Dalek – VISTA 27

Publicado em 11/11/2021

Na edição 27 da VISTA, a gente foi atrás do Dalek, artista americano que mistura animação, arte pop japonesa e visual urbano, para trocar uma ideia e conhecer melhor seu trampo, que já esteve em jogos de videogames e em peças publicitárias de grandes marcas.

O ano era 2010, o texto é da Ana Ferraz e o trampo do artista é atemporal. Vale a pena reler e revisitar as obras do James Marshall, ou como mais conhecido, o Dalek.

Os macacos do espaço somos nós – uma entrevista com James Marshall “Dalek”

Dalek, ou James Marshall, seu nome real e com o qual assina sua produção artística hoje em dia, atua em várias vertentes da arte e da cultura urbana, mas sua formação como artista aconteceu bem ao acaso. Em 1988 James entrou na faculdade de sociologia e antropologia e, em 92, foi parar em uma faculdade de artes em Chicago para cursar fotografia. A partir daí, com um misto de curiosidade antropológica e busca artística, passou a fotografar graffiti, o que mais tarde o levou a grafitar também. Foi assim que aprendeu a pintar, ao mesmo tempo em que aprendia mais sobre história da arte e pintura em telas na faculdade. Nessa época, mais precisamente em 1993, adotou o apelido Dalek, mesmo nome dos robôs assassinos do seriado inglês Dr. Who. Além da fascinação pelo seriado, a escolha foi bastante em função da estética, simplesmente porque as letras D-A-L-E-K ficam bem juntas, do ponto de vista do graffiti.

Depois de certo reconhecimento nas paredes, James foi trabalhar em Nova York, como assistente do renomado artista japonês Takashi Murakami, mentor do Superflat Design, movimento que mistura arte, design e cultura pop, buscando no desenho a falta de profundidade e cores chapadas. Essa experiência, juntamente com a bagagem adquirida pintando na rua, consolidou o que viriam a ser os elementos mais conhecidos da sua arte, que são a precisão dos traços, os contornos largos nos personagens e uma forte relação com design gráfico. Hoje em dia seu processo de pintura é exatamente o mesmo que usava para pintar na rua e confessa que, sem o treino no graffiti, não teria chegado aonde está agora.

Por bastante tempo o maior ícone do trabalho de Dalek foi o Space Monkey, personagem que apareceu pela primeira vez em 1995. Para o artista, os “macacos do espaço” são, por vezes, autorretratos, mas na maioria dos casos, um retrato da humanidade. As pessoas treinam macacos para fazerem atividades repetitivas, tipo apertar botões quando são enviados para o espaço e, apesar da diferença, é assim que o artista enxerga o condicionamento humano. Justamente por ter essa bagagem antropológica e sociológica, comportamento e cultura estão sempre permeando seus pensamentos na hora de criar. Porém, a ideia nunca foi colocar seus personagens em cenários, como em histórias em quadrinhos. Colocá-los em casas, carros, etc. Pois, para James, uma vez que inseridos nesses contextos, eles perdem qualquer tipo de qualidade artística.

De alguns anos para cá esses macacos do espaço começaram a evoluir. Parte disso vem da vontade de Dalek de continuar explorando o mesmo tema por muito tempo. Os macacos passaram a se inserir em um caos visual, em que muitas vezes são desconstruídos, beirando a abstração. A partir dessa produção mais nova, cor e linha dominaram suas obras e os space monkeys acabaram engolidos pelo ambiente geométrico e colorido. Porém, deixa claro que os famosos macacos não estão sendo exterminados, mas simplesmente desenvolvendo uma camuflagem mais apta para lidar com o vasto ambiente em que vivem. Novamente, mais ou menos como os humanos fazem. Eles ainda estão nas imagens, mesmo nos trabalhos mais abstratos, basta que o espectador os encontre.

Vale notar que a produção mais nova do artista também aumentou em dimensão, formando grandes instalações. E assim, nessa nova fase, o apelido Dalek está sendo deixado de lado, dando lugar a James Marshall.  Ele explica que não está abandonando o codinome com o qual é conhecido, mas que o que está fazendo agora simplesmente não se parece com “um tipo de coisa Dalek”.

Dalek e seus space monkeys literalmente conquistaram o mundo. Ele já participou de incontáveis exposições e diversas individuais, em vários cantos no planeta. Já emprestou sua arte para muitos tipos de produtos, de pranchas de skate a um carro da Toyota. Trabalhou com praticamente todas as marcas legais de art toys e streetwear e, em um dos games da série Tony Hawk, dá até pra jogar com um Space Monkey. Mais detalhes dessa metamorfose (de macaco do espaço para James Marshall) e dessa dominação mundial estão no bate-papo que segue.

Como seu envolvimento com o skate e com o punk aconteceu?
D: Punk e skate foram culturas que me permitiram ser quem eu era e quem eu queria ser. Foi uma estrutura positiva na minha juventude para me manter seguindo adiante. Me deram confiança, habilidades e um sistema confiável que se tornou central para quem eu era e para quem eu sou. Eu me envolvi com o punk pela oitava série. Por aí, foi em 1983. Me envolvi com o skate na mesma época, mas naquele tempo eles eram meio que uma coisa só.

E sobre suas influências, você diz que animações foram importantes. Você tem assistido animações atualmente? Quais suas favoritas?
D: Não… As influências mudaram ou desapareceram. Não presto muita atenção em nada mais. Só absorvo e regurgito.

E o que você tem ouvido atualmente?
D: Tudo ao mesmo tempo.

Você fez um montão de produtos, capas de disco, shapes, toys, roupas e até cortina pra banheiro. Você ainda tem alguma ambição nessa área? Tem algum produto que você adoraria fazer?
D: Não sei… Estou meio que focado nas minhas pinturas agora. Tenho algumas ideias, mas não tenho tempo de executá-las da maneira que gostaria. Então elas ficarão congeladas até eu conseguir fazer crescer mais algumas mãos no meu corpo, ou algo assim.

Você coleciona um monte de coisas, como toys, camisetas e skates. Vocês usa essas coisas ou guarda?
D: Tudo que eu coleciono está em caixas pegando poeira. Tenho toneladas de coisas legais, mas tudo escondido. Eu deveria pegar algumas e usar… Ou me livrar delas.

De todos os produtos que você já fez, qual seu preferido?
D: O shape do Natas Kaupas, pela Designarium.

Como foi fazer esse shape?
D: O shape do Natas foi divertido de fazer. Ele era um dos meus heróis na juventude. Ainda é. Então, ter uma chance de trabalhar num shape para ele foi uma grande honra.

Como foi trabalhar na indústria do skate?
D: Foi divertido. Foi um bom tempo. Conheci um monte de gente legal.

Você fez um monte de toys. Onde eu encontro todos?
D: Eu não fico catalogando essas coisas de toys. Foram só pela diversão. Ainda tenho algumas ideias que eu gostaria de tentar. Veremos. Mas não tenho ideia de onde andam meus toys por aí.

Você fez uma serigrafia de 26 cores, certo? Com o estúdio de design Decoder Ring. Você gosta de serigrafia?
D: Sim, eu curto. A print do Decoder Ring foi divertida. Me envolvi bastante com ela. Mas normalmente não me meto muito com isso. Outra pessoa imprime. Eu gostaria, mas não é prático no momento. Talvez quando eu ficar mais velho…

Você gosta de histórias em quadrinhos?
D: Eu não leio. Só olho as imagens.

De todos os seus projetos, eu particularmente gosto bastante do Purge of Dissidents (um CD junto com um DVD de animações de Dalek). Porque é um projeto que fez todo um sentido. É junto com o Tom Hazelmyer, dono da galeria que fez sua primeira individual. E que era dono do selo AmpRep. E o projeto inclui outras pessoas importantes da cena punk. Mas não é um projeto muito famoso… Por quê? Tem algo nele que você não gosta?
D: Eu amo o Tom. Mas esse projeto foi um pesadelo de fazer. Tomou muito tempo. E daí, na época em que terminamos, eu estava enjoado dele. Eu já tinha mais conhecimento e ideias melhores. É um projeto legal de rever às vezes. Mas acabo não voltando muito nele.

O Space Monkey apareceu no Tony Hawk Underground 2. Você gosta de video games? Joga?
D: Sim! Mas de vez em quando. Jogo bastante com os meus filhos. Lego Star Wars, Transformers, G.I. Joe, esse tipo de jogo.

Quantos anos tem seus filhos? Eles gostam do seu trabalho?
D: Meus filhos tem 5 e 3 anos agora. Eles farão 6 e 4 em Dezembro desse ano. Sim, eles gostam bastante do que eu faço. Eles gostam de desenhar e pintar. O mais velho, James, imita o que eu faço.


Você gosta de filmes de ficção científica e de terror?
D: Sim! Claro que gosto desse tipo de coisa. Mas não consigo me aprofundar muito. Esse é o problema. Muita coisa aparecendo no mundo e eu sem tempo suficiente para digerir, então boio bastante. Minha mente está num estado constante de flutuamento.

Você começou com as pinturas abstratas por volta de 2006. Por quê? Você estava procurando um novo caminho na sua arte?
D: Não sei por quê. Simplesmente pareceu que era a hora de avançar um pouco. É tudo dentro de um mesmo caminho, apenas a topografia que muda. E vou continuar mudando e ir até quem sabe onde.

Os tamanhos também mudaram nesse período? Ou você já trabalhava com grandes instalações antes?
D: Não. Nunca trabalhei com instalações durante o período dos Space Monkeys.  Esse novo trabalho funciona melhor em escalas maiores e instalações, eu acho. Tem uma conexão que funciona.

E o que representa essa abstração dos space monkeys nesses trabalhos?
D: Tem sempre um milhão de significados. E diferentes para cada um. Não quero abordar muito isso. Mas a maioria dos trabalhos novos tem a ver com super população, compressão e colapso. Três ideias que eu acho que são o centro do nosso mundo.

Eu li que você não gostava de dar títulos aos seus trabalhos.  Isso segue valendo? E como você lida com as regras de mercado da arte? Elas mudaram algo no seu trabalho?
D: Não me importo com regras. Ou qualquer tipo dessas besteiras. Sinto que estou no controle desse navio. Tenho que fazer o que parece certo para mim. É a única maneira de fazer boa arte. Quando você começa a envolver necessidades, interesses ou questões de outras pessoas, você contamina o que está fazendo. Isso é uma droga. É um beco sem saída, com certeza.  Mas é isso. Titular um trabalho faz as pessoas o verem de uma maneira específica. Ou procurarem uma associação entre o título e o trabalho. E não quero isso. Pelo menos não agora. Acho que é importante permitir que as pessoas se conectem com a arte da maneira que elas achem melhor. Essa é a importância da comunicação. A habilidade de passar uma ideia que os outros interpretem com suas próprias experiências de vida. As pessoas se identificam com coisas diferentes por diferentes razões. Independentemente do que realmente é. Titular, criar rótulos, serve apenas para criar divisões ou níveis. Isso não tem sentido. Acho que é um jeito das pessoas tentarem ter algum poder, mas de maneira superficial. Isso pertence a nós, que pertence a eles. É uma besteira. Vivemos no mesmo planeta e somos as mesmas criaturas.

Como é o seu processo de criação? Você faz rascunhos no papel ou em vetor?
D: Não. Sem rascunhos. É impossível replicar uma ideia. Elas são ideias puras somente uma vez. Um rascunho ou uma cópia gerada por computador rui qualquer conexão com a pintura em si.

Finalmente, qual sua maior ambição na arte agora?
D: Fazer mais pinturas. Ver para onde isso vai… Maiores. Mais complexas. Eu adoraria passar um ano trabalhando em uma única pintura.

____

Texto: Ana Ferraz
Imagens: Acervo artista