado dentro de uma subcultura do que se opor aos seus princípios básicos, não é mesmo?

Frequentando a cena do hardcore, você se depara com uma molecada que tem um estilo de se vestir diferente dos demais gêneros familiares ao deles: eles não usam coletes e moicanos dos punks, nem se vestem todos de preto com cabelos compridos iguais aos metaleiros. O público do hardcore, em sua grande maioria, usa camisetas de marcas de skate, shorts de corrida e tênis caros e confortáveis. 

Em um festival que fui (antes, quando tinha festival sem pandemia, e a gente era feliz e não sabia), diferentes das botas de couro ou dos Chuck Taylor All Star, os Nike Air Max eram unânimes tanto nos pés dos caras das bandas quanto na plateia que assistia aos shows.

No Brasil não é barato ter um tênis desses. Os mais confortáveis das marcas como Nike e Adidas custam, no mínimo R$ 300, enquanto qualquer All Star custa seus R$ 120,00. Então por que raios essas minas e esses moleques fodidos de grana (geralmente são designers, tatuadores ou trabalham com vídeo de alguma forma) têm no pé algo que lhes custa metade do seu salário? A pergunta pode ter diversas respostas, mas o negócio é olhar historicamente o fato, já que não é um caso isolado, mas sim um aspecto importante do visual do grupo em questão.

Hora da História
O Hardcore que essa galera curte surgiu no começo dos anos 80 nos guetos dos Estados Unidos. Em 1982, a banda de Reno, Nevada, chamada 7 Seconds lança seu EP “Skins, Brains & Guts”, que tinha a música “I Hate Sports” (Eu odeio esportes). Era um hino de repúdio aos esportistas das universidades que tinham toda a fama de bom moço, mas curiosamente, na capa do EP, havia um rapaz com o punho levantado e os olhos sombreados com aquelas tintas antissol dos esportes americanos, comumente vistas nos jogos de futebol americano e baseball.

Tinha também o Stimulators, do mesmo ano, que na bateria trazia o Harley Flannegan com só 11 anos e que mais tarde iria formar o Cro-Mags. E ok, é impossível falar de qualquer uma dessas bandas sem falar da influência do Bad Brains, que alugou um apartamento nas ideia do Heart Attack, do Kraut e de todos os moleques e das minas que queriam ter bandas depois de ouvir qualquer música deles.

O Bad Brains e o Black Flag trouxeram contexto político para dentro das músicas de hardcore e falaram sobre coisas positivas como o PMA (positive mental attitude, atitude mental positiva). John Joseph, do Cro-Mags, no documentário “Under The Influence: New York Hardcore”, diz que os caras do Bad Brains “são os godfathers do NYHC e sua música era sempre sobre a mensagem positiva”. Ele ainda completa: “o punk só sabia reclamar das coisas, sem apresentar soluções; já o hardcore é sobre achar soluções para esses problemas”. 

Mas falando de lifestyle, o 7 Seconds junto de outras bandas como o Crippled Youth e o Youth of Today eram um respiro jovem em um punk já ultrapassado das poucas notas musicais e do excessivo uso de drogas que tomava conta da cena em diversas partes do mundo. Essa nova safra, a Youth Crew, trouxe consigo a atitude jovem, aliada à vontade de se rebelar contra tudo que estava fazendo a molecada morrer. Eles “queriam ser limpos de tudo aquilo, inclusive das roupas que mais pareciam uniformes do movimento punk”, como disse Ray Cappo, o vocalista do Youth of Today no livro American Hardcore: uma história tribal.

É legal a gente entender que o surgimento do american hardcore está ligado à moda, essa coisa mais esportiva e também a questão de agitar no som acabava facilitando o uso desse tipo de vestimenta, porque quando você dá stage dive ou no mosh de roupa mais esportiva é mais fácil.

Conversando com a Sirlene Farias, jornalista que hoje trampa com Customer Experience, faz parte do quadro Blasfêmea do Canal Scena e do coletivo Pra Perifa, ela tem uma visão bem interessante sobre o conforto nas roupas desse começo do NYHC: “É legal a gente entender que o surgimento do american hardcore está ligado à moda, essa coisa mais esportiva e também a questão de agitar no som acabava facilitando o uso desse tipo de vestimenta, porque quando você dá stage dive ou no mosh de roupa mais esportiva é mais fácil”. A Sir foi e é parte do movimento hardcore paulistano, então tem propriedade não só para falar, mas como para dar a dica de que o coturno e os spikes não facilitam o mosh. “Não consigo imaginar uma galera montada no look fazendo passinhos do hardcore ou dando stage dive.”

Essa rebeldia ia além das roupas, mas, consequentemente, se ressignificava no vestir. Muitos desses garotos eram Straight Edge (grupo de pessoas com ideais de não comer carne, não beber álcool e não usar drogas, falando bem resumidamente) e tinham consigo um lifestyle muito mais atlético. Portanto, era um pouco inconcebível usar botas Dr. Martens no calor Nova Iorquino e não fazia sentido para aqueles que faziam esportes e tinham vidas mais saudáveis. Daí vieram os shorts, calças de ginástica e os Air Jordans nos pés das bandas e do público hardcore americano.

O HC dos Estados Unidos, diferente do que vinha sendo feito na Europa, dispensava a vestimenta característica dos punks, e trazia um pouco da violência futebolística dos hooligans que se vestiam de maneira mais atlética na Inglaterra. Isso era meio dos anos 80 e anos 90, então a influência do sportswear crescente e expansivo da Nike nos Estados Unidos também se viu nesse bololô. Ou seja, Michael Jordan influenciou até mesmo no NYHC!

Nova Iorque foi fundamental nessa relação porque trouxe bandas que eram influenciadas pela cultura hip hop, grafite, veganismo, skate e vários outros aspectos da cultura de rua. A influência Bad Brains e Black Flag se misturava com quem curtia Beastie Boys, e essa mescla só se fortalecia nas vestimentas. 

O Youth of Today é talvez o grande responsável pela estética esportiva na cena hardcore, mas foram outras bandas que falaram do lifestyle de maneira expressiva. Walter Schreifels, do Gorilla Biscuits e da Youth Crew, em uma matéria bem foda do Highsnobiety, fala que “você podia sair da faculdade e ir a shows sem precisar trocar de roupa e se vestir tipo punk”. Para ele, esse era um “visual mais amigável com a escola do que o que os skinheads usavam no Reino Unido”. 

O Minor Threat, por exemplo, falou do movimento Straight Edge com propriedade e expressou toda a rebeldia de um mundo decadente em suas letras, além de trazer o visu skateboarding para dentro do hardcore. John Joseph do Cro-Mags diz que “você não precisa estar chapado para curtir um show de hardcore”. 

Mas mesmo hoje, mais de 30 anos depois dessas primeiras bandas terem mudado o lifestyle HC, os garotos continuam usando os bonés de baseball e os tênis retrô esportivos. Em um show do Fury ou do Exit Order (que são bandas recentes da cena), o número de Nike Air Max 97 e dos Fila de basquete dos anos 90 é notável.

Vale também lembrar que essas bandas e movimentos juvenis dentro do hardcore influenciaram nas modificações corporais dos grupos que seguiriam essas tendência. Tatuagens old school, alargadores e piercings eram e são comuns para todo mundo que é do hardcore de alguma forma.

O hardcore é um compromisso consigo mesmo, todas essas paradas, vegan, straight edge, colecionar tattoo, é um compromisso! Quando você junta tudo, você tem um visu de peso, todo mundo que olha vai ver que essa pessoa vive realmente a parada. É 100% atitude!

O tatuador Fernando Gonzales comenta que a relação das tatuagens com o Hardcore é bem pautada na agressividade e no compromisso que as pessoas têm com esse movimento. Se liga no que ele falou sobre as tatuagens tradicionais: 

“É um visual bastante agressivo, né? Tipo o Harley do Cro-Mags, aquelas tattoo maluca…  O Henry Rollins com várias tatuagens espalhadas pelo braço… Na minha opinião é um visual agressivo, ter vários carimbos, vários desenhos. 

Quando você vê alguém com o corpo cheio de tatuagem, você pensa que essa pessoa teve atitude! É um compromisso ir colecionando várias pequenas tattoos. O hardcore é um compromisso consigo mesmo, todas essas paradas, vegan, straight edge, colecionar tattoo, é um compromisso! Quando você junta tudo, você tem um visu de peso, todo mundo que olha vai ver que essa pessoa vive realmente a parada. É 100% atitude!”

Fernando Gonzales em ação. Foto: Renata Fukuda

 

Roupas confortáveis e visu do HC do Brasil
Nike Air Max, shorts da Dickies e bonés New Era foram e são tendência em muitos subgrupos do Hardcore. Mas tudo isso é válido e simples de ser cooptado nos Estados Unidos: os tênis da Nike são baratos e acessíveis, e as camisetas de universidades são dadas pelos campi a fora. E aqui no Brasil? Como manter um estilo dentro do gênero sem pagar caro por isso?

No Brasil, a relação das bandas com marcas de streetwear e de skate também não é de hoje. Nos anos 80, a Vision patrocinara o Ratos de Porão, e quem fez essa ponte foram os caras do Sepultura, que quando eram moleques andavam de skate, e o crossover não foi só no som. Já nos anos 90, a Mad Rats colocava seus tênis nos pés do Nitrominds e do Dead Fish, também por essa relação do carrinho ter existido ou ainda resistir na vida dos integrantes dessas bandas.

Vale também trazer o ponto do veganismo na adição de fatores aqui no Brasil, pois, que nem o Rodrigo Corrêa do podcast Balanço e Fúria, da editora sobinfluencia e da Time and Distance nos lembra, “havia o apelo do ‘uniforme’ do HC, mas também a gente evitava usar tênis de couro, o que nos fazia ir para os Vans, tênis yatch, que traziam materiais que condiziam com o processo que a gente estava fazendo com o hardcore e com nosso lifestyle”. 

O clipe de “No More”, do Youth of Today, foi um dos primeiros que trouxe a questão do veganismo para o audiovisual do hardcore e influenciou muitos moleques a aderirem ao estilo de vida sem crueldade animal. Conversando com o Zoio, que já teve bandas como Vingança Fudida, Still Lives, Days of Sunday e Time and Distance e hoje é um dos sócios da Pizza Youth, ele conta que “essa cultura vegana influenciou diversas marcas a não usarem o couro na composição dos seus produtos”. Se liga nessa fala dele: 

“Nos anos 90, os vegan straight edge usavam roupas baratas, que não eram testadas em animal, tipo tênis Rainha que não era de couro, até mesmo pela precariedade da galera que colava no rolê, mesmo. Já ouvi gente falando assim ‘vou comprar um produto e não sei se é vegan, compro o mais barato porque sei que essa empresa não tem condições financeiras de fazer testes em animais’. Acho que isso também tem a ver. 

Já nos anos 2000, tem vários tipos de vegan e no HC tem os caras mais podrão, que não faz exercício nem porra nenhuma e tem os caras mais atletas. Em determinado momento todos usavam bastante roupas com escrita de protesto, indo pro lado mais ativista, mesmo. Existe isso ainda, claro. Tinha uma galera também que usava roupas mais esportivas, tênis mais leves e mais baratos. 

Essa cultura do não uso animal influenciou marcas a fazerem tênis que não eram de couro e consequentemente esses tênis eram confortáveis e tinha aspectos mais ‘esportivos’. A Qix lançou um model do João Gordo que era um dos primeiros que falava que era vegan. A Mad Bull também lançou alguns com essa premissa, surfando nessa onda. Até hoje tem marcas lançando, tipo a Cariuma que lançou recentemente um pro model do Mike Vallely e é um tênis feito de plantas, um produto vegan.”

Essa cultura do uso mais consciente também influenciou essa galera a comprar roupas em brechós e fazer trocas entre amigos e amigas, a fim de reduzir o impacto dos seus consumos. 

Zoio com o Days of Sunday. Foto: Wander William/arquivo Zoio

Outro ponto bem interessante no Brasil é a questão do clima. Um país tropical em que a temperatura média é de 18 graus, diferente dos 12 graus Celsius dos EUA, é bem mais receptivo aos shorts do hardcore do que as jaquetas da North Face, por exemplo. Esse fato trouxe características locais à cena, deixando mais claro que as influências são diversas!

Rodrigo Lima, vocalista da banda Dead Fish, conta que além dos shorts acima do joelho e dos tênis sem meia, que causaram estranheza aos punks paulistanos nas primeiras vezes que a banda tocou na cidade, o chinelo era item essencial para ser hardcorzero em algumas partes do Brasil: 

“Se a gente pensar no HC no Espírito Santo, a gente institucionalizou o tactel no rolê, por ser um lugar quente e tropical. Quando eu me liguei nisso nas turnês, que as bermudas de água secavam mais rápido, a gente trouxe essa praticidade para a estrada. 

A gente não mora no Oregon ou em Washington DC, que quando sai do show está 0 graus. Aqui você sai do show e tem que ter uma roupa para pelo menos seguir viagem. Ninguém em tour no punk no Brasil no anos 90 levava uma mala, era uma mochila com três mudas de roupa e quem tinha um pouco mais ia com dois pares de tênis. 

Eu nunca fui muito do tênis com a sola retona no chão e, vamos pensar na cena brasileira, era Redley e Kenner, né? É estranho pensar que usávamos chinelo no palco, mas em Vila Velha era normal!”

Outro aspecto interessante aqui no Brasil foi o uso das bandanas por muitos grupos que faziam parte da cena do hardcore. A Sirlene lembra que “o auge das bandanas foi nos anos 2000 e elas mostravam que você estava pronto pro mosh, pronto pro show”. A Sir fez parte, usou bandana e comenta que “chegou a ter crew de meninas com bandanas, todas com bandanas da mesma cor e elas moshavam, as Murasaki; tinha uma lance meio warriors, ganguera, meio esporte, tudo isso interligado no hardcore”.

As crews variavam as cores e se identificavam pelas bandanas. A Sirlene é a segunda da esquerda para a direita. Foto: arquivo Sirlene.   

[…] chegou a ter crew de meninas com bandanas, todas com bandanas da mesma cor e elas moshavam, as Murasaki; tinha uma lance meio warriors, ganguera, meio esporte, tudo isso interligado no hardcore.

Os tênis caros e a influência da Nike no HC mundial
Mas mesmo tendo essa cultura além do som dentro do hardcore, com o passar dos anos, muitos produtos e modas foram sendo inseridos dentro do lifestyle e algumas premissas foram sendo revistas. Como o Zoio conta, “não é que as empresas mudaram, as pessoas mudaram e essa resistência para algumas dessas pessoas não faz mais sentido”. E ele exemplifica: “Quando comecei a colar, tinham amigos que não usavam Nike e nem tomavam coca-cola, pensando que eram empresas que exploravam mãos de obra barata, e hoje as pessoas usam”.  

Então mesmo com as letras ainda exaltando o atitude positiva mental e indo contra o sistema de várias formas, é comum ver tênis que valem um salário nos pés do público do hardcore. Uma das primeiras vezes que os Nike, que antes eram tênis relacionados aos caras de fraternidades esportivas de universidade, foram vistos em um show de hardcore foi com o guitarrista do SSD, Al Barile, em 1983 e ele mesmo afirma: “eu estava usando Nikes porque eu era um atleta e queria performar como um atleta”. 


Foto: Phil PhLash e Lisa Haun; Fonte: Highsnobiety

Depois, nos anos 90, a cultura sneaker ficou forte na cena hardcore e meio que virou o uniforme de quem participava do movimento. Como o Walter Schreifels diz, “de 86 a 91, quando um tênis novo era lançado, a gente já queria pegar”. A Nike foi forte essa época, e ele afirma que “não inventamos o uso de Nike no streetwear, mas como grupo, nos vestíamos de forma similar e os Nike eram unânimes”.

Conversando com a Viviane Tenório, que hoje trampa com vendas e é da cena do hardcore desde a adolescência, ela comenta que muita gente entra pro game dos tênis no hardcore através dos Vans, mas depois outras marcas ganham força com o tempo:

Em um primeiro momento, eu usei bastante a marca Vans, porque muitas bandas de metalcore usavam e era um som que eu ouvia na adolescência. Depois comecei a usar alguns modelos de Nike (Cortez, AM90, AM1) por influências de bandas nova-iorquinas e em meados dos anos 2000 me apaixonei pela New Balance (inclusive o 574, porque vi muito no pé de algumas bandas de Boston).  

Não vou dizer que há um uniforme pras minas do hardcore, mas assim como todo som e/ou subcultura, temos acessórios característicos. No hardcore vemos muitas minas com bandana, shorts curto, camiseta de banda e alguns modelos de Vans, que inclusive, me vesti assim por um bom tempo. Mas os tênis confortáveis eram unânimes”.

Hoje, muitas bandas e grande parte do público ainda carregam Nike Air Max pra cima e pra baixo nas cenas de hardcore do mundo todo. Mas se você olhar para a moda moderna, fica claro – a cena hardcore foi um prenúncio da moda de rua moderna e da cultura sneaker. O estilo e a estética do hardcore ainda estão sendo estudados por muitos designers e marcas que se inspiram nas imagens da época. Entre palestras de temas variados, barracas de comidas veganas e shows, os hardcore tem a árdua missão de se manter de pé quase o dia todo num dia de festival. Nada melhor que estar com os pés protegidos pra isso, né?